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15 de out. de 2026

☀️ Santo do dia: SANTA TERESA DE JESUS

A mulher que aprendeu a falar com Deus


Teresa de Cepeda y Ahumada nasceu em Ávila, na Espanha, em 28 de março de 1515. Séculos depois, seria conhecida como Santa Teresa de Jesus, Teresa d’Ávila, reformadora do Carmelo e uma das maiores mestras de oração da história da Igreja. Mas, antes de ser a grande mística, Teresa foi uma menina cheia de imaginação, uma adolescente que gostava de se arrumar, uma jovem apaixonada por livros, uma religiosa que durante anos lutou com suas próprias fraquezas e uma mulher que precisou aprender, pouco a pouco, a entregar-se inteiramente a Deus.


A MENINA QUE QUERIA VER DEUS


Teresa cresceu numa família numerosa e profundamente cristã. Seu pai, Alonso Sánchez de Cepeda, gostava de bons livros, e a pequena Teresa aprendeu cedo a ler. Entre os livros que caíram em suas mãos estavam as histórias dos santos e dos mártires. Aquelas histórias incendiaram a imaginação da menina. Teresa conta no Livro da Vida que ela e seu irmão Rodrigo liam juntos as vidas dos santos e ficavam impressionados sobretudo com os mártires. Havia uma coisa que os fascinava: os mártires sofriam durante pouco tempo e depois possuíam Deus “para sempre, para sempre, para sempre”.


Teresa tinha cerca de sete anos quando os dois tomaram uma decisão espantosa: iriam embora de casa para a terra dos mouros e ali morreriam mártires. Não era brincadeira. As duas crianças saíram de Ávila. Queriam morrer por Cristo para poder vê-lo. A aventura terminou rapidamente. Um tio encontrou os dois ainda no caminho e os levou de volta para casa. Como não tinham conseguido o martírio, resolveram tentar outra coisa: construir pequenas ermidas no jardim de casa e viver como eremitas.


Muitos anos depois, Teresa ainda se lembraria daquela sede infantil de eternidade. O desejo era ingênuo, mas havia nele alguma coisa que nunca desapareceria de sua vida: Teresa queria Deus inteiro.


MAS TERESA CRESCEU...


A menina cresceu e as coisas ficaram mais complicadas. A própria Teresa é surpreendentemente sincera ao contar sua adolescência. Começou a preocupar-se muito com a aparência. Gostava de roupas, perfumes, conversas e de ser apreciada. Também se apaixonou pelos livros de cavalaria, os romances de aventura e amor daquela época. Ela mesma reconhece no Livro da Vida: “Comecei a enfeitar-me e a desejar agradar com a boa aparência.”


Teresa percebeu mais tarde que seu coração começava a se dispersar. Sua mãe, Beatriz de Ahumada, morreu quando Teresa tinha cerca de treze anos. A perda foi profunda. Teresa conta que foi diante de uma imagem de Nossa Senhora e, chorando, pediu à Virgem que passasse a ser sua mãe.


Seu pai começou a preocupar-se com algumas de suas amizades e, quando Teresa tinha aproximadamente dezesseis anos, colocou-a no convento das Agostinianas de Nossa Senhora das Graças, em Ávila, onde jovens recebiam educação. Teresa não queria ser freira. Mas ali começou lentamente a pensar na vida religiosa. A convivência com boas religiosas e, especialmente, o testemunho de algumas delas fizeram renascer dentro dela aquela pergunta que a acompanhava desde pequena: e se Deus me quisesse inteiramente para Ele?


UMA FUGA PARA ENTRAR NO CONVENTO


Seu pai não queria permitir que ela entrasse imediatamente na vida religiosa. Teresa então tomou uma decisão radical. Na manhã de 2 de novembro de 1535, aos vinte anos, saiu escondida da casa paterna e entrou no Mosteiro Carmelita da Encarnação, em Ávila. Ela mesma recordaria que deixar a casa do pai foi tão doloroso que lhe parecia que “cada osso se separava por si mesmo”. Teresa amava profundamente sua família. Mas entrou. No ano seguinte recebeu o hábito carmelita e, em 1537, fez sua profissão religiosa.


Parecia que a história estava resolvida. Teresa tinha encontrado Deus. Não. Na realidade, sua luta estava apenas começando.


…A VIDA RELIGIOSA COMEÇA A ADORMECER


Pouco depois da profissão, Teresa ficou gravemente doente. Seu estado tornou-se tão sério que, durante alguns dias, chegaram a pensar que estivesse morta. Recuperou-se, mas ficou por longo tempo extremamente debilitada e chegou a permanecer quase paralisada.


Ao recuperar progressivamente a saúde, voltou à vida do grande Mosteiro da Encarnação. Ali viviam muitas religiosas e a clausura era muito diferente daquela que Teresa mais tarde estabeleceria em seus conventos reformados. Havia visitas, conversas no locutório, relações sociais e frequente contato com pessoas de fora. 

Teresa gostava das pessoas. Gostava de conversar. Era inteligente, espirituosa e possuía enorme capacidade de amizade. Ela mesma reconhece que tinha facilidade para conquistar a simpatia dos outros: “o Senhor me dava graça em dar contento onde quer que estivesse, e assim era muito querida” (Vida 2,8). E justamente aí começou uma das batalhas mais longas de sua vida.

Não aconteceu uma grande queda de uma vez. Foi muito mais sutil. Uma conversa, depois outra; uma amizade à qual se apegava demais; visitas que lhe agradavam; pequenos passatempos; preocupação com aquilo que os outros pensavam dela. Nada disso, tomado isoladamente, parecia terrível. Mas tudo junto começou lentamente a ocupar o espaço que antes pertencia a Deus. Quando, anos depois, olhou para esse período, Teresa descreveu o processo com uma precisão impressionante: “Comecei, de passatempo em passatempo, de vaidade em vaidade, de ocasião em ocasião...” (Vida 7,1). 

É quase a descrição daquilo que a tradição espiritual chama de torpor espiritual ou acídia. Não significa simplesmente preguiça. Teresa não ficava necessariamente sem fazer nada. Pelo contrário: podia conversar, relacionar-se, ocupar-se com muitas coisas e continuar exteriormente vivendo como religiosa. O problema acontecia por dentro: seu coração estava ficando disperso e as coisas de Deus começavam a perder o sabor.

Ela mesma reconhece que conservava exteriormente “boas aparências” (Vida 7,1). Uma pessoa pode continuar fazendo muitas coisas religiosas, cumprir suas obrigações e parecer perfeitamente bem aos olhos dos outros enquanto, por dentro, começa lentamente a adormecer. Teresa percebeu isso: “Começou-me a faltar o gosto e capricho nas coisas de virtude” (Vida 7,1). 

Aos poucos, aconteceu uma coisa perigosa: as coisas de Deus começaram a perder o gosto, enquanto outras coisas pareciam cada vez mais interessantes. Rezar ficou mais difícil, ficar em silêncio com Deus começou a pesar, enquanto uma conversa, uma amizade ou um passatempo davam satisfação imediata. Mais tarde, Teresa entendeu o que estava acontecendo: “Via eu muito claro, Senhor meu, que me faltava isto a mim por faltar eu a Vós” (Vida 7,1).

Teresa descreve muito bem essa divisão interior. Quando estava conversando, se distraindo e aproveitando as coisas de que gostava, a lembrança de Deus aparecia e incomodava sua consciência: no fundo, sabia que estava se afastando d’Ele. Mas acontecia também o contrário. Quando finalmente parava para rezar e tentava ficar a sós com Deus, as coisas que havia deixado lá fora continuavam puxando seu coração: lembrava-se das amizades, das conversas, das pessoas e das pequenas satisfações às quais estava apegada. Por isso escreve: “Quando estava nos contentos do mundo, recordar-me do que devia a Deus era-me penoso; quando estava com Deus, os apegos às coisas do mundo me deixavam inquieta” (Vida 8,2).

Era como viver puxada pelos dois lados. Quando estava no mundo, Deus não a deixava em paz; quando estava com Deus, seus apegos não a deixavam em paz. O problema não era que Teresa tivesse deixado de amar Deus. Ela ainda O amava, mas amava também muitas outras coisas das quais não queria abrir mão. Por isso não conseguia estar inteira em lugar nenhum: divertia-se, mas ficava com peso na consciência; rezava, mas seu coração corria para aquilo de que sentia falta.

Era justamente esse coração dividido que a fazia sofrer. Teresa queria continuar perto de Deus sem renunciar àquilo que a afastava d’Ele. Mais tarde, olhando para aqueles anos, resumiu sua luta numa frase muito clara: “Por uma parte me chamava Deus; por outra, eu seguia o mundo” (Vida 7,17). O verdadeiro passo que ainda faltava era parar de tentar ficar com os dois e tomar uma decisão: entregar-se inteira a Deus.

Teresa estava experimentando na própria pele como o coração pode ir adormecendo espiritualmente sem abandonar Deus de uma vez. Ela não deixou de acreditar, nem deixou de amar Deus. O problema é que começou a encher o coração com tantas outras pequenas coisas que já não conseguia estar inteira diante d’Ele. Deus continuava ali, mas já não ocupava sozinho o centro.

E então aconteceu algo ainda mais perigoso: Teresa começou a fugir justamente daquilo que poderia ajudá-la a sair daquela situação — a oração. Ela percebia que falava intimamente com Deus durante a oração, mas depois continuava agarrada aos mesmos apegos. Isso começou a provocar vergonha: “Eu já tinha vergonha de voltar a me aproximar de Deus nessa amizade tão íntima que é a oração” (Vida 7,1).

O pensamento parecia até humilde: “Como posso ficar diante de Deus e falar com Ele como uma amiga, se depois continuo vivendo desse jeito?” E Teresa tomou a decisão errada: em vez de abandonar aquilo que a afastava de Deus, começou a abandonar a oração que poderia aproximá-la d’Ele. Mais tarde percebeu a armadilha e chamou aquilo de “o mais terrível engano que o demônio me podia fazer debaixo de aparência de humildade” (Vida 7,1). Continuou fazendo as orações vocais às quais estava obrigada como religiosa, mas foi deixando a oração mental, aquele encontro pessoal, silencioso e verdadeiro com Deus.

E assim Teresa entrou num círculo muito perigoso: quanto menos rezava, mais fraca ficava; quanto mais fraca ficava, mais procurava distrações e compensações; quanto mais se enchia dessas coisas, menos vontade tinha de rezar. E isso não durou alguns dias. Durou anos. Quando seu pai adoeceu e Teresa foi cuidar dele, percebeu com muita lucidez a situação em que havia chegado: seu pai estava fisicamente doente, mas ela se sentia “mais enferma na alma que ele no corpo” (Vida 7).

É importante compreender que Teresa não descreve esses anos como uma sucessão de grandes escândalos. Seu drama era mais fino e talvez por isso mais perigoso: era uma vida religiosa acomodada, dividida e espiritualmente enfraquecida. Queria Deus, mas não queria perder certas consolações humanas. Queria oração, mas queria também seus passatempos. Queria pertencer inteiramente a Cristo, mas permanecia presa a determinadas amizades. Queria avançar, mas não conseguia decidir-se completamente.


Ela descreveu essa contradição de maneira extraordinária: “Queria conciliar estes dois contrários, tão inimigos um do outro, como são vida espiritual e contentos, gostos e passatempos sensíveis” (Vida 8,2).

Aqui está o coração da crise de Teresa. Ela não havia perdido a fé, nem a vocação, nem sequer abandonado completamente a oração. Não conseguia entregar-se por inteiro. Mais tarde escreveria: “Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, mas pelejava com uma sombra de morte” (Vida 8,12). E, olhando para aquele período, reconheceria “quão atada me via para não me determinar a dar-me de todo a Deus” (Vida 9,8).

Talvez essa seja a melhor definição teresiana daquele longo período de torpor espiritual: não conseguir determinar-se a dar-se totalmente a Deus. Teresa entrou no convento aos vinte anos, vestiu o hábito, fez os votos e continuou sendo religiosa, mas ainda precisava chegar àquela decisão firme que mais tarde expressaria como “determinada determinação”. E aprendeu da maneira mais dolorosa uma lição que depois ensinaria aos outros: justamente quando uma pessoa está espiritualmente fraca, não deve abandonar a oração.


UM CRISTO COBERTO DE CHAGAS


A mudança decisiva aconteceu por volta de 1554, quando Teresa tinha aproximadamente 39 anos. Ela entrou um dia no oratório e viu uma imagem de Cristo muito chagado. Não era a primeira vez que via uma imagem de Cristo, mas naquele dia alguma coisa aconteceu. Teresa olhou para aquele corpo coberto de feridas e percebeu de maneira nova tudo aquilo que Ele havia sofrido por ela.


Caiu de joelhos. Ela mesma conta: “Foi tanto o que senti por ter sido tão mal agradecida àquelas chagas, que o coração parecia partir-se-me.” Prostrou-se diante de Cristo e suplicou que Ele lhe desse forças para não voltar atrás. Não queria mais continuar naquela vida dividida.


Essa cena é fundamental para entender Teresa. Sua grande transformação não aconteceu quando tinha sete anos, nem quando entrou no convento aos vinte, nem quando fez os votos. Aconteceu quando já era religiosa havia quase vinte anos. Teresa precisou converter-se dentro do convento. E tinha quase quarenta anos.


A partir daí sua vida de oração começou a aprofundar-se de maneira extraordinária.


“TRATAR DE AMIZADE COM QUEM SABEMOS QUE NOS AMA”


Teresa começou a experimentar uma relação cada vez mais profunda com Cristo. Vieram graças místicas extraordinárias: experiências intensas da presença de Deus, êxtases, visões e aquilo que a tradição chama de transverberação, quando Teresa descreveu a experiência espiritual de ter o coração atravessado pelo amor de Deus.


Mas Teresa nunca quis que a oração fosse reduzida a fenômenos extraordinários. Sua definição é muito mais simples e talvez seja uma das frases mais bonitas que escreveu: Para mim, a oração é simplesmente uma amizade: estar muitas vezes a sós com Aquele que sabemos que nos ama.” (Vida 8,5)


Agora compreendemos melhor a força dessa frase. Quem a escreveu foi justamente uma mulher que havia cometido o erro de abandonar durante algum tempo esse encontro pessoal com Deus. Teresa tinha aprendido que rezar era estar com Alguém que nos ama. Não era fugir da realidade, produzir emoções ou simplesmente dizer muitas palavras. Era amizade. Uma amizade que precisava crescer até ocupar toda a vida. E quanto mais Teresa mergulhava na oração, mais ativa se tornava.


UMA PEQUENA CASA COM POUCAS IRMÃS


Teresa começou a perceber que Deus lhe pedia algo novo. Desejava viver a Regra do Carmelo com maior simplicidade, pobreza, silêncio, fraternidade e oração. Sonhava com pequenas comunidades nas quais poucas irmãs pudessem viver profundamente voltadas para Deus e para as necessidades da Igreja.


A ideia encontrou muita resistência. Houve religiosas contrárias, pessoas importantes da cidade contrárias e autoridades preocupadas. Teresa foi criticada e considerada inquieta. Mesmo assim, em 24 de agosto de 1562, nasceu em Ávila o pequeno Mosteiro de São José. Era o início de uma aventura enorme. 

Teresa queria poucas religiosas, uma comunidade simples, pobre e fraterna. Não queria mulheres fechadas num convento simplesmente para escapar do mundo. Queria mulheres que sustentassem a Igreja com sua oração. Ela escreveu: “Está o mundo ardendo.” Teresa enxergava as divisões religiosas da Europa, as guerras e os sofrimentos da Igreja. Não podia atravessar continentes nem subir aos púlpitos para pregar. Mas podia rezar. E podia formar mulheres capazes de transformar a própria vida numa oração pela Igreja.


UMA FREIRA PELAS ESTRADAS DA ESPANHA


A contemplativa começou então a viajar. E viajou muito. Em carroças desconfortáveis, por estradas ruins, enfrentando frio, calor, lama, doenças, falta de dinheiro e intermináveis negociações. A grande mística espanhola revelou-se também uma extraordinária organizadora.


Procurava casas, negociava contratos, escrevia cartas, discutia preços, falava com bispos, convencia benfeitores, enfrentava autoridades, organizava comunidades. E rezava. Teresa não separava as duas coisas. A mulher dos êxtases era também a mulher que sabia que as irmãs precisavam comer e que as contas precisavam fechar. 

Ao longo dos anos, fundou dezessete mosteiros de Carmelitas Descalças. E a reforma chegou também ao ramo masculino. Nessa história entrou um jovem carmelita chamado João da Cruz. Teresa percebeu rapidamente a profundidade espiritual daquele pequeno frade. Juntos participaram do nascimento do Carmelo Descalço masculino. Mas a reforma trouxe conflitos duríssimos dentro da própria Ordem. João da Cruz chegou a ser preso por seus próprios confrades. Teresa recebeu ordens para interromper temporariamente suas fundações e permanecer num convento. Ela sofreu, reclamou, escreveu, obedeceu, esperou e continuou.


“NADA TE PERTURBE”


Teresa envelhecia, mas parecia incapaz de parar. Ao mesmo tempo, escrevia. Nasceram obras que se tornariam clássicos da espiritualidade cristã: o Livro da Vida, o Caminho de Perfeição, as Fundações e, sobretudo, o Castelo Interior ou Moradas. 

No Castelo Interior, Teresa compara a alma humana a um magnífico castelo de cristal, no centro do qual habita Deus. A vida espiritual é uma viagem para dentro desse castelo, não para ficar fechado em si mesmo, mas para chegar ao centro, onde acontece a união com Deus, e depois voltar à vida transformado pelo amor.


Entre os textos tradicionalmente ligados a Teresa encontra-se também aquele pequeno poema que atravessou os séculos:


Nada te perturbe,


nada te espante,


tudo passa,


Deus não muda.


A paciência tudo alcança.


Quem a Deus tem


nada lhe falta.


Só Deus basta.


A menina que repetia “para sempre, para sempre” havia finalmente descoberto aquilo que procurara durante toda a vida: Só Deus basta.



“SOU FILHA DA IGREJA”


Em 1582, Teresa já tinha 67 anos. Estava cansada, doente e fisicamente consumida pelas viagens e pelo trabalho. Mesmo assim, continuava viajando. Durante sua última jornada chegou ao mosteiro de Alba de Tormes. Ali sua saúde piorou rapidamente e Teresa percebeu que estava morrendo. 

Segundo a tradição carmelitana, uma das expressões que marcaram seus últimos momentos foi: “Enfim, Senhor, sou filha da Igreja.” Era uma síntese extraordinária de sua vida. A mulher que havia sido investigada, incompreendida e questionada por suas experiências místicas morria afirmando sua pertença à Igreja. 

Teresa morreu na noite de 4 de outubro de 1582. Naquele momento estava entrando em vigor a reforma do calendário determinada pelo Papa Gregório XIII. Para corrigir a diferença acumulada pelo antigo calendário juliano, depois de 4 de outubro de 1582 passou-se diretamente para 15 de outubro. Por isso Teresa morreu na passagem histórica do dia 4 para o dia 15 de outubro de 1582, e justamente 15 de outubro tornou-se o dia de sua memória litúrgica.


A PRIMEIRA MULHER DOUTORA DA IGREJA


Em 12 de março de 1622, o Papa Gregório XV canonizou Teresa juntamente com Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Filipe Néri e Isidoro Lavrador. Quase quatro séculos depois, em 27 de setembro de 1970, na Basílica de São Pedro, São Paulo VI proclamou Santa Teresa de Jesus Doutora da Igreja. Era a primeira vez na história que uma mulher recebia oficialmente esse título.


Paulo VI chamou Teresa de “escritora genialíssima e fecunda, mestra de vida espiritual, incomparável na contemplação e infatigável na ação” e afirmou que a grande mensagem que ela continuava oferecendo à Igreja era “a mensagem da oração”. Poucos dias depois, em 4 de outubro, proclamaria também Santa Catarina de Sena Doutora da Igreja.


Talvez a história de Teresa possa ser resumida justamente aí. A menina que desejava Deus desde pequena entrou no convento aos vinte anos, mas descobriu que vestir o hábito não significava ainda ter entregado todo o coração. Conheceu a dispersão, a acomodação, os apegos e até o abandono temporário da oração mental. Quando já era religiosa havia quase vinte anos, ajoelhou-se diante de Cristo coberto de chagas e encontrou coragem para “dar-se de todo a Deus”.


Teresa descobriu assim, na própria fraqueza, aquilo que depois ensinaria à Igreja inteira: nunca abandonar a oração. Porque foi permanecendo diante de Cristo que a religiosa dividida tornou-se a grande mestra espiritual capaz de definir a oração com uma simplicidade que atravessaria os séculos: “tratar de amizade... com quem sabemos que nos ama.”


FONTES PRINCIPAIS


— SANTA TERESA DE JESUS. Livro da Vida, especialmente caps. 1–9: infância, adolescência, vocação, enfermidade, dispersão espiritual, abandono temporário da oração, luta entre “Deus e o mundo” e conversão diante da imagem de Cristo chagado.


— SANTA TERESA DE JESUS. Caminho de Perfeição.


— SANTA TERESA DE JESUS. Castelo Interior ou Moradas.


— SANTA TERESA DE JESUS. Livro das Fundações.


— PAULO VI. Carta Apostólica Multiformis Sapientia Dei, 27 de setembro de 1970, proclamação de Santa Teresa de Jesus como Doutora da Igreja.


— PAULO VI. Homilia para a proclamação de Santa Teresa de Jesus como Doutora da Igreja, 27 de setembro de 1970.


— GREGÓRIO XV. Canonização de Santa Teresa de Jesus, 12 de março de 1622.


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