
5 de set. de 2026
☀️ Santo do dia:Santa Teresa de Calcutá
“Venha, seja a minha luz”: a mulher que permaneceu fiel mesmo quando não sentia Deus
Gonxha Agnes Bojaxhiu nasceu em 26 de agosto de 1910, em Skopje, numa família católica de origem albanesa. Era a caçula de Nikola e Drane Bojaxhiu. Cresceu numa casa em que a fé estava ligada à caridade concreta, e ainda adolescente começou a sentir o desejo de tornar-se missionária. Aos 18 anos, deixou sua família e entrou nas Irmãs de Loreto, na Irlanda. Pouco depois partiu para a Índia, onde chegou em 1929 (aos 19 anos!). Recebeu o nome de Irmã Maria Teresa, em homenagem a Santa Teresinha do Menino Jesus, e passou a ensinar numa escola feminina em Calcutá. Em 1937, aos 26 anos, fez os votos perpétuos e passou a ser chamada de Madre Teresa. Durante quase vinte anos viveu feliz como religiosa de Loreto, ensinando, dirigindo a escola, rezando e servindo suas alunas.
A Santa Sé recorda que já nesse período ela era conhecida por sua caridade, altruísmo, coragem, capacidade de trabalho e talento para organizar. Era também uma mulher de oração profunda, muito ligada às suas irmãs e às alunas. Portanto, quando chegou 1946, Teresa não era uma religiosa que acabava de descobrir o sofrimento humano: havia quase duas décadas que vivia na Índia, e muitos anos em Calcutá, uma cidade marcada por contrastes sociais enormes.
É importante compreender isso geograficamente. Teresa não estava vivendo numa Europa confortável enquanto a pobreza indiana permanecia distante. Ela estava em Calcutá. O convento e a escola de Loreto ofereciam uma vida organizada e protegida, mas, do lado de fora, havia bairros superpovoados, fome, doenças, mendigos e pessoas vivendo em condições extremas. A pobreza fazia parte do ambiente cotidiano daquela cidade. Por isso, seria historicamente errado imaginar que apenas em 1946 ela percebeu que existiam pobres ao seu redor.
Os anos imediatamente anteriores foram ainda mais duros. Em 1943, quando Teresa tinha 33 anos, Bengala sofreu uma das maiores tragédias de sua história: a grande fome de Bengala, que matou uma quantidade enorme de pessoas. Calcutá recebeu multidões de famintos que chegavam das zonas rurais procurando comida e sobrevivência. Três anos depois, em 1946, a cidade foi sacudida também por violentos conflitos políticos e comunitários, com milhares de mortos e feridos. Madre Teresa viveu dentro desse contexto. Não precisamos inventar cenas específicas que as fontes não registraram, mas o dado histórico é claro: quando fez aquela viagem de trem em setembro de 1946, ela já havia passado anos convivendo com uma cidade ferida pela pobreza, pela fome e pela violência.
Portanto, o que aconteceu em 10 de setembro de 1946, o famos dia do “chamado”... “Tenho sede!” foi o amadurecimento de uma longa história. Madre Teresa tinha 36 anos e viajava de trem de Calcutá para Darjeeling, onde faria seu retiro espiritual anual. Durante a viagem viveu aquilo que depois chamou de “o chamado dentro do chamado”. Compreendeu que Jesus lhe pedia uma mudança radical em sua própria forma de vida: não apenas continuar ajudando os pobres como religiosa de Loreto, mas deixar aquela estrutura, ir diretamente ao encontro dos abandonados, viver muito mais perto deles e dedicar-se inteiramente aos “mais pobres dos pobres”.
Quando chegou aquele 10 de setembro de 1946, os pobres não eram uma novidade para Madre Teresa. Havia quase vinte anos que a Índia estava entrando em seu coração. O que aconteceu naquele dia foi muito mais profundo. Aos 36 anos, enquanto viajava de trem de Calcutá para Darjeeling para fazer seu retiro anual, Teresa viveu aquilo que depois chamou de “o chamado dentro do chamado”. No centro daquela experiência estava uma palavra de Jesus crucificado que se tornaria o coração de toda a sua vida: “Tenho sede.”
Teresa compreendeu essa sede não simplesmente como a sede física de Cristo agonizante na Cruz, mas como a sede de Jesus pelo amor de cada pessoa, a sede pelas almas, sobretudo por aquelas que se sentiam abandonadas, rejeitadas e não amadas. A documentação oficial das Missionárias da Caridade afirma que, naquele dia, “a sede de Jesus por amor e pelas almas tomou posse de seu coração”. A partir daí, saciar essa sede tornou-se a força que conduziu sua existência.
Nas semanas e meses seguintes, aquela experiência foi se tornando mais concreta. Por meio das inspirações e experiências interiores que depois confiou aos seus diretores espirituais, Teresa compreendeu que Jesus lhe pedia para deixar Loreto e ir ao encontro dos “mais pobres dos pobres”. Foi nesse aprofundamento que percebeu também o pedido de Cristo: “Venha, seja a minha luz.” Jesus queria chegar àqueles que se sentiam esquecidos, e Teresa deveria levar-lhes seu amor.
As duas frases, portanto, não competem entre si. “Tenho sede” revela o coração da vocação; “Venha, seja a minha luz” revela a missão que nasce dessa sede.
E isso explica algo que depois veremos em todas as casas das Missionárias da Caridade. Ao lado do crucifixo estão escritas as palavras: “I THIRST — TENHO SEDE.”
Não é simplesmente uma frase de devoção. É o coração do carisma. As irmãs saem para procurar os pobres porque querem responder à sede de Cristo. Alimentar um faminto, lavar um doente, acolher uma criança abandonada ou segurar a mão de alguém que está morrendo sozinho significa dizer a Jesus: “Quero saciar a tua sede.”
E não tratou aquela experiência como um impulso passageiro. Durante quase dois anos, rezou, discerniu, conversou com seus superiores e esperou as autorizações da Igreja. Só em 1948 deixou Loreto. Depois fez uma preparação básica de enfermagem e voltou para Calcutá. A partir daí, aquilo que vinha amadurecendo havia anos tornou-se sua nova vida: visitar famílias nas favelas, lavar feridas de crianças, cuidar de doentes abandonados, aproximar-se de pessoas que morriam de fome e tuberculose e começar todos os dias diante de Jesus na Eucaristia antes de sair, Rosário nas mãos, para procurá-lo nas ruas.
Em 1948, aos 37 anos, recebeu permissão para deixar o convento de Loreto e começar sua nova missão. Trocou o hábito religioso pelo sári branco com bordas azuis, fez uma breve formação de enfermagem em Patna e voltou para Calcutá. Começou praticamente sozinha. Visitava famílias pobres, cuidava de doentes, lavava feridas e abriu uma pequena escola para crianças. Logo percebeu que muitos seres humanos morriam nas ruas sem assistência e sem ninguém ao lado. Começou então a recolher esses moribundos. Queria que uma pessoa que tivesse vivido abandonada pudesse pelo menos morrer sabendo que era amada.
Em 1950, a nova congregação das Missionárias da Caridade recebeu aprovação eclesiástica. Outras jovens começaram a unir-se a Teresa. Em 1952, abriu em Calcutá a casa para moribundos conhecida como Nirmal Hriday, “Coração Puro”. Ali eram acolhidos homens e mulheres encontrados nas ruas em condições extremas. Recebiam banho, alimento, remédios quando disponíveis, companhia e cuidado até a morte. Para Madre Teresa, cada pessoa tinha uma dignidade que a pobreza, a doença e a sujeira não podiam destruir. Nas capelas das Missionárias da Caridade, perto do crucifixo, ficou escrita uma frase que resumia sua missão: “I THIRST — TENHO SEDE.” Era a palavra de Jesus na cruz. Teresa acreditava que a sede dos pobres e a sede de Cristo estavam profundamente ligadas.
Sua vida era estruturada pela oração. O dia começava cedo com meditação, oração comunitária e Santa Missa. A Eucaristia ocupava o centro de sua vida. Depois as irmãs saíam para atender os pobres. Mais tarde, Madre Teresa introduziu também uma hora diária de adoração eucarística nas comunidades das Missionárias da Caridade. Ela própria passava longos períodos diante do Santíssimo Sacramento. Rezava o Rosário, fazia exame de consciência, procurava regularmente a confissão e insistia com as irmãs para que o serviço aos pobres nascesse da oração. Para ela, era preciso encontrar primeiro Jesus no altar para reconhecê-lo depois no corpo doente e ferido das pessoas abandonadas.
Mas havia um segredo que quase ninguém conhecia. Depois de sua morte, cartas escritas aos confessores e diretores espirituais revelaram que Madre Teresa passou décadas experimentando uma profunda escuridão interior. Não era falta de fé nem simples dúvida intelectual sobre a existência de Deus. Era uma dolorosa ausência de consolação espiritual. Ela acreditava em Deus, desejava Jesus e continuava rezando, mas muitas vezes não sentia sua presença. Falava de solidão, frieza, escuridão e de uma sensação quase permanente de estar afastada de Deus. A própria documentação oficial de sua beatificação descreve essa experiência como uma “profunda, dolorosa e permanente sensação de estar separada de Deus, até mesmo rejeitada por Ele”, acompanhada ao mesmo tempo por um desejo cada vez maior de Deus.
Essa escuridão começou justamente depois do período em que Teresa experimentou com força o “chamado dentro do chamado”. Primeiro sentiu Jesus muito próximo, chamando-a para uma missão concreta. Depois, quando começou efetivamente a trabalhar entre os pobres, aquela consolação desapareceu quase completamente. Isso lhe causou grande sofrimento. Queria sentir Jesus e encontrava silêncio. Queria experimentar seu amor e não conseguia. Mesmo assim, não abandonou a oração. Continuou a Missa, a adoração, o Rosário, a meditação, a confissão e o serviço aos pobres. Não esperava sentir para continuar fiel.
Com o tempo, especialmente com a ajuda do jesuíta Joseph Neuner, começou a compreender aquela escuridão de outra maneira. Todos os dias Teresa atendia pessoas que experimentavam uma pobreza terrível: não apenas falta de comida ou de casa, mas a sensação de não serem amadas por ninguém. Moribundos abandonados, crianças sem família, doentes rejeitados, pessoas que se sentiam inúteis. Teresa começou a perceber que sua própria solidão interior a aproximava misteriosamente dessas pessoas. Ela servia homens e mulheres que se sentiam abandonados enquanto carregava dentro de si uma experiência semelhante de abandono.
Também percebeu uma relação profunda com Jesus crucificado. Na cruz, Cristo havia gritado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” e também “Tenho sede.” Teresa começou a interpretar sua própria escuridão como uma participação na sede e no abandono de Jesus. Não sentia sua presença, mas continuava escolhendo permanecer com Ele. E continuava procurando-o nos pobres.
Essa foi talvez uma das formas mais profundas de sua fidelidade. Madre Teresa poderia ter pensado: “Se não sinto mais Deus, alguma coisa deu errado.” Não fez isso. Continuou rezando todos os dias. Continuou ajoelhando-se diante do Santíssimo. Continuou recebendo a Eucaristia. Continuou levantando-se cedo. Continuou entrando nas casas e nas ruas onde havia sofrimento. Continuou servindo pessoas que ninguém queria tocar. Continuou fazendo aquilo que acreditava que Jesus lhe havia pedido.
Quando sentia, permanecia. Quando não sentia, permanecia.
Sua fama cresceu no mundo inteiro. Surgiram casas para doentes, crianças abandonadas, leprosos e pessoas sem família. Em 1979, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, mas continuou dizendo que os reconhecimentos pertenciam aos pobres. Viajou por muitos países, encontrou líderes políticos e religiosos e tornou-se uma das figuras cristãs mais conhecidas do século XX. Ao mesmo tempo, por dentro, a escuridão continuava.
Com os anos, sua saúde enfraqueceu. Vieram problemas cardíacos e outras enfermidades. Mesmo assim, continuou visitando comunidades e acompanhando a congregação enquanto teve forças. Em 1997, quando morreu, as Missionárias da Caridade já eram milhares e estavam presentes em centenas de casas espalhadas pelo mundo.
Madre Teresa morreu em 5 de setembro de 1997, em Calcutá, aos 87 anos. Recebeu funeral de Estado na Índia e foi sepultada na Casa-Mãe das Missionárias da Caridade. São João Paulo II autorizou que sua causa de beatificação começasse antes do prazo habitual e a proclamou beata em 19 de outubro de 2003. Em 4 de setembro de 2016, Papa Francisco a declarou santa.
Talvez o aspecto mais impressionante de sua vida seja justamente este: o mundo via nela uma mulher cheia de luz, mas Teresa passou grande parte da vida interiormente na escuridão. Não esperou sentir Deus para amar. Não esperou desaparecer a secura espiritual para permanecer fiel. Continuou rezando, adorando, recebendo a Eucaristia e cuidando dos pobres. O “chamado dentro do chamado” recebido naquele trem em 1946 continuou sendo sua direção até o fim: “Venha, seja a minha luz.”
E foi isso que fez. Mesmo quando quase não conseguia sentir a luz, levou-a aos outros.
Fontes
A reconstrução baseia-se principalmente na biografia oficial preparada pela Santa Sé para a beatificação de Madre Teresa, nos documentos de sua canonização por Papa Francisco em 2016, nas cartas e testemunhos reunidos em sua causa e na documentação das Missionárias da Caridade/Mother Teresa Center. A descrição de sua longa “escuridão” interior está documentada em suas cartas espirituais e foi reconhecida oficialmente pela Santa Sé como uma experiência prolongada de ausência de consolação, vivida sem abandono da fé, da oração ou do serviço aos pobres.