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12 de ago. de 2026

☀️ Santo do dia: Santa Joana Francisca de Chantal 

uma vida transformada pela dor, pela amizade e pela confiança em Deus


Joana Francisca Frémyot nasceu em Dijon, na França, em 1572, em uma família importante e profundamente católica. Perdeu a mãe ainda muito pequena e foi educada principalmente pelo pai, Bénigne Frémyot, presidente do Parlamento da Borgonha. Desde jovem era inteligente, determinada e possuía uma fé sincera. Sua vocação, porém, não começou num convento.

Em 1592, com cerca de vinte anos, casou-se com Cristóvão de Rabutin, barão de Chantal. O casamento foi feliz. Joana amava profundamente o marido e dedicava-se à família, aos filhos e à administração das propriedades. O casal teve seis filhos, dos quais quatro chegaram à idade adulta.

Joana não vivia a fé de maneira abstrata. Cuidava dos pobres, ajudava famílias necessitadas e procurava fazer da própria casa um lugar de caridade. Era esposa, mãe e responsável por uma grande família, mas já tinha um forte desejo de pertencer inteiramente a Deus. 

De repente. sua vida foi atingida por uma tragédia. Em 1601, durante uma caçada, seu marido foi ferido acidentalmente por um tiro disparado por um amigo. Morreu alguns dias depois. Joana tinha apenas vinte e oito anos. A dor foi enorme. Ela perdeu o homem que amava e, ao mesmo tempo, precisava continuar cuidando dos filhos. Além disso, sabia quem havia causado o acidente. Durante muito tempo teve enorme dificuldade em perdoar aquele homem. Mas decidiu lutar contra o ressentimento. Com o passar dos anos, conseguiu perdoá-lo de verdade e chegou a aceitar ser madrinha de um de seus filhos. Esse gesto mostra uma das características mais fortes de sua santidade: ela não fingia não sofrer, mas se recusava a permitir que a dor se transformasse em ódio.

Depois da morte do marido, Joana intensificou sua vida de oração. Desejava compreender o que Deus queria dela. Mas passou por um período difícil. Recebeu orientações espirituais muito rígidas, que aumentaram seus escrúpulos e medos. Em vez de aproximá-la da paz, algumas dessas direções tornavam sua vida interior mais pesada. Foi então que, em 1604, aconteceu o encontro que mudaria completamente sua história. Joana ouviu pregar o bispo de Genebra, Francisco de Sales. Ela ficou profundamente impressionada. Francisco falava de Deus com uma combinação rara: firmeza e doçura. Ele não ensinava que a santidade exigia necessariamente fugir do mundo ou realizar penitências extraordinárias. Dizia que uma mãe, um trabalhador, um comerciante, um soldado ou uma pessoa vivendo no meio da sociedade também podia tornar-se santa.

Joana reconheceu naquele homem alguém capaz de ajudá-la a caminhar. Procurou-o. E nasceu entre os dois uma das amizades espirituais mais profundas e mais bem documentadas da história da Igreja. Francisco tornou-se seu diretor espiritual, mas a relação cresceu muito além de um simples vínculo formal.

Havia confiança. Havia liberdade. Havia afeto. Havia uma profunda comunhão de alma. Francisco ajudou Joana a libertar-se dos escrúpulos e do medo. Ensinou-a a confiar mais em Deus, a não procurar uma santidade artificial e a viver com fidelidade aquilo que Deus colocava diante dela todos os dias. Ele nunca tentou dominar sua consciência. Pelo contrário, quanto mais a orientava, mais queria que Joana fosse interiormente livre. A amizade entre os dois se tornou tão profunda porque ambos queriam a mesma coisa: pertencer inteiramente a Deus.

Francisco não ocupava o lugar de Deus no coração de Joana, nem Joana ocupava o lugar de Deus no coração de Francisco. Cada um ajudava o outro a caminhar mais livremente para Cristo.

Durante anos, Joana permaneceu ainda no mundo, cuidando dos filhos e das responsabilidades familiares. Francisco não a apressou. Esperou. Ajudou-a a discernir. Sabia que uma verdadeira vocação não nasce da fuga das responsabilidades, mas do cumprimento fiel da vontade de Deus.

Finalmente, em 1610, quando as circunstâncias familiares permitiram, Joana foi para Annecy. Ali, juntamente com Francisco de Sales, iniciou uma nova comunidade religiosa. Nascia a Ordem da Visitação de Santa Maria. A ideia era simples e profundamente evangélica.

Naquela época, muitas ordens religiosas femininas exigiam austeridades físicas muito severas. Mulheres doentes, mais velhas ou frágeis muitas vezes não conseguiam entrar na vida religiosa. Francisco e Joana desejaram criar uma comunidade em que a grande penitência fosse sobretudo a humildade, a mansidão, a caridade e a fidelidade cotidiana.

As religiosas deveriam viver como Maria na Visitação: levando Jesus aos outros. Por isso ficaram conhecidas como Visitandinas. Joana tornou-se a primeira superiora. Mas a fundação não eliminou suas provações. Ela enfrentou doenças, mortes na família, dificuldades de governo, responsabilidades enormes e longos períodos de aridez espiritual. 

Houve momentos em que rezava sem sentir nenhuma consolação. Deus parecia distante. Mesmo assim, permaneceu fiel. Essa fidelidade sem sentimentos talvez seja uma das partes mais heroicas de sua vida. Joana não amava Deus porque sempre sentia paz. Amava porque havia decidido confiar. Então veio outra grande perda. Em 1622, São Francisco de Sales morreu.

Joana perdeu aquele que durante quase vinte anos havia sido seu amigo, conselheiro e companheiro espiritual. A dor foi profunda. Mas Francisco havia cumprido bem sua missão. Não havia ensinado Joana a depender dele. Havia ensinado Joana a depender de Deus. Por isso, depois da morte dele, ela continuou. Viajou para acompanhar novas fundações. Escreveu às religiosas. Resolveu conflitos. Consolou irmãs. Defendeu o espírito original da Visitação.

A pequena comunidade fundada em Annecy começou a espalhar-se rapidamente. Quando Joana morreu, em 13 de dezembro de 1641, a Ordem da Visitação já possuía dezenas de mosteiros. Aquela jovem viúva que um dia pensou que sua vida havia sido destruída pela perda do marido tornou-se mãe espiritual de uma grande família religiosa. Foi canonizada pelo Papa Clemente XIII, em 1767. A vida de Santa Joana Francisca de Chantal ensina algo muito atual. Ela mostra que a santidade não elimina a dor. Ela transforma a dor.

Mostra também que Deus pode usar uma amizade profundamente humana para conduzir duas pessoas à santidade. Joana e Francisco não se tornaram menos humanos por amar profundamente um ao outro. Tornaram-se mais livres. Mais confiantes. Mais entregues. E, sobretudo, mais pertencentes a Deus. A amizade entre eles não era uma fuga da vocação. Era parte da vocação. Um ajudou o outro a tornar-se aquilo que Deus havia sonhado. E é exatamente isso que uma amizade santa faz.


“De dois, um só coração”: as cartas de Francisco de Sales e Joana de Chantal


A profundidade da amizade entre os dois aparece de maneira impressionante nas próprias cartas que trocaram.

Francisco escreve: “Desde o momento em que começastes a falar comigo sobre o vosso interior, Deus me deu um grande amor pelo vosso espírito.”

E depois: “Formou-se em minha alma um vínculo admirável, que me levou a amar cada vez mais a vossa.”

Ele reconhecia que aquela amizade lhe fazia bem espiritualmente: “A afeição que tenho por vós possui algo de particular que me consola infinitamente e, para dizer tudo, me é extremamente proveitosa.”  E chega a afirmar: 

“Sim, Deus me deu a vós; quero dizer: unicamente, inteiramente, irrevogavelmente.”

A distância não diminuía o vínculo: “À medida que me afastei corporalmente de vós, meu espírito voltou-se com maior ardor para o vosso lado.” Em outra carta, ele define a relação como: “Essa íntima e puríssima afeição e união que Deus realizou em nós.”

Joana responde com uma expressão igualmente forte: “Nossa santa unidade.” E pede que a vontade de Deus: “Reine soberanamente em nossa santa unidade.” Ao receber uma carta dele, exclama: “Ah! quanto bem me faz esta querida carta!”. E acrescenta: “Bendito seja aquele que vo-la inspirou; bendito seja também o coração de meu pai pelos séculos dos séculos.”

Francisco, por sua vez, chega a perguntar: “Por que meu coração se abre, se escancara sem reservas quando está em contato com o vosso?”. A confiança entre os dois era profunda. Mas sempre orientada para Cristo. Joana pede que Francisco reze: “Para que, para sempre, nós O adoremos, O sirvamos e O amemos perfeitamente.”

Francisco escreve: “Que nosso amor esteja todo em Deus, e que Deus esteja todo em nosso amor.” E acrescenta: “É n'Ele, por Ele e para Ele que sou, sem fim, sem reserva e unicamente vosso.”

Joana responde na mesma direção: “Que o doce Jesus encha nosso coração com o amor puríssimo do seu e nos faça repousar eternamente n'Ele. Amém.”

Francisco fala de: “Nosso amor.” Joana fala de: “Nosso coração.” 

Francisco chega a escrever: “Meu desejo de vos amar e de ser amado por vós não tem medida menor que a eternidade”. Mas imediatamente esclarece: “Sou, portanto, e quero ser eternamente, todo inteiramente vosso em Jesus Cristo.”

Em uma oração, Francisco contempla os dois corações unidos ao Coração de Jesus: “Parecia-me que nossos corações estavam todos ao redor d'Ele, prestando-Lhe homenagem como ao soberano Rei dos corações.”

E conclui: “Que Ele seja para sempre o nosso coração. Amém.”

Joana responde com a mesma linguagem: “Que o doce Jesus encha nosso coração com o amor puríssimo do seu”. E finalmente Francisco encontra a frase que resume tudo: “Por que pensamos que Ele quis fazer de dois um só coração?”

E responde: “Senão para que esse coração seja extraordinariamente audaz, valoroso, corajoso e cheio de amor por seu Criador e Salvador.”

É assim que as próprias cartas apresentam essa amizade, cheia de ternura, cheia de confiança, cheia de saudade, mas inteiramente orientada para Deus.

Francisco falava de “nosso amor”. Joana falava de “nossa santa unidade”. E ambos desejavam que esse coração pertencesse inteiramente a Cristo. Essa foi a beleza da amizade entre São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal: um amor humano profundamente terno, mas tão purificado pela graça que se tornou caminho de santidade para os dois.


Bibliografia:

São Francisco de Sales → Santa Joana Francisca de Chantal


  • Carta de 3 de maio de 1604, Lettre CCXXI, Œuvres de Saint François de Sales, ed. Annecy, t. XII, p. 263 — ideia da crescente união interior apesar da distância física.

  • Carta de 1º de novembro de 1604, Lettre CCXXXVIII bis — “Mon désir de vous aimer et d’être aimé de vous n’a point de moindre mesure que l’éternité.” Tradução: “Meu desejo de vos amar e de ser amado por vós não tem medida menor que a eternidade.” E logo depois: “Je suis donc, et veux être éternellement, tout entièrement vôtre en Jésus-Christ.” Tradução: “Sou, portanto, e quero ser eternamente, todo inteiramente vosso em Jesus Cristo.”

  • Carta de 1º de novembro de 1605, Lettre LXXVIII — “Mon Dieu! que j’ai de cœur et de passion au service de votre esprit!” Tradução: “Meu Deus! quanto coração e ardor tenho para servir o vosso espírito!”

  • Correspondência de 1605–1607, segundo a numeração de algumas edições, L. 76/L. 80/L. 82 — expressão central: “Dieu m’a donné à vous.” Tradução: “Deus me deu a vós.” Em outra formulação: “Oui, Dieu m’a donné à vous; je dis uniquement, entièrement, irrévocablement.” Tradução: “Sim, Deus me deu a vós; digo: unicamente, inteiramente, irrevogavelmente.” A numeração dessas cartas varia conforme a edição; é melhor citar pela data na versão definitiva.

  • Carta de 24 de janeiro de 1608, Lettre CDXXX, Œuvres, ed. Annecy, t. XIV — passagem sobre o “lien intérieur”, o vínculo interior pelo qual Deus unia os dois espíritos; é nessa tradição textual que aparece a ideia de uma “íntima e puríssima afeição e união que Deus realizou em nós”. A carta termina significativamente: “Jésus soit toujours notre cœur. Amen.” — “Jesus seja sempre o nosso coração. Amém.”

  • Carta de 5 de dezembro de 1608, Lettre CXLIX — reflexão sobre o repouso de “nos cœurs”, “nossos corações”, na vontade de Deus.

  • Correspondência a Joana de Chantal — “Que notre amour soit tout en Dieu, et Dieu soit tout en notre amour.” Tradução: “Que nosso amor esteja todo em Deus, e que Deus esteja todo em nosso amor.”

  • Na mesma linha espiritual — “C’est en lui, par lui et pour lui que je suis [...] vôtre.” Tradução: “É n’Ele, por Ele e para Ele que sou [...] vosso.”

  • Carta sobre a unidade dos dois corações — “Pourquoi pensons-nous qu’il ait voulu faire un seul cœur de deux?” Tradução: “Por que pensamos que Ele quis fazer de dois um só coração?” E continua: “Sinon afin que ce cœur soit extraordinairement hardi, brave, courageux, et amoureux [...] de son Créateur et son Sauveur.” Tradução: “Senão para que esse coração seja extraordinariamente audaz, valoroso, corajoso e cheio de amor por seu Criador e Salvador.”

  • Correspondência sobre os corações unidos ao Coração de Cristo — Francisco descreve espiritualmente os corações reunidos ao redor de Jesus e conclui com a ideia: “Que Ele seja para sempre o nosso coração.” Esse motivo é recorrente na correspondência salesiana.


Santa Joana Francisca de Chantal → São Francisco de Sales


  • Carta de 18 de maio de 1616, conservada a partir do autógrafo da Visitação de Annecy — Joana demonstra preocupação profunda com a saúde de Francisco e termina: “Le doux Jésus soit notre tout!” Tradução: “Que o doce Jesus seja o nosso tudo!”

  • Lettre CCCXL, após 10 de setembro de 1617 — expressão “notre sainte unité”. Tradução: “nossa santa unidade.” Joana deseja que a vontade de Deus reine soberanamente nessa unidade.

  • Lettre CCCXCIX, 9 de agosto de 1619 — “Hélas! mon unique Père, que cette chère lettre me fait de bien!” Tradução: “Ah! quanto bem me faz esta querida carta!” E continua: “Béni soit Celui qui vous l’inspira, et que béni soit aussi le cœur de mon Père au siècle des siècles!” Tradução: “Bendito seja Aquele que vo-la inspirou; bendito seja também o coração de meu pai pelos séculos dos séculos!”

  • Lettre DVI, início de 1622 — Joana lamenta carinhosamente a ausência de notícias de Francisco: “Seigneur Dieu! [...] il y a si longtemps que je n’ai point eu de vos nouvelles!” Sentido: “Senhor Deus! Há tanto tempo que não recebo notícias vossas!”

  • Lettre DXXV, Dijon, 29 de junho de 1622 — “J’ai beaucoup de choses à vous dire.” Tradução: “Tenho muitas coisas para vos dizer.”

  • Lettre DLXXXIII — “Le doux Jésus remplisse notre cœur de l’amour très-pur du sien, et nous fasse éternellement reposer en lui. Amen.” Tradução: “Que o doce Jesus encha nosso coração com o amor puríssimo do seu e nos faça repousar eternamente n’Ele. Amém.”

  • Lettre DLXXXIV — “Faites qu’il me donne sa grâce si abondamment, qu’à jamais nous l’adorions, le servions et l’aimions parfaitement.” Tradução: “Fazei com que Ele me dê sua graça tão abundantemente que, para sempre, nós O adoremos, O sirvamos e O amemos perfeitamente.”

  • Lettre DLXXXV — Joana fala do Tratado do Amor de Deus e manifesta seu desejo pelo amor divino, dizendo que seu coração suspira por ele com grande ardor.

  • Lettre DLXXXVI — “Je vous écris et ne puis m’en empêcher.” Tradução: “Eu vos escrevo e não posso impedir-me de fazê-lo.”


Bibliografia primária


  • François de Sales, Œuvres de Saint François de Sales, Évêque et Prince de Genève et Docteur de l’Église, édition complète d’après les autographes et les éditions originales, publiée par les Religieuses de la Visitation du Premier Monastère d’Annecy, Annecy, J. Niérat et sucessores, 1892–1964. É a chamada edição de Annecy, referência fundamental para a correspondência.

  • Jeanne-Françoise Frémyot de Chantal, Lettres de Sainte Jeanne-Françoise Frémyot, Baronne de Chantal, coleções francesas das cartas, com diferentes edições no século XIX e posteriores.

  • François de Sales, Introduction à la vie dévote, especialmente Parte III, cap. XIX, sobre a verdadeira amizade espiritual.

  • François de Sales, Traité de l’Amour de Dieu, obra decisiva para compreender a teologia do amor que está por trás da amizade com Joana.


Bibliografia moderna de apoio


  • André Ravier, SJ, François de Sales: Un sage et un saint, Paris, Nouvelle Cité.

  • Étienne-Jean Lajeunie, Saint François de Sales: L’homme, la pensée, l’action, Paris, Guy Victor.

  • Elisabeth Stopp, Madame de Chantal: Portrait of a Saint, London.

  • Wendy M. Wright, Heart Speaks to Heart: The Salesian Tradition, Orbis Books.

  • Para a amizade entre ambos, também é particularmente útil a literatura acadêmica salesiana dedicada ao tema “Dieu m’a donné à vous”, expressão que se tornou quase uma síntese da comunhão espiritual de Francisco e Joana.

Para uma publicação definitiva, eu usaria sempre data da carta + destinatário + número na edição de Annecy + tomo + página, porque as numerações simples como “L. 80” ou “L. 103” mudam de uma edição para outra.



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