
21 de set. de 2026
☀️ Santo do dia: São Mateus
o homem que se levantou da mesa do dinheiro para seguir Jesus
1. Um homem sentado diante do dinheiro
Mateus aparece no Evangelho em Cafarnaum, às margens do lago da Galileia. Não sabemos quando nasceu, nem conhecemos sua família ou sua juventude. Quando o encontramos pela primeira vez, ele já é adulto e exerce uma profissão muito malvista entre os judeus: é publicano, cobrador de impostos. Cafarnaum ficava numa região movimentada, atravessada por pessoas, mercadorias e rotas comerciais, e ali funcionava um posto de cobrança. Os publicanos estavam ligados ao sistema fiscal controlado pelo poder romano e eram frequentemente associados à exploração e à impureza religiosa. O próprio Evangelho de Mateus, quando apresenta a lista dos Doze, conserva uma expressão surpreendente: “Mateus, o publicano” (Mt 10,3). O passado não foi apagado de sua história. Bento XVI observou que os publicanos eram considerados pecadores públicos e socialmente excluídos. É justamente um desses homens que Jesus escolhe para ser apóstolo.
2. “Segue-me”
O relato da vocação é extraordinariamente curto. Jesus passa, vê Mateus sentado no posto de cobrança e diz apenas: “Segue-me!” O Evangelho continua: “Ele se levantou e o seguiu” (Mt 9,9). Não encontramos uma longa conversa, uma preparação ou uma negociação. Há um homem sentado e, depois do encontro com Jesus, o mesmo homem está de pé. Bento XVI percebeu justamente a força desse detalhe: naquele “levantou-se” podemos enxergar o abandono de uma situação anterior e o começo consciente de uma vida nova com Cristo. Mateus não precisou primeiro tornar-se perfeito para ser chamado. Foi o chamado de Cristo que abriu diante dele uma vida nova. Em 2008, Bento XVI resumiu essa transformação: “De publicano tornou-se imediatamente discípulo de Cristo.”
3. Jesus olhou justamente para ele
Há algo ainda mais profundo no texto: antes de chamar Mateus, Jesus o viu. Outros provavelmente olhavam para aquele cobrador e enxergavam um colaborador do sistema romano, um pecador ou simplesmente alguém de quem era melhor manter distância. Jesus também conhecia sua vida, mas seu olhar não parou no passado. Muitos séculos depois, Caravaggio transformaria esse instante numa das pinturas mais famosas do mundo: a luz entra na escuridão e Cristo aponta para Mateus, que parece perguntar: “Eu?”. A força da pintura nasce do próprio Evangelho. Mateus não chamou Jesus. Jesus entrou na vida de Mateus enquanto Mateus ainda estava sentado no lugar de sempre. O Papa Francisco descreveu essa cena dizendo que Mateus sentiu sobre si um olhar cheio de misericórdia e ouviu: “Segue-me”.
4. A primeira coisa que acontece é uma festa
Lucas chama o cobrador de impostos de Levi e conta um detalhe precioso: depois da vocação, Levi ofereceu a Jesus “um grande banquete em sua casa” (Lc 5,29). Marcos também chama o homem de Levi (Mc 2,14). A tradição cristã identificou esse Levi com Mateus. E a primeira imagem que encontramos depois de sua mudança de vida não é a de um homem isolado fazendo penitência, mas a de uma mesa cheia de gente. Ali estão Jesus, seus discípulos, publicanos e outras pessoas consideradas pecadoras. Mateus parece querer colocar seus antigos conhecidos diante daquele que acabara de transformar sua vida. Mas os escribas e fariseus se escandalizam: “Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?” Jesus responde: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Lc 5,31-32). Mateus ouviu essa frase sentado à mesa com pessoas como ele.
5. Do cobrador de impostos aos Doze
Depois disso, Mateus aparece entre os Doze Apóstolos escolhidos por Jesus (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15). Isso significa que acompanhou o Senhor durante sua vida pública e pertenceu ao pequeno grupo destinado a ser testemunha de sua missão. O Novo Testamento não nos oferece uma biografia detalhada de Mateus. Seu nome aparece nas listas apostólicas e novamente em Atos 1,13, quando os apóstolos estão reunidos depois da Ascensão, esperando a vinda do Espírito Santo. Entre o banco dos impostos e aquele Cenáculo aconteceu uma transformação enorme: o homem que trabalhava contando aquilo que os outros lhe deviam tornou-se um dos homens enviados para anunciar gratuitamente aquilo que Deus havia oferecido ao mundo.
6. O Evangelho que recebeu seu nome
Desde os primeiros séculos, a tradição da Igreja relacionou Mateus ao primeiro dos quatro Evangelhos. Por volta do ano 130, Papias de Hierápolis escreveu uma informação que Eusébio de Cesareia conservaria: “Mateus reuniu as palavras do Senhor em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia.” Eusébio acrescenta outra tradição antiga: Mateus teria pregado inicialmente entre os hebreus e, ao partir para anunciar Cristo a outros povos, deixou por escrito aquilo que havia anunciado.
A pesquisa bíblica moderna discute como relacionar exatamente esse testemunho de Papias ao Evangelho grego segundo Mateus que possuímos hoje. Por isso, historicamente, é prudente distinguir duas afirmações: a antiga tradição eclesial liga o apóstolo Mateus à origem do primeiro Evangelho, enquanto a composição literária final do texto grego é objeto de estudo e debate entre os especialistas. O que não está em dúvida é que, desde muito cedo, a Igreja recebeu esse Evangelho sob o nome de Mateus.
7. O Evangelho do Mestre
O Evangelho segundo Mateus possui uma característica particularmente bela: apresenta Jesus como aquele em quem se cumprem as promessas feitas por Deus a Israel. Começa com uma genealogia que conduz de Abraão e Davi até Jesus Cristo e organiza grande parte do ensinamento do Senhor em grandes discursos. É em Mateus que encontramos, em sua forma mais extensa, o Sermão da Montanha: as Bem-aventuranças, o Pai-Nosso, o amor aos inimigos, a confiança na Providência. É também Mateus que conserva a grande cena do juízo final: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber” (Mt 25,35). E seu Evangelho termina com Cristo ressuscitado enviando os discípulos: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). O antigo publicano aparece, assim, ligado para sempre ao anúncio de uma misericórdia que ele próprio havia experimentado.
8. Mateus deixa a Palestina
Depois de Pentecostes, começamos a entrar numa zona em que as informações se tornam mais escassas. A antiga tradição cristã afirma que Mateus, depois de anunciar o Evangelho entre os judeus, partiu para outros povos. Eusébio de Cesareia já conhecia essa tradição no século IV. A partir daí, porém, as fontes posteriores indicam lugares diferentes para sua missão: aparecem Etiópia, Pérsia e outras regiões do Oriente. Isso mostra que a memória de um Mateus missionário é antiga, enquanto o itinerário exato de suas viagens já não pode ser reconstruído com segurança.
E justamente aqui surge uma das partes mais conhecidas — e historicamente mais difíceis — de sua história.
9. Mateus morreu mártir?
Durante séculos, a arte cristã representou São Mateus como mártir. Existem tradições segundo as quais teria evangelizado a Etiópia e ali sofrido morte violenta. Algumas narrativas posteriores relacionam sua morte à conversão e consagração da princesa Efigênia, também recordada pela Igreja em 21 de setembro. Segundo essa tradição, Mateus teria enfrentado a oposição do poder local e terminado morto por causa de sua fidelidade a Cristo. A história tornou-se muito popular na Idade Média e inspirou inúmeras obras de arte.
Historicamente, porém, devemos conservar a mesma precisão que usamos com os outros santos. Não possuímos uma fonte antiga suficientemente segura que permita determinar onde, quando e de que maneira Mateus morreu. O Vatican News registra que algumas fontes lhe atribuem morte natural, enquanto outras tradições situam seu fim na Etiópia. A própria tradição sobre Efigênia pertence a uma elaboração hagiográfica posterior. Portanto, podemos venerar a antiga memória de Mateus como testemunha de Cristo sem transformar os detalhes tardios de seu martírio em fatos documentalmente comprovados.
10. De uma terra distante até Salerno
Também a história das relíquias de Mateus atravessou muitos séculos. A tradição afirma que seus restos chegaram finalmente ao sul da Itália e foram descobertos novamente no século XI. Hoje são venerados na cripta da Catedral de Salerno, onde São Mateus é padroeiro da cidade. Todos os anos, em 21 de setembro, sua memória é celebrada solenemente.
É impressionante pensar no caminho percorrido por sua memória. Tudo começa com poucas palavras conservadas pelo Evangelho: um homem está sentado diante de uma mesa de impostos em Cafarnaum. Jesus passa. Olha para ele. Diz duas palavras: “Segue-me.” Mateus se levanta. Depois disso, seu nome atravessa dois mil anos de história cristã.
11. A grande decisão de Mateus foi levantar-se
Talvez o detalhe mais bonito de toda a sua vida esteja justamente naquele primeiro gesto. Mateus não respondeu a Jesus com um discurso. Levantou-se. Havia dinheiro sobre aquela mesa, uma profissão, hábitos, relações e provavelmente uma vida inteira construída até aquele momento. Jesus não lhe entregou um programa explicando tudo o que aconteceria depois. Simplesmente o chamou.
E Mateus levantou-se.
Bento XVI viu nesse gesto uma verdadeira passagem de vida: desprender-se de uma situação antiga e aderir conscientemente a uma existência nova em comunhão com Jesus. A santidade de Mateus não começou quando se tornou conhecido como apóstolo ou quando seu nome foi associado a um Evangelho. Começou naquele instante quase invisível em Cafarnaum, quando percebeu que o olhar de Cristo sobre ele era maior do que aquilo que havia feito até então.
12. O publicano que passou a anunciar a misericórdia
Há uma espécie de beleza escondida nisso. Mateus conhecia muito bem o mundo das dívidas. Seu trabalho consistia justamente em calcular, cobrar e registrar aquilo que alguém devia. Depois encontrou Jesus e passou o restante de sua existência ligado ao anúncio de uma lógica completamente diferente: a misericórdia.
Ele estava entre aqueles que eram chamados “pecadores” quando ouviu Jesus dizer que o médico veio para os doentes. Foi chamado enquanto ainda estava no banco dos impostos. Entrou no grupo dos Doze. Viu a vida de Jesus, sua morte e, segundo a fé apostólica que passou a anunciar, sua Ressurreição. Depois levou essa notícia a outros.
Por isso, talvez nenhuma imagem resuma melhor São Mateus do que aquela que o Evangelho conservou: uma mesa fica para trás e um homem começa a caminhar atrás de Cristo.
Não sabemos exatamente quantos quilômetros percorreu depois. Não sabemos com certeza em qual país terminou sua missão nem se morreu pela espada ou de morte natural.
Mas sabemos onde sua história de santo começou.
Jesus passou. Olhou para ele. Chamou-o. E Mateus levantou-se.
Fontes e nota histórica: Mt 9,9-13; 10,3; 28,16-20; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32; At 1,13; Papias de Hierápolis, fragmento conservado por Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica III,39,16; Eusébio, História Eclesiástica III,24,6; Bento XVI, Audiência Geral de 30 de agosto de 2006 e Angelus de 21 de setembro de 2008; Vatican News, “São Mateus, Apóstolo e Evangelista”. Os dados evangélicos sobre Mateus como publicano, sua vocação e sua presença entre os Doze constituem o núcleo documental mais antigo. A tradição que o relaciona à origem do primeiro Evangelho é atestada já no século II por Papias. Os lugares de sua atividade missionária posterior e, sobretudo, as circunstâncias de sua morte não podem ser estabelecidos historicamente com a mesma segurança.