
18 de set. de 2026
☀️ Santo do dia: São José de Cupertino
O homem que não conseguia aprender e acabou “voando”
Nascido numa estrebaria
José Maria Desa nasceu em 17 de junho de 1603, em Cupertino, pequena cidade do sul da Itália, perto de Lecce. Era o último de seis filhos de Felice Desa e Franceschina Panaca. Sua família estava mergulhada em graves problemas financeiros: o pai havia assumido dívidas e era procurado por insolvência. A mãe refugiou-se numa estrebaria, e foi ali que José nasceu. A coincidência com o nascimento pobre de Cristo marcaria profundamente a maneira como seus primeiros biógrafos contariam sua história.
Franceschina era uma mulher austera e profundamente religiosa. Mais tarde tornou-se terciária franciscana. José dizia que seu “primeiro noviciado” havia sido feito por sua própria mãe. Aos sete ou oito anos começou a estudar, mas aprender era para ele um tormento. Tinha enorme dificuldade para acompanhar as aulas, era ridicularizado pelos colegas e vivia bastante isolado. Ficava facilmente absorto e ganhou o apelido de “Bocca aperta” — “Boca aberta”, porque parecia permanecer olhando para as coisas como quem estava sempre distraído.
Cinco anos doente
As dificuldades aumentaram quando José foi atingido por uma doença grave, descrita pelas fontes como uma lesão ulcerosa ou cancerosa. Ficou praticamente imobilizado durante quase cinco anos e precisou abandonar os estudos. Recuperou-se por volta dos quinze anos; ele próprio atribuiu sua cura à intercessão de Nossa Senhora das Graças, depois de uma peregrinação ao santuário de Galatone feita com sua mãe.
Tentou então trabalhar, mas também nisso encontrava dificuldades. José parecia ser justamente aquele jovem que os outros não sabiam onde colocar: pouca escolaridade, pouca habilidade prática, saúde frágil e um jeito extremamente distraído. Entretanto, durante os anos de doença crescera nele um profundo desejo de Deus. Ouvindo histórias de São Francisco de Assis, começou a desejar ardentemente a vida franciscana.
Nem os frades o queriam
Aos dezesseis anos começou a bater às portas dos conventos. Tentou aproximar-se dos Franciscanos Conventuais, dos Reformados e finalmente dos Capuchinhos. Em 1620, foi recebido como noviço capuchinho em Martina Franca, com o nome de Frei Estêvão. Mas a experiência terminou mal: foi considerado incapaz de adaptar-se adequadamente à vida da comunidade e mandado embora.
Voltou para casa numa situação ainda pior. O pai já havia morrido e José herdava as consequências jurídicas de suas dívidas. Acabou escondendo-se durante meses numa igreja. Finalmente foi acolhido como oblato pelos Franciscanos Conventuais da Grottella, perto de Cupertino. Começou fazendo os serviços mais humildes. Aos poucos, os frades perceberam nele algo que sua aparência desajeitada escondia.
Em 1625 tornou-se irmão leigo e, depois, foi admitido entre os clérigos. Fez o noviciado, professou em 1626 pobreza, castidade e obediência e começou o dificílimo caminho dos estudos necessários para receber as Ordens sacras.
O estudante que quase não conseguia estudar
Aqui começa um dos episódios mais famosos de sua vida. José queria ser sacerdote, mas possuía enormes dificuldades para aprender. Estudava com esforço, memorizava pouco e conseguia explicar bem pouquíssimas passagens.
Segundo a tradição biográfica conservada pelos franciscanos, no exame para o diaconato José havia conseguido preparar particularmente bem uma passagem do Evangelho. E justamente aquela passagem lhe foi pedida pelo examinador. Conseguiu responder. Foi ordenado diácono em 20 de março de 1627.
Ainda faltava o exame para o sacerdócio. A tradição do santuário relata que eram cinco candidatos da Província da Puglia. O bispo examinou os primeiros e ficou satisfeito com a preparação deles; antes de chegar a José, decidiu estender aos demais o resultado positivo. José passou sem precisar enfrentar o interrogatório que tanto temia. Em 28 de março de 1628, aos 24 anos, foi ordenado sacerdote.
É dessa história que nasce sua particular ligação com os estudantes e examinandos: não é o patrono dos estudantes porque fosse um gênio acadêmico, mas porque sabia exatamente o que significava estudar muito e continuar tendo dificuldade para aprender.
Um padre que se considerava “Frei Burro”
A ordenação não transformou José num intelectual. Ele continuou consciente de seus limites e chegou a chamar a si próprio de “Fratel Asino” — “Frei Burro”. Fazia trabalhos simples, servia os pobres e dedicava muitas horas à oração. Ao mesmo tempo, aqueles que conversavam com ele sobre as coisas de Deus ficavam impressionados: um homem de tão pouca formação escolar conseguia falar sobre questões espirituais e teológicas com uma profundidade inesperada. Seus primeiros biógrafos chamariam isso de “ciência infusa”.
Sua vida espiritual estava particularmente centrada em Cristo, na Eucaristia e em Nossa Senhora. E foi justamente durante a oração que começou a acontecer aquilo que tornaria José de Cupertino famoso em toda a Europa.
4 de outubro de 1630: José sai do chão
Em 4 de outubro de 1630, festa de São Francisco, durante uma procissão, José entrou num estado de êxtase e experimentou aquilo que os presentes interpretaram como uma levitação. Tinha 27 anos. A partir daquele período, os relatos desses fenômenos multiplicaram-se.
Não eram simplesmente momentos em que José permanecia imóvel. Os testemunhos falavam de seu corpo elevando-se do solo, às vezes diante de muitas pessoas. Acontecia especialmente durante a Missa, diante da Eucaristia, de imagens de Cristo ou de Nossa Senhora, ou quando alguma palavra despertava nele uma intensa experiência religiosa.
Ele próprio tentou explicar a um confrade aquilo que sentia usando uma comparação extremamente concreta:
“Quando a pólvora se acende na espingarda e produz aquele estrondo e fragor, assim o coração extático se inflama do amor de Deus.”
Para José, portanto, o fenômeno extraordinário começava dentro: era como se o coração fosse tomado de repente pelo amor de Deus.
A multidão começa a correr atrás dele
A notícia espalhou-se. A Grottella começou a receber peregrinos, curiosos e pessoas que queriam assistir às Missas daquele frade que, segundo diziam, entrava em êxtase e se elevava do chão. Sua fama atravessou o Salento. Entre 1634 e os anos seguintes, acompanhando o ministro provincial, José passou por diferentes cidades; também ali foram registrados episódios de êxtase.
Isso criou um problema sério.
A Igreja precisava descobrir o que realmente estava acontecendo. Seria um fenômeno autêntico? José estaria simulando santidade? Estaria explorando a credulidade das pessoas?
Em 1636, foi apresentada formalmente uma denúncia. Depois de novas investigações e interrogatórios de testemunhas, a Inquisição romana determinou que José fosse chamado a Nápoles. Em outubro de 1638 deixou definitivamente sua querida Grottella.
A Inquisição coloca o “santo voador” à prova
José foi interrogado em Nápoles nos dias 25 e 27 de novembro e 1º de dezembro de 1638. O inquisidor era Antonio Ricciullo.
Depois dos interrogatórios, veio uma prova muito concreta: José deveria celebrar a Missa diante dos investigadores, no mosteiro de São Gregório Armeno.
E aconteceu justamente aquilo que estava sendo investigado.
Os documentos estudados pela historiografia registram que, terminada a celebração, durante a ação de graças, José teve novamente uma experiência descrita como levitação diante dos responsáveis pela investigação. Os autos foram enviados a Roma.
José foi então convocado para a capital. O processo romano terminou em 18 de fevereiro de 1639: ele foi plenamente absolvido das acusações de santidade fingida e abuso da credulidade popular.
Isso é importantíssimo para compreender sua história: os fenômenos extraordinários não foram simplesmente acolhidos ingenuamente. Produziram denúncias, interrogatórios, testemunhos, observação direta e um verdadeiro processo inquisitorial.
Absolvido — e mandado para longe das multidões
A absolvição não significou liberdade para continuar atraindo multidões. O Santo Ofício considerou prudente afastá-lo da Grottella e dos curiosos. José foi enviado para Assis, onde chegou em 30 de abril de 1639.
Começava uma das partes mais dolorosas de sua vida.
José amava sua terra e sentia enorme saudade da Grottella. Pediu repetidamente autorização para voltar, mas não conseguiu. Em Assis passou por dificuldades físicas, incompreensões e tensões dentro da própria comunidade. Ao mesmo tempo, sua fama continuava crescendo.
Os fenômenos extáticos também continuavam. Tornaram-se tão frequentes que, em 1646, recebeu a proibição de celebrar a Missa publicamente. A intenção era simples: impedir que as celebrações se transformassem num espetáculo e proteger tanto José quanto os fiéis da curiosidade em torno dos fenômenos.
Até príncipes queriam vê-lo
Mesmo isolado, pessoas de toda condição social procuravam José. Entre os visitantes estiveram membros da nobreza europeia. Um dos casos historicamente mais interessantes é o do protestante João Frederico de Saxônia, que encontrou José em Assis e posteriormente se converteu ao catolicismo. A relação entre os dois foi estudada inclusive a partir de documentação específica por Gustavo Parisciani.
José, que havia sido considerado incapaz até para permanecer num convento, agora era procurado por príncipes.
Mas ele continuava querendo desaparecer.
Um convento depois do outro
Em 19 de julho de 1653, o papa Inocêncio X determinou que José fosse transferido para o pequeno convento de São Lázaro de Pietrarubbia. O lugar era isolado. A intenção era afastá-lo definitivamente das multidões.
Não funcionou.
As pessoas descobriram onde estava e começaram novamente a procurá-lo. Poucos meses depois, em 28 de setembro de 1653, José foi transferido outra vez, agora para Fossombrone, entre os Capuchinhos. Ali também recebeu severas limitações de contato.
Para José, tudo isso significava viver uma santidade muito diferente daquela que as multidões imaginavam. O povo queria vê-lo voar; a Igreja lhe pedia que permanecesse escondido e obedecesse.
E ele obedeceu.
Talvez esteja aqui um dos aspectos mais fortes de sua vida: José nunca fez das levitações uma missão pessoal. Sua missão era ser frade e sacerdote. Os fenômenos extraordinários trouxeram-lhe muito mais restrições do que privilégios.
Os últimos seis anos escondido em Osimo
Em 1657, por determinação do papa Alexandre VII, José finalmente voltou aos Franciscanos Conventuais e foi enviado para Osimo, perto de Ancona. Ali viveria seus últimos seis anos, ainda em grande isolamento.
Sua vida foi ficando cada vez mais simples: oração, obediência, Eucaristia e preparação para o encontro com Deus.
A um confrade explicou sua espiritualidade com uma imagem muito bonita:
“É preciso deixar o mundo, continuar a oração e preparar a pequena gruta do nosso coração para oferecer a Jesus Cristo a inteligência, a memória e a vontade.”
Essa frase talvez explique José melhor do que suas levitações. O homem que parecia não conseguir controlar sequer a própria distração quando criança havia passado a vida tentando entregar a Deus a inteligência, a memória e a vontade.
18 de setembro de 1663
Em 1663 sua saúde deteriorou-se rapidamente. Vieram febres, fraqueza e incapacidade de alimentar-se. Em setembro recebeu o Viático e pediu a Unção dos Enfermos.
Na noite de 18 de setembro de 1663, José de Cupertino morreu em Osimo. Tinha 60 anos.
O homem que nascera numa estrebaria, fora ridicularizado na escola, passara cinco anos doente, fracassara em trabalhos, fora expulso de um convento e quase não conseguira completar os estudos morreu com fama de santidade espalhada pela Europa.
Foi beatificado por Bento XIV em 1753 e canonizado por Clemente XIII em 16 de julho de 1767. Seu corpo repousa em Osimo, na basílica que leva seu nome.
O santo que voava queria permanecer pequeno
As levitações são certamente a parte mais impressionante de sua história. E possuem uma base documental muito mais consistente do que simples histórias populares: os fenômenos aparecem ligados a testemunhos, investigações e ao próprio procedimento inquisitorial de 1638–1639. A historiografia registra inclusive a levitação ocorrida depois da Missa celebrada diante dos investigadores em Nápoles.
Mas existe um paradoxo ainda maior em José de Cupertino.
Quanto mais seu corpo parecia subir, mais ele procurava descer.
Chamava-se “Frei Burro”, aceitava trabalhos humildes, suportou ser examinado, afastado, proibido de celebrar publicamente, transferido de convento em convento e finalmente escondido das multidões. O fenômeno que o tornou famoso nunca se tornou, para ele, um motivo para colocar-se acima dos outros.
Por isso sua história não é simplesmente a história do “santo que voava”. É a história de um jovem que durante anos ouviu, de diferentes maneiras, que não era capaz. Não conseguia estudar como os outros, não parecia apto para os trabalhos, não conseguia adaptar-se facilmente à vida religiosa e parecia humanamente inadequado para chegar ao sacerdócio.
Entretanto, continuou.
Estudou como conseguia. Trabalhou como conseguia. Rezou. Bateu novamente à porta dos franciscanos. Aceitou começar pelos serviços mais humildes. E, quando finalmente chegou ao sacerdócio, permaneceu convencido de que tudo havia recebido de Deus.
É justamente por isso que São José de Cupertino tornou-se padroeiro dos estudantes e, especialmente, daqueles que sofrem diante dos exames. Sua vida não diz ao jovem: “Você não precisa estudar porque Deus fará o exame por você”. Diz algo muito mais sério: uma dificuldade real não determina o valor de uma pessoa nem estabelece, sozinha, até onde Deus poderá conduzi-la.
E existe uma ironia maravilhosa em sua história: aquele menino chamado “Boca aberta”, considerado distraído e pouco capaz de aprender, tornou-se conhecido em todo o mundo como o santo que levantava voo.
Fontes e nota histórica: Vatican News, “S. José de Cupertino”; Piero Doria, “Giuseppe da Copertino”, Dizionario Biografico degli Italiani, vol. 57, Treccani, 2001; Basílica/Santuário de São José de Cupertino, Osimo, documentação biográfica; Roberto Nuti, Vita del servo di Dio fra Giuseppe da Copertino, Palermo, 1678, uma das primeiras biografias, publicada apenas quinze anos depois de sua morte; Gustavo Parisciani, S. Giuseppe da Copertino (1603–1663) alla luce dei nuovi documenti, Osimo, 1964; Id., estudos sobre a Inquisição e sobre João Frederico da Saxônia. A cronologia do processo inquisitorial, interrogatórios e absolvição encontra respaldo na reconstrução documental utilizada pelo Dizionario Biografico degli Italiani.