
24 de ago. de 2026
☀️ Santo do dia: São Bartolomeu Apóstolo
O homem que começou desconfiando de Jesus e terminou levando seu nome para terras distantes
Sobre São Bartolomeu, precisamos começar pela catequese do nosso Papa Bento XVI em 4 de outubro de 2006. Bartolomeu aparece nas listas dos Doze Apóstolos em Mateus, Marcos, Lucas e Atos dos Apóstolos. Seu nome provavelmente vem do aramaico Bar-Talmay, “filho de Talmay”. Curiosamente, porém, os Evangelhos sinóticos apenas mencionam seu nome; não contam nenhuma história particular sobre ele. Desde muito cedo, a tradição cristã passou a identificá-lo com Natanael, discípulo apresentado no Evangelho de João. Então sabemos que ele vinha de Caná da Galileia, pequena localidade situada na região norte da atual Israel. E seu primeiro encontro com Jesus começou de uma maneira quase engraçada. Filipe chegou entusiasmado dizendo que havia encontrado aquele de quem Moisés e os profetas haviam escrito: Jesus de Nazaré.
Natanael respondeu: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1,46). Não parece exatamente o começo de uma vocação apostólica. Mas Filipe respondeu com três palavras: “Vem e verás!” E Natanael teve uma qualidade extraordinária: ele foi. Quando Jesus o viu aproximar-se, disse: “Aqui está um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento.” (Jo 1,47). Natanael ficou surpreso: “Como me conheces?” Então Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira.” (Jo 1,48).
Não sabemos o que aconteceu debaixo daquela figueira. Bento XVI é muito cuidadoso justamente aqui: o Evangelho não explica, portanto não devemos inventar. Mas alguma coisa profundamente pessoal estava ligada àquele momento, porque Natanael percebeu que estava diante de alguém que o conhecia de uma maneira inexplicável. E aquele homem que poucos minutos antes desconfiava de Jesus de Nazaré respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo 1,49). Jesus então lhe prometeu: “Verás coisas maiores do que estas.” (Jo 1,50). E ele viu.
Se Bartolomeu é Natanael, acompanhou Jesus, tornou-se um dos Doze e permaneceu no grupo dos Apóstolos. João volta a mencionar “Natanael, de Caná da Galileia” depois da Ressurreição. Ele estava com Pedro e outros discípulos durante aquela pesca no lago de Tiberíades quando, ao amanhecer, Jesus ressuscitado apareceu na margem (Jo 21,1-14). O homem que perguntara se de Nazaré poderia sair alguma coisa boa agora tinha diante dos olhos o Nazareno ressuscitado.
E depois? Para onde Bartolomeu foi?
Aqui saímos da segurança dos Evangelhos e entramos nas tradições da Igreja antiga.
A mais importante é muito interessante porque não nasceu na Idade Média. Foi registrada por Eusébio de Cesareia, no início do século IV, em sua História Eclesiástica.
Eusébio conta a história de Panteno, importante mestre cristão de Alexandria, no Egito, que viveu no século II. Panteno partiu em missão em direção ao Oriente e chegou a uma região que Eusébio chama de “Índia”.
Quando chegou lá, encontrou algo surpreendente. Já havia cristãos! E, segundo a tradição recolhida por Eusébio, eles conservavam um exemplar do Evangelho de Mateus em língua hebraica, que teria sido deixado entre eles pelo apóstolo Bartolomeu. Eusébio escreve explicitamente que Bartolomeu “lhes havia pregado” anteriormente (História Eclesiástica, V,10,3). Esse é um testemunho antigo demais para ser simplesmente descartado como uma lenda medieval.
Mas precisamos fazer uma pergunta: Essa “Índia” era realmente a Índia que conhecemos hoje? Não sabemos. E aqui é importante não afirmar mais do que as fontes permitem.
Na Antiguidade, a palavra “Índia” podia ser empregada de maneira bastante ampla para designar regiões orientais. Alguns estudiosos entenderam que a tradição poderia referir-se à Índia propriamente dita; outros propuseram regiões da Arábia ou áreas situadas no caminho comercial para o Oriente. A própria tradição sobre Panteno já foi interpretada como referente ao sul da Arábia. Portanto, é perfeitamente legítimo dizer que uma tradição cristã registrada já no século IV afirmava que Bartolomeu evangelizou uma região chamada Índia.
O que não podemos fazer é traçar num mapa moderno, com absoluta certeza, a rota que ele percorreu.
Da “Índia” para a Armênia
Outras antigas tradições cristãs colocam Bartolomeu evangelizando diferentes regiões orientais e finalmente o relacionam fortemente à Armênia, região do Cáucaso situada entre a Anatólia, a Pérsia e o mar Cáspio. A tradição da Igreja Apostólica Armênia considera São Bartolomeu e São Judas Tadeu seus grandes evangelizadores apostólicos. É nesse ambiente que a tradição coloca também os últimos anos de Bartolomeu.
Podemos então reconstruir sua última fase de vida com prudência: depois da dispersão dos Apóstolos, Bartolomeu teria participado da enorme expansão missionária que levou os primeiros cristãos para o Oriente. Uma tradição antiga o conduz até a chamada Índia; outras o associam posteriormente à Armênia, onde sua pregação teria provocado conversões e finalmente despertado a oposição das autoridades locais.
As diferentes tradições concordam em conservar a memória de um Apóstolo missionário que levou o Evangelho para muito longe da Palestina.
E então chegou o martírio
Bento XVI é novamente muito preciso: a tradição da morte por esfolamento tornou-se especialmente difundida a partir da Idade Média. Portanto, devemos apresentá-la como tradição, não como um fato cuja forma exata podemos comprovar historicamente. Mas essa tradição produziu uma das imagens mais impressionantes da arte cristã. Se você entrar na Capela Sistina, no Vaticano, e olhar para o Juízo Final de Michelangelo, encontrará São Bartolomeu segurando a própria pele.
Por isso a faca e a pele tornaram-se os símbolos tradicionais de São Bartolomeu. Suas relíquias passaram também por uma longa história de transladações. Bento XVI recorda que são veneradas em Roma, na Basílica de São Bartolomeu na Ilha Tiberina, para onde, segundo a tradição, foram levadas pelo imperador Otão III em 983.
Sabemos muito menos sobre Bartolomeu do que sobre Pedro, Paulo ou João. Não possuímos cartas escritas por ele. Não temos grandes discursos. Não conhecemos com certeza suas viagens. Nem sequer conseguimos provar definitivamente que Bartolomeu e Natanael eram a mesma pessoa. E, mesmo assim, sua memória atravessou dois mil anos. Porque aquele homem fez algo aparentemente simples: encontrou Jesus e permaneceu com Ele.
Bento XVI termina sua catequese sobre Bartolomeu com uma reflexão maravilhosa: sua história mostra que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada “também sem cumprir obras sensacionais”. O extraordinário, diz o Papa, é o próprio Jesus, a quem cada cristão é chamado a dedicar “a sua própria vida e morte”. E talvez a melhor maneira de compreender Bartolomeu seja voltar à primeira cena.
Natanael tinha preconceitos. Fez perguntas. Duvidou. “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” Mas quando Filipe respondeu: “Vem e verás”, ele não ficou parado discutindo. Foi.
Conheceu Jesus. Descobriu que estava errado. E aquele homem que começou desconfiando de Nazaré terminou, segundo uma antiga tradição, atravessando enormes distâncias para anunciar aos outros justamente Jesus de Nazaré.
Talvez tenha chegado à Índia. A tradição o levou também até a Armênia. E ali, diante da possibilidade de abandonar aquilo que anunciara, preferiu entregar a própria vida. Tudo começou com: “Vem e verás.” Bartolomeu foi. Viu. Acreditou.
E depois passou o resto da vida dizendo aos outros, de alguma maneira, exatamente aquilo que Filipe havia dito a ele: Venham e vejam.
Fontes principais
Bento XVI, Audiência Geral, 4 de outubro de 2006, Bartolomeu — fonte fundamental para a distinção entre os dados bíblicos, a identificação tradicional Bartolomeu-Natanael, a tradição da Índia e a tradição posterior do martírio por esfolamento.
Novo Testamento: Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,14; At 1,13; especialmente Jo 1,43-51 e Jo 21,2-14.
Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, V,10,1-3 — testemunho sobre Panteno e a tradição segundo a qual Bartolomeu pregara na “Índia” e deixara ali o Evangelho de Mateus.
Tradição da Igreja Armênia, que conserva Bartolomeu e Judas Tadeu como evangelizadores apostólicos da Armênia.
Para a questão geográfica da “Índia” de Eusébio, deve-se manter aberta a discussão histórica: o termo antigo não permite afirmar com certeza que se tratava do território da Índia moderna.