
12 de out. de 2026
☀️ Santo do dia: NOSSA SENHORA APARECIDA
A Mãe que apareceu entre os pobres
Era outubro de 1717. O Brasil ainda era colônia de Portugal, a escravidão fazia parte da estrutura econômica e social do país e a pequena Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, preparava-se para receber uma autoridade importante: Dom Pedro de Almeida e Portugal, governador da Capitania de São Paulo e Minas Gerais, que viajava em direção às Minas.
Para alimentar a comitiva, era preciso conseguir peixe. Entre os pescadores que saíram para o rio estavam três homens simples: Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves. Não eram homens importantes, não eram autoridades, não eram ricos. Eram pescadores do Vale do Paraíba, homens que viviam do trabalho das próprias mãos.
Entraram em suas canoas e começaram a lançar as redes. Nada. Remaram mais um pouco. Lançaram novamente. Nada. Tentaram muitas vezes, mas os peixes simplesmente não apareciam. Até que, nas proximidades do Porto de Itaguaçu, João Alves lançou outra vez a rede. Quando a puxou, não havia peixe. Havia um pequeno objeto coberto pela água e pelo barro: o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, mas sem a cabeça. João lançou novamente a rede. Pouco depois veio a cabeça da mesma imagem. Os pescadores juntaram as duas partes e continuaram pescando. Então aconteceu aquilo que deu origem à tradição da pesca milagrosa: depois de tantas tentativas sem resultado, as redes começaram a trazer uma quantidade extraordinária de peixes.
A pequena imagem não representava originalmente uma nova devoção. Era uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, a Imaculada Conceição. Tinha cerca de 36 centímetros e era feita de terracota, barro cozido. Não sabemos como aquela imagem foi parar no fundo do rio Paraíba. Talvez seja justamente essa simplicidade que torne o início da história tão bonito. Aqueles homens não estavam procurando uma relíquia. Não estavam procurando um milagre. Estavam procurando peixe! E encontraram uma pequena Nossa Senhora quebrada. Primeiro o corpo. Depois a cabeça. Juntaram os pedaços e levaram a imagem para casa.
Durante anos, aquela devoção permaneceu profundamente doméstica e popular. A imagem ficou com a família de Filipe Pedroso e os vizinhos começaram a se reunir para rezar diante dela. A casa foi ficando pequena. Surgiu uma capelinha. Depois outra construção maior. Aos poucos começaram a chegar pessoas de outros lugares. O nome também nasceu do povo. Era Nossa Senhora da Conceição, mas aquela era a Senhora da Conceição que havia sido “aparecida” nas águas: Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Depois, simplesmente, Nossa Senhora Aparecida.
O primeiro documento histórico conhecido a registrar a tradição foi escrito pelo padre José Alves Vilela, em 1743, apenas 26 anos depois da pesca. Isso é importante porque mostra que não estamos diante de uma história inventada séculos mais tarde: pouco mais de duas décadas depois do acontecimento, a memória da pesca e da imagem já estava registrada.
Há outro detalhe que se tornaria profundamente significativo. A imagem ficou escura. Aqui é preciso manter o rigor histórico: não podemos afirmar que ela tenha sido originalmente feita com um barro escuro, como uma Nossa Senhora negra. Com o tempo aconteceu algo extraordinário do ponto de vista histórico e religioso: o povo começou a reconhecer naquela pequena imagem escurecida a sua própria Mãe.
E isso acontecia dentro de um Brasil escravista. Homens, mulheres e crianças africanos e afrodescendentes eram comprados, vendidos e juridicamente tratados como propriedade. Nesse ambiente, a pequena Nossa Senhora escurecida começou a ser procurada também pelos pobres e pelos escravizados.
Ela havia sido encontrada não por nobres, mas por pescadores. Não tinha aparecido num palácio, mas no barro de um rio. Não era uma enorme imagem revestida de ouro, mas uma pequena Nossa Senhora de barro, quebrada e escurecida.
Foi nesse ambiente que a tradição de Aparecida conservou uma de suas histórias mais fortes: o escravo Zacarias e suas correntes.
Zacarias era um homem escravizado que havia fugido. Foi capturado e estava sendo conduzido novamente ao cativeiro, preso por grossas correntes. No caminho, Zacarias passou perto da capela onde estava a pequena imagem encontrada pelos pescadores. Pediu uma coisa: queria rezar diante de Nossa Senhora Aparecida. O homem que o conduzia permitiu. Imagine a cena: um homem negro, escravizado e acorrentado ajoelha-se diante de uma pequena Nossa Senhora de rosto escurecido. Não sabemos as palavras que rezou. A tradição conta apenas que, enquanto rezava, as correntes se soltaram e caíram!
O Santuário preservou esse episódio como o Milagre das Correntes. É difícil encontrar uma imagem mais forte para compreender aquilo que Aparecida começava a representar para o povo brasileiro. De um lado, um escravo acorrentado. Do outro, uma pequena Mãe de rosto escuro. E entre os dois, as correntes caindo.
O povo de Aparecida conservou a memória desse homem escravizado que pede ajuda diante de Maria e vê suas correntes caírem. Essa ligação tornou-se tão forte que, entre 1884 e 1888, justamente nos últimos anos da escravidão brasileira, representações ligadas à Basílica Velha já mostravam Zacarias ajoelhado e as correntes rompidas. A associação entre Aparecida, o escravizado e a libertação já fazia parte da memória visual do Santuário no próprio período da Abolição.
E é justamente nesse ponto que entra outra mulher na história de Aparecida.
Mais de um século depois dos pescadores, chegou ao Santuário a Princesa Isabel. Ela não era rainha. Era filha de Dom Pedro II e Princesa Imperial, herdeira do trono brasileiro.
Em dezembro de 1868, Isabel chegou a Aparecida acompanhada do marido, o Conde d’Eu. Tinha 22 anos e carregava uma dor muito pessoal: não conseguia ter filhos. Para uma mulher isso já podia significar um sofrimento profundo; para a herdeira do Império existia ainda outra preocupação, porque se esperava dela um sucessor para o trono brasileiro.
Diante de Nossa Senhora, porém, Isabel não chegou como governante. Chegou como uma mulher que precisava pedir uma graça.
Fez sua oração e pediu à pequena Nossa Senhora encontrada pelos pescadores a graça de tornar-se mãe. Naquela visita ofereceu à imagem um presente extraordinário: um manto de veludo azul ornado com 21 brilhantes, simbolicamente relacionados às províncias do Império e à capital. A tradição conservada em Aparecida atribui à Princesa a expressão: “Padre, esse é um singelo presente para Nossa Senhora.”
Era quase como colocar simbolicamente o Brasil debaixo do manto de Maria.
Mas Isabel voltou para casa sem saber ainda se sua oração seria atendida. Os anos passaram. Vieram os filhos: Pedro de Alcântara, em 1875; Luís, em 1878; e Antônio, em 1881.
A mulher que havia ido a Aparecida pedir a graça da maternidade agora tinha três filhos vivos!
Então voltou. Em novembro de 1884, Isabel chegou novamente a Aparecida. Desta vez não vinha apenas com o marido. Trazia consigo os três filhos. Era uma cena completamente diferente daquela de 1868. A mulher que havia chegado para pedir agora voltava para agradecer.
E trouxe outro presente para Nossa Senhora: uma coroa.
Era uma coroa de ouro de 24 quilates, com cerca de 300 gramas, ornada com pedras preciosas. Vinte anos mais tarde, em 8 de setembro de 1904, seria justamente essa coroa oferecida pela Princesa Isabel que seria colocada solenemente sobre a cabeça da pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Há uma imagem extraordinária escondida nesse gesto: a mulher destinada a herdar a coroa do Brasil entrega uma coroa a Maria. A herdeira do trono ajoelha-se diante da mesma pequena imagem que havia sido retirada do rio pelas mãos de pescadores.
E a história ficaria ainda mais forte quatro anos depois. Em 13 de maio de 1888, exercendo a Regência do Império na ausência de Dom Pedro II, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu juridicamente a escravidão no Brasil.
A coroa foi oferecida quatro anos antes da Lei Áurea e estava ligada especialmente à gratidão da Princesa pela maternidade. Mas, olhando a sequência histórica, é impossível não perceber a força das imagens que acabaram se encontrando ao redor de Nossa Senhora Aparecida.
De um lado está Zacarias, o homem escravizado que chega carregando correntes.
Do outro está Isabel, a herdeira do Império que chega carregando uma coroa.
O escravo e a princesa se ajoelham diante da mesma pequena Nossa Senhora de barro.
Um pede liberdade.
A outra havia pedido a graça de ser mãe.
Diante dela, caem correntes.
Diante dela, uma princesa deposita sua coroa. E poucos anos depois aquela mesma princesa colocaria sua assinatura no documento que declarava extinta a escravidão legal no Brasil.
Existe uma bela oração atribuída à Princesa Isabel que circula em ambientes devocionais, na qual ela teria dito que era apenas uma “princesa da terra” diante da “Rainha do Céu” e pedido que Nossa Senhora governasse o Brasil caso ela própria nunca chegasse ao trono. A espiritualidade da oração combina perfeitamente com a tradição posterior em torno de Isabel e Aparecida.
A devoção continuou crescendo. A pequena imagem que estivera na casa de uma família de pescadores passou para uma capela, depois para uma igreja cada vez maior. Romeiros começaram a chegar de lugares distantes. Em 8 de setembro de 1904, numa grande celebração, a imagem foi solenemente coroada, usando justamente a coroa que a Princesa Isabel havia oferecido vinte anos antes. Mais tarde, em 1930, o Papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira do Brasil.
A pequena imagem encontrada quebrada no rio terminou no coração do maior santuário mariano do país. Hoje milhões de peregrinos passam diante dela. Há uma enorme Basílica, uma coroa, um manto e multidões. Mas, para compreender verdadeiramente Nossa Senhora Aparecida, é preciso voltar sempre ao começo.
Antes da coroa houve o barro.
Antes do grande Santuário houve uma casa simples.
Antes das multidões houve três pescadores numa canoa.
Antes dos ricos presentes houve uma imagem quebrada.
E antes de ser chamada Rainha e Padroeira do Brasil, aquela pequena Nossa Senhora já estava no meio dos pobres.
Foi assim que Nossa Senhora Aparecida entrou na história do Brasil: não descendo sobre um palácio, mas sendo retirada do fundo de um rio pelas mãos calejadas de trabalhadores. Uma pequena imagem quebrada que o povo recolheu, juntou, levou para casa e começou a amar.
Uma Mãe encontrada pelos pobres.
Uma Mãe procurada pelos escravizados.
Uma Mãe diante da qual caíram correntes.
Uma Mãe diante da qual uma princesa colocou sua coroa.
E que o povo brasileiro, geração depois de geração, aprendeu a chamar simplesmente:
“Nossa Mãe Aparecida.”
FONTES PRINCIPAIS
— BRUSTOLONI, Júlio J. História de Nossa Senhora Aparecida: sua imagem e seu santuário. Aparecida: Editora Santuário. Obra fundamental para a reconstrução histórica da devoção, utilizada amplamente pela documentação do Santuário Nacional.
— SANTUÁRIO NACIONAL DE APARECIDA. Documentação histórica e cronologia oficial da devoção: pesca de 1717, primeiros registros, desenvolvimento do culto, tradição do Milagre das Correntes, visitas da Princesa Isabel, coroação e proclamação como Padroeira.
— JOSÉ ALVES VILELA, Pe. Registro de 1743 sobre a origem da imagem e a pesca extraordinária, uma das fontes históricas mais antigas para os acontecimentos de 1717.
— ACADEMIA MARIAL DE APARECIDA. Estudos históricos e mariológicos sobre a imagem, sua origem, a tradição de Zacarias, a Princesa Isabel e os títulos de Nossa Senhora Aparecida.
— PASIN, Tereza. Pesquisas históricas sobre as visitas da Família Imperial a Aparecida e as ofertas da Princesa Isabel, utilizadas também nas publicações do Santuário Nacional.
— MISSIONÁRIOS REDENTORISTAS / SANTUÁRIO NACIONAL. Tradição histórica do escravo Zacarias e do “Milagre das Correntes”; os registros consultados não oferecem base segura para atribuir um peso determinado às correntes.
— PIO XI. Decreto pontifício que proclamou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira principal do Brasil, 1930.
— Para a iconografia de Zacarias e a relação entre Aparecida, escravidão e Abolição: estudos históricos sobre as representações da Basílica Velha no final do século XIX e documentação preservada pelo Santuário Nacional.