
14 de out. de 2026
☀️ Santo do dia: BEATO ROMANO LYSKO
Quando não puderam calar sua fé, ouviram-no cantar os Salmos
Romano Lysko nasceu em 14 de agosto de 1914, em Horodok, na região de Lviv, na atual Ucrânia. Sua juventude aconteceu numa terra profundamente cristã, mas politicamente atormentada. Durante sua curta vida, aquela região passaria por guerras, ocupações, nazismo e comunismo soviético.
Romano sentiu-se chamado ao sacerdócio e estudou na Academia Teológica de Lviv, um dos grandes centros de formação da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Mas existe um detalhe importante para nós, católicos de tradição latina: Romano era casado. Isso não era uma irregularidade. Na tradição das Igrejas Católicas Orientais, existem sacerdotes casados: o homem casa-se antes da ordenação e depois pode ser ordenado sacerdote. Romano casou-se e, segundo a documentação conservada pela Igreja, ele e sua esposa trabalhavam com grande entusiasmo com os jovens. Portanto, antes de encontrarmos o mártir dentro de uma prisão soviética, precisamos enxergar este homem como realmente era: um jovem marido, apaixonado pela evangelização dos jovens e preparando-se para servir seu povo como sacerdote.
Em 28 de agosto de 1941, aos 27 anos, Romano foi ordenado sacerdote. Quem colocou as mãos sobre sua cabeça foi uma das maiores figuras da história da Igreja Ucraniana: o metropolita Andrey Sheptytsky. E aqueles não eram tempos tranquilos para começar a ser padre. A Segunda Guerra Mundial estava devastando a Europa. A Ucrânia encontrava-se entre dois sistemas totalitários que deixariam milhões de mortos: de um lado o nazismo; de outro, o regime soviético. Romano tornou-se sacerdote da Arquieparquia Greco-Católica de Lviv. Poucos anos depois, porém, a perseguição atingiria diretamente sua Igreja.
UMA IGREJA QUE O REGIME QUERIA FAZER DESAPARECER
Depois que o poder soviético se consolidou na Ucrânia ocidental, começou uma enorme pressão contra a Igreja Greco-Católica Ucraniana. Bispos foram presos, sacerdotes perseguidos e comunidades dissolvidas. Em 1946, sob forte controle das autoridades soviéticas, realizou-se o chamado “Sínodo de Lviv”, que declarou a ruptura da comunhão com Roma e a incorporação da Igreja Greco-Católica à Igreja Ortodoxa Russa. Roma jamais reconheceu como legítima aquela supressão.
Para muitos sacerdotes começava então uma escolha terrível: abandonar publicamente sua Igreja ou continuar exercendo o ministério clandestinamente, sabendo que poderiam ser presos. Romano continuou sacerdote católico. A Igreja Greco-Católica entrou nas catacumbas. Casas particulares transformaram-se em lugares de oração, sacramentos eram celebrados clandestinamente e os padres precisavam deslocar-se discretamente. A simples fidelidade religiosa podia transformar uma pessoa em inimiga do regime. Romano tinha pouco mais de trinta anos. Sabia o risco que corria. E permaneceu.
Finalmente vieram buscá-lo. Em 9 de setembro de 1949, Romano Lysko foi preso pelo NKVD, a polícia política soviética, e levado para a prisão da rua Lontskoho, em Lviv. Tinha apenas 35 anos.
É aqui que sua história se torna ao mesmo tempo terrível e extraordinária. As fontes eclesiais que conservaram sua memória dizem que o jovem sacerdote foi submetido a torturas. Mas alguma coisa começou a circular entre os habitantes de Lviv: Romano estava cantando. Segundo a tradição recolhida posteriormente pela própria Igreja, depois das torturas podia-se ouvir Padre Romano cantando os Salmos em voz alta dentro da prisão.
Imagine a cena. Um homem de 35 anos, preso, separado da esposa, torturado e sem saber se voltaria a sair daquela prisão. E de sua cela não vinha apenas o gemido de alguém destruído. Vinham os Salmos. As palavras que Israel havia rezado durante séculos, as mesmas orações rezadas por Cristo e que a Igreja continuava rezando enquanto seus sacerdotes eram presos.
A notícia espalhou-se pela cidade. Dizia-se que o jovem padre tinha enlouquecido por causa das torturas. Talvez fosse a única explicação que alguns conseguiam encontrar. Mas Romano continuava cantando. Não sabemos exatamente quais Salmos cantava; as fontes não registram isso e, portanto, não devemos colocar artificialmente em seus lábios um Salmo determinado. O que a tradição histórica conservou é mais simples e impressionante: depois de torturado, Padre Romano cantava os Salmos em voz alta.
EMPAREDADO VIVO
Aqui precisamos ser historicamente muito precisos. Durante décadas circulou entre os habitantes de Lviv um relato terrível: Romano teria sido emparedado vivo dentro da prisão. Essa tradição tornou-se fortemente ligada ao seu martírio e aparece inclusive na biografia publicada pelo Vaticano para a beatificação. Mas o próprio texto oficial escolhe cuidadosamente as palavras: depois de recordar os Salmos cantados por Romano, afirma que “foi então relatado que o tinham emparedado vivo nas paredes da prisão”.
O que sabemos com segurança é que Romano Lysko não saiu vivo daquela perseguição. Sua morte é oficialmente datada em 14 de outubro de 1949. Tinha apenas 35 anos.
O regime conseguiu tirar-lhe a liberdade, separá-lo de sua família, colocá-lo dentro de uma prisão, torturar seu corpo e finalmente matá-lo. Mas existe uma imagem que sobreviveu a tudo isso: um sacerdote preso cantando os Salmos.
CINQUENTA E DOIS ANOS DEPOIS
O regime soviético desapareceu. A Igreja que deveria desaparecer continuou viva. E, em 27 de junho de 2001, aconteceu algo extraordinário justamente em Lviv, a cidade onde Romano havia sido preso e morto. São João Paulo II chegou à Ucrânia e, diante de uma enorme multidão, durante a Divina Liturgia em rito bizantino, proclamou beatos Mykola Charnetsky e seus 24 companheiros mártires. Entre os nomes estava Padre Romano Lysko.
João Paulo II começou aquela celebração com as palavras de Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). E explicou por que aqueles homens e mulheres estavam sendo beatificados: “A maior parte deles foi morta por ódio à fé cristã.” O Papa recordou ainda uma expressão impressionante do metropolita Josyf Slipyj, ele próprio perseguido pelo regime soviético: aquela terra havia sido coberta por “montanhas de cadáveres e rios de sangue”. E justamente daquela terra saía agora uma geração de mártires.
O regime que havia tentado apagar o nome de Romano Lysko desapareceu. Seu nome, porém, ficou. E talvez a melhor maneira de recordar esse jovem sacerdote não seja imaginá-lo somente no momento de sua morte. É preciso voltar à prisão de Lviv: os corredores fechados, as celas, os interrogatórios, as torturas. E, em algum lugar atrás de uma porta, um jovem sacerdote de 35 anos começa a cantar. Alguém escuta. Outro prisioneiro escuta. Os guardas escutam. A notícia passa de pessoa para pessoa: “O padre Romano está cantando.”
Não sabemos qual Salmo. Não sabemos durante quanto tempo. Mas sabemos o suficiente. Tentaram fazê-lo abandonar sua fé: ele permaneceu sacerdote. Prenderam-no: ele rezou. Torturaram-no: ele cantou. E quando finalmente conseguiram silenciar sua voz, aquele canto já havia atravessado as paredes da prisão.
Cinquenta e dois anos depois, na mesma cidade de Lviv, diante de milhares de pessoas, a Igreja pronunciou novamente seu nome:
Beato Romano Lysko, sacerdote e mártir.
FONTES PRINCIPAIS
— SANTA SÉ — Congregação das Celebrações Litúrgicas. Mykola Charnetsky e 24 Companheiros. Biografia oficial preparada para as beatificações de 27 de junho de 2001. Registra o nascimento e a formação de Romano Lysko, o trabalho com a esposa junto aos jovens, sua ordenação por Andrey Sheptytsky, a prisão em 9 de setembro de 1949, a tradição dos Salmos cantados depois das torturas e o relato do emparedamento.
— JOÃO PAULO II. Homilia na Divina Liturgia em rito bizantino para a beatificação dos mártires ucranianos, Lviv, 27 de junho de 2001.
— SANTA SÉ — Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Relação oficial dos beatificados na Ucrânia, 27 de junho de 2001. Romano Lysko aparece entre os sacerdotes mártires da Arquieparquia de Lviv.
— SÍNODO DOS BISPOS DA IGREJA GRECO-CATÓLICA UCRANIANA. Biografias dos novos mártires da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Registra a prisão pelo NKVD, a prisão da rua Lontskoho, a tradição das torturas e dos Salmos cantados em voz alta e a morte em 14 de outubro de 1949.