
18 de ago. de 2026
☀️ Santo do dia: As 11 Mártires de Nowogródek
“Se é necessário um sacrifício, aceita-nos a nós”
Era julho de 1943. A Europa estava no meio da Segunda Guerra Mundial, e a pequena cidade de Nowogródek, que antes da guerra pertencia à Polônia e hoje fica na Bielorrússia, vivia sob ocupação da Alemanha nazista.
Ali morava uma comunidade de religiosas da Congregação das Irmãs da Sagrada Família de Nazaré. Eram onze mulheres comuns: professoras, enfermeiras, cozinheiras, religiosas dedicadas à igreja e às famílias da cidade. Tinham chegado a Nowogródek em 1929 e, durante anos, trabalharam principalmente na educação, na pastoral e na assistência às pessoas necessitadas. Quando vieram a guerra e a ocupação, decidiram permanecer com a população. Décadas depois, São João Paulo II recordaria justamente que elas continuaram servindo os habitantes da cidade durante aqueles anos terríveis.
A superiora chamava-se Irmã Maria Stella, nascida Adela Mardosewicz. Com ela estavam outras dez religiosas: Maria Imelda, Maria Raimunda, Maria Daniela, Maria Canuta, Maria Sérgia, Maria Guidona, Maria Canísia, Maria Felicita, Maria Heliodora e Maria Borromea. A documentação oficial do Vaticano conserva seus nomes, lugares de nascimento e a mesma data de morte: 1º de agosto de 1943.
A situação da cidade havia se tornado assustadora. A ocupação nazista trouxera prisões, perseguições e mortes. Em julho de 1943, a Gestapo prendeu numerosos homens da região, muitos deles pais de família. Espalhou-se a notícia de que poderiam ser executados.
Pense no que isso significava para uma cidade pequena. Mulheres poderiam perder seus maridos. Crianças poderiam perder seus pais. Famílias inteiras poderiam ser destruídas.
As irmãs conheciam aquelas pessoas. Não eram números numa lista. Eram as famílias entre as quais elas viviam e trabalhavam havia anos.
Foi então que aconteceu aquilo que transformou sua história.
“Aceita-nos a nós”
As onze religiosas começaram a rezar pelos prisioneiros. E tomaram juntas uma decisão extraordinária. Irmã Stella, falando em nome da comunidade, expressou desta maneira a oração das irmãs:
“Meu Deus, se é necessário um sacrifício de vida, aceita-nos a nós e poupa aqueles que têm família.”
Essa oferta não é simplesmente uma lenda criada muito tempo depois. A própria Congregação das Irmãs da Sagrada Família de Nazaré conserva esse testemunho em seus textos litúrgicos, e São João Paulo II fez referência explícita a essa oferta durante a beatificação das religiosas.
Os homens presos acabaram não sendo executados. Alguns foram enviados para trabalhos forçados; outros posteriormente conseguiram voltar para suas famílias.
Mas ainda havia outra pessoa ameaçada: o sacerdote Alexandre Zienkiewicz, capelão das irmãs e pároco da igreja da Transfiguração. Novamente elas rezaram oferecendo a própria vida. João Paulo II resumiria depois aquilo que aconteceu dizendo que as religiosas “unânimes, ofereceram a Deus as suas vidas”, pedindo que fossem poupados os pais e mães de família e o sacerdote local. Elas não podiam saber o que aconteceria. Mas poucos dias depois alguém bateu à porta.
“Apresentem-se à Gestapo”
Na noite de 31 de julho de 1943, as religiosas receberam ordem para comparecer diante das autoridades alemãs. Onze irmãs foram. Uma religiosa da comunidade, Irmã Małgorzata Banaś, permaneceu no convento devido às circunstâncias daquele momento e, por isso, sobreviveu.
As outras foram levadas pela Gestapo. A princípio, os alemães pretendiam conduzi-las imediatamente para fora da cidade. Mas havia pessoas nas ruas e o plano foi adiado. As irmãs passaram então aquela noite esperando pela morte.
Esse detalhe é particularmente seguro porque o próprio São João Paulo II, na homilia de beatificação, recordou aquela noite inteira durante a qual as religiosas aguardaram o que aconteceria. Imagine aquelas horas. Elas sabiam que estavam nas mãos da Gestapo. Sabiam o que estava acontecendo em toda aquela região. Provavelmente compreendiam que poderiam não voltar. Não temos necessidade de inventar discursos ou conversas emocionantes entre elas. O fato documentado já é suficientemente forte: elas esperaram juntas.
A floresta
Na manhã seguinte, 1º de agosto de 1943, os alemães colocaram as onze religiosas num veículo e as levaram para uma floresta próxima de Nowogródek.
Ali havia sido preparada uma vala. As irmãs foram conduzidas ao lugar da execução. E foram fuziladas.
Irmã Stella tinha 54 anos. A mais jovem do grupo, Irmã Maria Borromea, tinha apenas 26 anos.
As onze morreram juntas. A documentação oficial do Vaticano registra Nowogródek e seus arredores, na atual Bielorrússia, como o lugar do martírio e 1º de agosto de 1943 como a data de sua morte.
E os homens pelos quais elas haviam rezado?
Aqui está uma das partes mais impressionantes da história. Eles sobreviveram.
Os prisioneiros pelos quais as religiosas haviam oferecido suas vidas não foram executados. E o padre Alexandre Zienkiewicz também sobreviveu à guerra.
Mas para as religiosas e para a Igreja, a coincidência adquiriu um significado enorme. Elas haviam rezado: “Se é necessário um sacrifício, aceita-nos a nós.” Pouco depois, foram mortas. E aqueles por quem haviam oferecido suas vidas sobreviveram.
A própria Igreja colocou essa relação no centro da memória de seu martírio.
“Ninguém tem maior amor...”
Quase 57 anos depois, no dia 5 de março de 2000, São João Paulo II beatificou em Roma Maria Stella Mardosewicz e suas dez companheiras.
E quando chegou o momento de explicar por que aquelas onze mulheres deveriam ser apresentadas à Igreja inteira, o Papa escolheu uma frase de Jesus:
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos.” (Jo 15,13)
João Paulo II perguntou de onde aquelas mulheres haviam tirado coragem para oferecer a própria vida em troca dos condenados de Nowogródek. E respondeu mostrando que aquela decisão não surgiu de repente: elas haviam passado anos aprendendo a servir. O martírio foi o ponto final de uma vida que já estava sendo entregue todos os dias.
No dia 1º de agosto de 1943, onze mulheres foram conduzidas para uma floresta e fuziladas.
O regime nazista provavelmente imaginou que ali terminava a história delas.
Não terminou. Em 2000, diante da Igreja reunida em Roma, João Paulo II chamou aquelas religiosas de “testemunhas do amor” e exemplo de “heroísmo cristão”.
E talvez seja justamente essa a pergunta que as onze mártires deixam para nós: quanto vale a vida do outro para mim? Para elas, a resposta foi radical.
Valia tanto que estavam dispostas a entregar a própria.
Referências históricas
São João Paulo II, Homilia da beatificação de Maria Stella Mardosewicz e suas dez companheiras, 5 de março de 2000, Vaticano. O Papa menciona explicitamente a oferta das religiosas pelos prisioneiros e apresenta seu gesto à luz de Jo 15,13.
São João Paulo II, discurso aos peregrinos após a beatificação, 6 de março de 2000. O Papa recorda o trabalho das irmãs antes e durante a ocupação e afirma que elas ofereceram unanimemente suas vidas pelos pais e mães de família e pelo sacerdote local.
Pontificia Academia Cultorum Martyrum – Vaticano, registro oficial de Maria Stella e suas dez companheiras, com nomes, nascimento, morte, beatificação e memória litúrgica.
Congregação das Irmãs da Sagrada Família de Nazaré, próprio litúrgico de Beata Maria Stella e suas dez companheiras, com a história da comunidade, da oferta e do martírio.