
20 set 2026
☀️ Santo do dia: Santos André Kim Tae-gon, Paulo Chong Ha-sang e Companheiros
a Igreja que nasceu das mãos dos leigos
1. Uma Igreja que começou sem sacerdotes
A história do cristianismo na Coreia começou de um modo extraordinário. No final do século XVIII, ainda não havia uma missão católica organizada no país. A Coreia da dinastia Joseon mantinha contatos diplomáticos com a China, e alguns intelectuais coreanos tiveram acesso a livros cristãos escritos ou traduzidos por missionários que trabalhavam em Pequim. Por volta de 1777, um grupo começou a estudar seriamente esses textos. Não estavam simplesmente curiosos sobre uma religião estrangeira: alguns acabaram convencidos de que aquilo que liam era verdade. Em 1784, Yi Seung-hun viajou a Pequim, recebeu o Batismo e voltou à Coreia. Os novos cristãos começaram então a evangelizar amigos e parentes, formar comunidades, rezar juntos e transmitir a doutrina que haviam aprendido. Assim surgiu uma das experiências mais singulares da história moderna da Igreja: uma comunidade católica nasceu e começou a crescer graças principalmente aos próprios leigos, antes de possuir sacerdotes de maneira estável.
2. Livros, Batismo e cristãos escondidos
A fé passou de pessoa para pessoa. Famílias inteiras começaram a converter-se. Os cristãos procuravam aprofundar aquilo que tinham descoberto e pediam insistentemente sacerdotes que pudessem celebrar a Eucaristia, confessar e administrar os demais sacramentos. Quando um sacerdote chinês conseguiu entrar clandestinamente na Coreia em 1794, encontrou, segundo a tradição histórica recolhida pelo Vatican News, cerca de 4.000 cristãos. Algumas décadas depois já eram aproximadamente 10.000. A Igreja coreana crescia quase escondida, dentro das casas, sustentada por catequistas e famílias. Mas a nova fé entrou em conflito com aspectos fundamentais da ordem política e social da dinastia Joseon, especialmente em torno dos ritos ancestrais e da estrutura confuciana da sociedade. Começaram perseguições sucessivas. Ser descoberto como cristão podia significar prisão, tortura, perda dos bens e morte.
3. Paulo Chong Ha-sang: o menino que viu sua família ser destruída
Foi nesse ambiente que nasceu, por volta de 1795, Paulo Chong Ha-sang. O cristianismo já havia custado muito caro à sua família. Seu pai, Agostinho Chong Yak-jong, um dos importantes leigos católicos da primeira geração coreana, foi martirizado em 1801. Paulo era ainda criança. A família perdeu os bens e foi duramente atingida pela perseguição. Mas aquilo que poderia ter feito o menino abandonar definitivamente a religião de seu pai produziu o efeito contrário: Paulo cresceu decidido a ajudar aquela Igreja perseguida a sobreviver. Transferiu-se para Seul e tornou-se catequista. Percebeu, porém, um problema enorme: os cristãos coreanos precisavam de sacerdotes. Sem eles, não havia celebração regular da Eucaristia, Confissão nem uma estrutura eclesial capaz de acompanhar aquelas comunidades espalhadas clandestinamente pelo país.
4. Quinze viagens para buscar sacerdotes
Paulo começou então uma aventura impressionante. Aproveitando as delegações que viajavam da Coreia para a China, percorreu repetidamente o caminho até Pequim para entrar em contato com a Igreja e pedir missionários. O Vatican News fala de pelo menos quinze viagens, realizadas em condições extremamente difíceis. Não havia trem, avião ou automóvel. Eram longos deslocamentos por estradas e regiões perigosas, num tempo em que a presença de missionários estrangeiros na Coreia era proibida. Paulo insistia: aquela pequena Igreja precisava de pastores. Seus esforços ajudaram a tornar conhecida em Roma a situação dos cristãos coreanos e contribuíram para a criação, em 1831, do Vicariato Apostólico da Coreia. Depois, missionários franceses das Missões Estrangeiras de Paris começaram a entrar clandestinamente no país. Paulo ajudou alguns deles e tornou-se colaborador próximo do bispo Laurent-Joseph-Marius Imbert. O bispo chegou a prepará-lo para o sacerdócio.
5. Paulo nunca chegou ao altar
Em 1839, porém, começou uma perseguição violentíssima. Paulo foi preso. Tinha cerca de 44 anos. Diante das autoridades, não procurou simplesmente sobreviver: defendeu racionalmente a fé que professava. É atribuído a ele o famoso texto conhecido como “Carta ao Ministro”, uma exposição na qual procurava mostrar que o cristianismo não representava uma ameaça criminosa ao Estado. Paulo foi interrogado e torturado para que abandonasse a fé. Não abandonou. O homem que havia passado anos tentando trazer sacerdotes para a Coreia estava se preparando para tornar-se um deles, mas nunca recebeu a ordenação. Foi executado em 22 de setembro de 1839. Sua vocação sacerdotal ficou aparentemente interrompida; sua missão, porém, já havia produzido frutos: sacerdotes e bispos tinham finalmente conseguido entrar naquela Igreja que os leigos haviam sustentado durante décadas.
6. Ana Pak Agi: “Se não consigo conhecer tanto, vou amar”
Entre os cristãos presos na mesma grande perseguição estava uma mulher completamente diferente de Paulo. Ana Pak Agi, nascida por volta de 1783, era casada e mãe de família. Tinha enorme dificuldade para estudar. Aprender as orações e memorizar a doutrina cristã era um sofrimento para ela. Outros conseguiam recordar facilmente aquilo que aprendiam; Ana esquecia. Mas encontrou uma resposta belíssima para sua limitação. Uma antiga biografia conserva esta frase atribuída a ela: “Já que não consigo conhecer meu Deus como desejaria, procurarei ao menos amá-lo de todo o meu coração.” Sua inteligência podia ter dificuldade para memorizar fórmulas; seu coração havia compreendido o essencial. Tinha especial devoção à Paixão de Cristo e emocionava-se profundamente ao contemplar suas cinco chagas.
7. A família pedia que ela cedesse
Quando Ana foi presa, as autoridades tentaram fazê-la apostatar. Seu marido e um de seus filhos também haviam sido presos, mas acabaram cedendo e foram libertados. Depois passaram a visitá-la, tentando convencê-la a fazer o mesmo. Era suficiente renunciar exteriormente à fé para voltar para casa. Falavam-lhe da família, dos filhos que precisavam dela e de sua mãe idosa. Ana permaneceu firme. A antiga narrativa de seu martírio conserva sua resposta aos familiares: em vez de pedirem que abandonasse Deus para ganhar alguns dias de vida, deveriam eles mesmos “voltar para Deus”. Depois de aproximadamente três meses de prisão, Ana foi executada em 24 de maio de 1839, com cerca de 56 anos. Aquela mulher que não conseguia decorar facilmente a doutrina terminou dando a resposta mais difícil de todas: permaneceu fiel quando a própria vida estava em jogo.
8. Nasce André Kim Tae-gon
Enquanto Paulo e Ana viviam essa primeira grande geração de mártires, crescia um menino chamado André Kim Tae-gon. Nasceu em 1821, numa família profundamente cristã. Sua casa servia como lugar de encontro para católicos e seu pai, Inácio Kim Je-jun, ajudava a comunidade perseguida. André aprendeu cedo que ser cristão não era simplesmente frequentar uma igreja aos domingos. Na Coreia daquela época, podia significar viver escondido e saber que, a qualquer momento, alguém da família poderia ser preso. Seu próprio pai foi martirizado em 1839, aos 44 anos. André tinha aproximadamente 18 anos. Em vez de abandonar a fé que havia custado a vida ao pai, decidiu entregar-se ainda mais profundamente a ela.
9. Para ser padre, era preciso sair do país
A Coreia não possuía um seminário onde André pudesse simplesmente matricular-se. Se quisesse tornar-se sacerdote, teria de deixar clandestinamente sua terra. Ainda adolescente, iniciou uma viagem extraordinária em direção a Macau, então importante centro missionário no sul da China. Ali começou sua formação. Precisou aprender línguas, filosofia, teologia e adaptar-se a um mundo muito diferente daquele de sua infância. Durante anos deslocou-se entre diferentes territórios da Ásia Oriental enquanto os missionários procuravam encontrar uma maneira segura de entrar na Coreia. André não estudava para possuir um título. Estava se preparando para voltar a um país onde exercer o sacerdócio podia signific ser morto. Em 1844, retornou à Coreia como diácono e começou a explorar rotas clandestinas pelas quais os missionários pudessem entrar.
10. O primeiro sacerdote coreano
André voltou a sair do país e finalmente foi ordenado sacerdote em 1845, tornando-se o primeiro sacerdote católico coreano. Tinha apenas 24 anos. Pouco depois, regressou clandestinamente à sua terra acompanhado pelo bispo Jean-Joseph Ferréol e pelo missionário Antoine Daveluy. Finalmente, aquela Igreja que durante tantos anos havia pedido sacerdotes via um de seus próprios filhos retornar como padre. André conhecia a língua, os costumes, as estradas e a mentalidade de seu povo. Podia mover-se de modo que um europeu dificilmente conseguiria. Celebrava os sacramentos, visitava comunidades escondidas e ajudava os missionários. Mas havia outro problema urgente: era preciso encontrar uma rota segura para que novos sacerdotes pudessem entrar no país. Foi justamente enquanto trabalhava nessa missão que André acabou descoberto.
11. Preso aos 25 anos
Em 1846, André investigava a costa e procurava estabelecer contato com embarcações estrangeiras, preparando uma nova passagem para missionários. Foi preso. As autoridades rapidamente perceberam que aquele jovem não era um cristão qualquer: falava línguas estrangeiras, conhecia europeus e podia fornecer informações importantes. Foi interrogado repetidamente. Sofreu torturas e recebeu propostas para abandonar o cristianismo. Mas André permaneceu firme. Na prisão, escreveu aos cristãos uma carta de despedida. Sabia que morreria, mas procurava fortalecer aqueles que permaneceriam vivos. Sua preocupação não estava concentrada somente em si mesmo: queria que aquela pequena Igreja continuasse unida depois de sua morte.
12. “Somos soldados neste campo de batalha”
Na carta escrita pouco antes do martírio, André utilizou uma imagem muito forte. Recordou aos cristãos que todos estavam envolvidos numa luta e que precisavam permanecer unidos. A espiritualidade dos mártires coreanos não era uma procura da morte. Eles queriam viver, evangelizar, formar famílias e celebrar os sacramentos. Mas, quando foram obrigados a escolher entre conservar a vida negando Cristo ou permanecer com Cristo perdendo a vida, escolheram permanecer. André foi conduzido para Saenamteo, às margens do rio Han, em Seul. Em 16 de setembro de 1846, foi decapitado. Tinha apenas 25 anos. Seu sacerdócio havia durado pouco mais de um ano.
13. A perseguição não conseguiu acabar com eles
A morte de André não encerrou a perseguição. Novas ondas de violência atingiram os cristãos nas décadas seguintes. Em 1866, começou outra perseguição particularmente dura. Bispos, sacerdotes e milhares de leigos foram presos ou mortos. Entre os missionários estava o francês Pedro Henrique Dorie, sacerdote das Missões Estrangeiras de Paris. Nascido em 1839, entrou clandestinamente na Coreia e exerceu ali seu ministério por pouquíssimo tempo antes de ser preso. Foi executado em 7 de março de 1866, também em Saenamteo. Ele representa os missionários estrangeiros que entraram conscientemente num país onde sabiam que poderiam morrer para servir comunidades cristãs que haviam passado décadas pedindo sacerdotes.
14. Homens, mulheres, crianças,
padres e mães de família
Quando São João Paulo II chegou à Coreia em 1984, a Igreja havia documentado o martírio dos 103 cristãos que seriam canonizados. O Papa ressaltou algo impressionante: entre eles havia somente 11 membros do clero e 92 leigos. Eram homens e mulheres, jovens e idosos, nobres e pobres. O mais velho tinha 79 anos; o mais jovem, apenas 13. Dez eram missionários franceses; os demais pertenciam àquela Igreja coreana que havia crescido graças principalmente à coragem de suas próprias famílias e catequistas. João Paulo II recordou ainda que o número total dos cristãos mortos nas perseguições coreanas é tradicionalmente calculado em torno de dez mil.
15. 6 de maio de 1984: o Papa vai até eles
Em vez de realizar a canonização em Roma, São João Paulo II foi à Coreia. Em 6 de maio de 1984, em Seul, proclamou santos André Kim Tae-gon, Paulo Chong Ha-sang e seus 101 companheiros. Era a primeira canonização celebrada pelo Papa fora de Roma em tempos modernos. Aquela cerimônia possuía uma força histórica enorme. Dois séculos antes, os primeiros coreanos tinham encontrado livros cristãos e começado praticamente sozinhos a procurar a fé. Depois vieram prisões, torturas, famílias destruídas, missionários clandestinos e milhares de mortes. Agora o sucessor de Pedro chegava à própria Coreia para reconhecer oficialmente a santidade de 103 deles.
16. Uma Igreja que aprendeu a caminhar antes que chegassem os padres
Talvez seja justamente isso que torne os mártires coreanos tão especiais. A história não começa com um grande missionário estrangeiro desembarcando para converter um povo. Começa com leigos lendo, perguntando, procurando, viajando, pedindo o Batismo e transmitindo aquilo que haviam descoberto. Depois, esses mesmos leigos perceberam que precisavam da Igreja inteira e começaram a atravessar fronteiras para buscar sacerdotes. Paulo Chong Ha-sang percorreu repetidamente o caminho até a China para encontrá-los. André Kim atravessou fronteiras para poder tornar-se um deles. Ana Pak Agi mostrou que a santidade não dependia de conseguir aprender tudo de memória: “Já que não consigo conhecer meu Deus como desejaria, procurarei ao menos amá-lo de todo o meu coração.”
No fim, a perseguição produziu exatamente o contrário daquilo que pretendia. Queria apagar uma pequena comunidade e acabou deixando para a Coreia uma multidão de testemunhas. Um leigo caminhava até Pequim procurando sacerdotes; um jovem atravessava a Ásia para tornar-se padre; uma mãe de família que mal conseguia memorizar o catecismo recusava-se a abandonar Cristo; missionários estrangeiros entravam clandestinamente para não deixar aquela comunidade sem os sacramentos. Eram muito diferentes entre si, mas pertenciam à mesma história. Por isso a Igreja não celebra apenas André ou apenas Paulo no dia 20 de setembro. Celebra-os com seus companheiros. A santidade da Igreja coreana nasceu justamente assim: um cristão sustentando o outro, uma família transmitindo a fé à seguinte, leigos procurando sacerdotes e sacerdotes arriscando a vida para voltar aos leigos que os esperavam.
Fontes e nota histórica: São João Paulo II, Audiência Geral, 16 de maio de 1984; João Paulo II, Carta Decretal Universae Ecclesiae, 6 de maio de 1984; documentação da canonização dos 103 Mártires Coreanos, Santa Sé; Vatican News, “SS. André Kim Tae-gon, presbítero, e Paulo Chong Ha-sang e Companheiros”; documentação histórica da Igreja Católica da Coreia e das Missões Estrangeiras de Paris. A Santa Sé registra 103 canonizados: 11 membros do clero e 92 leigos, martirizados nas perseguições do século XIX; João Paulo II indicava em 1984 que o número total de mártires coreanos era estimado em cerca de dez mil.