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28 ago 2026

☀️ Santo do dia: Santo Agostinho de Hipona

O homem que procurou a felicidade em toda parte até descobrir por que seu coração continuava inquieto


Agostinho nasceu em 13 de novembro de 354, em Tagaste, na Numídia romana, no norte da África — atual Souk Ahras, na Argélia. Seu pai, Patrício, ainda não era cristão e só receberia o Batismo no final da vida; sua mãe era Santa Mônica, que desde cedo procurou transmitir-lhe a fé. Agostinho era extraordinariamente inteligente, inquieto, competitivo e ambicioso. Gostava das palavras, queria vencer discussões e sonhava com uma carreira importante. Ao mesmo tempo, desejava intensamente “amar e ser amado”. Décadas mais tarde, já bispo, decidiu contar sua história nas Confissões e fez algo raríssimo: ninguém, antes dele tinha feito isso e o fez com toda sinceridade, mostrando quanto foi forte a ação de Deus em sua vida. Foi um “negativo” que se transformou em uma maravilhoso “positivo”.  Contou seus pecados, suas ambições, sua sexualidade, as pessoas que feriu, as ideias erradas que defendeu e a longa procura pela verdade. Por isso conhecemos sua juventude melhor do que a de quase qualquer outro cristão do século IV.

Aos 16 anos, depois de estudar em Madaura, Agostinho passou cerca de um ano novamente em Tagaste. Seu pai, Patrício, apesar dos recursos modestos da família, estava reunindo o dinheiro necessário para que o filho pudesse continuar os estudos em Cartago. Agostinho recordaria mais tarde aquele período como um tempo de ociosidade, no qual suas paixões sexuais se tornaram mais intensas e sua conduta começou a preocupar Mônica. Não foi a falta de dinheiro que o levou a uma vida desordenada; a dificuldade econômica apenas provocou uma interrupção temporária nos estudos. O próprio Agostinho reconhece que, naquele tempo livre e sem a disciplina da escola, deixou-se arrastar cada vez mais pelos desejos e pela influência dos companheiros (Confissões, II,3). 

Por volta dos 17 anos, Agostinho chegou a Cartago, uma das grandes cidades da África romana, onde retomou os estudos. Encontrou ali também amizades, espetáculos, ambições, vida desregrada… É ele próprio quem descreve sua chegada dizendo que ao seu redor fervilhava um “caldeirão de amores desordenados” (Confissões, III,1,1). Frequentava também os teatros. O próprio Agostinho reconhece que certas representações alimentavam nele a sensualidade e as paixões. O problema que ele identificaria mais tarde não estava apenas no que acontecia sobre o palco, mas no que aqueles espetáculos despertavam dentro dele (Confissões, III,2).


A mulher cujo nome nunca contou


Foi durante essa juventude que Agostinho começou a viver com uma mulher que permaneceria ao seu lado por cerca de treze anos. Não sabemos seu nome. É uma ausência impressionante nas Confissões: Agostinho fala da relação, do filho que tiveram e da dor terrível da separação, mas nunca identifica essa mulher. Eles não eram casados juridicamente; Agostinho apresenta a relação como concubinato, dentro das estruturas sociais do mundo romano. Entretanto, seria errado imaginar esses treze anos como uma sequência de aventuras sexuais. Ele próprio afirma que tinha uma única companheira e lhe era fiel naquele período (Confissões, IV,2,2). Sua vida sexual continuava sendo considerada por ele desordenada, porque vivia fora do matrimônio e reconhecia em si uma dependência crescente do prazer, mas havia entre os dois uma relação duradoura e um vínculo afetivo real.

Por volta de 372, quando Agostinho tinha aproximadamente 18 anos, nasceu o filho do casal, Adeodato, nome que significa “dado por Deus”. A gravidez não havia sido planejada. Agostinho reconheceria mais tarde, com uma franqueza desconcertante, que o filho fora concebido sem que eles o desejassem, mas, uma vez nascido, foi profundamente amado (Confissões, IV,2,2). Adeodato revelou uma inteligência excepcional. Anos depois, participaria dos diálogos filosóficos do pai e estaria ao seu lado justamente no momento mais importante de sua vida: o Batismo.

Agostinho tornou-se professor de gramática e depois de retórica, a arte de falar e argumentar de maneira persuasiva. Ensinou em Tagaste e Cartago e queria subir socialmente. Desejava reconhecimento, alunos, prestígio e uma grande carreira. Mas havia dentro dele outra fome que os prazeres e o sucesso não conseguiam eliminar. Aos 19 anos, leu o Hortensius, obra hoje perdida de Cícero, e aquela leitura despertou nele uma paixão pela sabedoria. Começou a procurar respostas para perguntas fundamentais: quem é Deus? O que é a verdade? Por que existe o mal? Tentou aproximar-se das Escrituras, mas inicialmente ficou decepcionado. Comparada com a elegância de Cícero, a linguagem bíblica lhe pareceu pobre, e algumas passagens lhe pareciam difíceis ou absurdas quando interpretadas literalmente.

Foi então que conheceu o maniqueísmo, religião fundada por Mani no século III. Os maniqueus prometiam explicar racionalmente a luta entre o bem e o mal através de dois princípios opostos, luz e trevas. Para um jovem atormentado pelo problema da origem do mal, aquela doutrina parecia oferecer respostas claras. Agostinho aderiu ao movimento e permaneceu ligado a ele durante aproximadamente nove anos. Com o tempo, porém, começou a perceber que muitas respostas não resistiam às perguntas que fazia. Esperou ansiosamente encontrar Fausto, um célebre mestre maniqueu, acreditando que ele finalmente resolveria suas dificuldades. Encontrou um homem agradável e eloquente, mas incapaz de responder às questões mais profundas. A confiança de Agostinho no maniqueísmo começou a desmoronar.


Roma, Milão e Ambrósio


Em 383, aos 28 anos, Agostinho decidiu deixar Cartago e tentar a carreira em Roma. Mônica não queria que partisse sozinho e desejava acompanhá-lo. Agostinho então a enganou. Enquanto a mãe passou a noite rezando numa capela próxima ao porto, ele embarcou escondido… Anos depois contou o episódio sem tentar justificá-lo. A mulher que havia passado anos rezando por ele ficou na costa enquanto o filho atravessava o Mediterrâneo em busca de uma carreira melhor. Depois de um pouco, Mônica, também, acabaria atravessando também o mar atrás dele.

Depois de uma passagem por Roma, Agostinho conseguiu um posto muito mais prestigioso: tornou-se professor oficial de retórica em Milão, onde se encontrava a corte imperial. Foi ali que conheceu Santo Ambrósio, bispo da cidade e um dos grandes intelectuais cristãos de seu tempo. Agostinho começou a ouvi-lo interessado principalmente em sua eloquência. Queria observar como Ambrósio falava; pouco a pouco começou a prestar atenção no que ele dizia. Ambrósio mostrou-lhe que as Escrituras podiam ser interpretadas com uma profundidade que Agostinho desconhecia. Ao mesmo tempo, a leitura de filósofos neoplatônicos ajudou-o a abandonar o materialismo maniqueu e a compreender que Deus não precisava ser pensado como um corpo. Suas grandes objeções intelectuais ao cristianismo começaram a cair. Mas então apareceu um problema ainda maior: aceitar intelectualmente o cristianismo era muito mais fácil do que viver como cristão.


A separação que deixou seu coração “ferido e sangrando”


Mônica começou a procurar para o filho um casamento socialmente adequado. Agostinho era agora um professor importante e um bom casamento poderia consolidar sua posição. Isso significou, porém, o fim da relação que mantinha havia cerca de treze anos com a mãe de Adeodato. Não conhecemos todos os fatores jurídicos e sociais que impediram ou desaconselharam o casamento entre eles, e seria errado inventá-los. O que o próprio Agostinho afirma é que aquela mulher foi afastada porque era considerada um impedimento para o casamento que estava sendo preparado.

Ela voltou para a África, enquanto Adeodato permaneceu com o pai. A separação foi brutal para Agostinho. Anos depois, escreveu que a mulher com quem costumava partilhar o leito havia sido “arrancada do meu lado” e que seu coração, profundamente ligado a ela, ficara “ferido e sangrando” (Confissões, VI,15,25). Antes de partir, ela fez a Deus uma promessa: não conhecer outro homem. Agostinho não conseguiu fazer o mesmo. A jovem escolhida para ser sua futura esposa ainda não possuía idade suficiente para o casamento e seria necessário esperar aproximadamente dois anos. Ele confessa que não conseguiu esperar e tomou outra concubina. Dessa segunda mulher praticamente nada sabemos: nem seu nome, nem quanto tempo permaneceu com ele, nem se houve entre os dois um vínculo semelhante ao da primeira relação. Portanto, não podemos falar propriamente de duas relações estáveis. Houve uma longa união com a mãe de Adeodato; depois, uma segunda concubina durante a espera pelo casamento com uma terceira mulher, a jovem com quem estava prometido. Esse casamento jamais aconteceria.

Foi justamente nessa confusão que Agostinho começou a perceber que o problema não estava apenas nas circunstâncias externas. Estava nele. Sofria porque perdera uma mulher a quem estivera profundamente ligado, mas ao mesmo tempo descobria-se incapaz de permanecer sem uma relação sexual. Ele próprio resumiu sua condição dizendo que não era verdadeiramente amante do matrimônio, mas “escravo da paixão” (Confissões, VI,15,25). Outra frase das Confissões revela ainda melhor sua luta. Durante certo período, Agostinho rezava: “Dá-me castidade e continência, mas não agora.” E explica, quase com vergonha, que tinha medo de que Deus o atendesse depressa demais (Confissões, VIII,7,17). Ele queria Deus, mas ainda queria conservar os prazeres aos quais estava acostumado. A questão já não era apenas saber se o cristianismo era verdadeiro. A pergunta agora era muito mais incômoda: se for verdadeiro, estou disposto a mudar minha vida por causa disso?


A rapida ascensão profissional de Agostinho


Depois de concluir sua formação, Agostinho começou a trabalhar como professor. Com cerca de 21 anos, ensinava em Tagaste, sua cidade natal. Pouco depois voltou para Cartago, onde passou vários anos ensinando retórica, a arte de falar e argumentar de maneira persuasiva. Era muito inteligente, dominava as palavras e queria crescer profissionalmente. Aos 28 anos, decidiu deixar a África e tentar a carreira em Roma. Esperava encontrar ali melhores oportunidades e estudantes mais disciplinados, mas ficou decepcionado: nas Confissões, conta que alguns alunos romanos tinham o costume de abandonar um professor e procurar outro justamente quando chegava a hora de pagar pelas aulas (Confissões, V,12).

Com cerca de 29 anos, porém, Agostinho conseguiu a grande oportunidade de sua carreira. Por recomendação de Quinto Aurélio Símaco, prefeito de Roma, foi escolhido para ocupar o prestigioso cargo de professor público de retórica em Milão, uma das cidades onde residia a corte imperial. Para aquele jovem africano que durante anos buscara reconhecimento através dos estudos e da eloquência, era uma enorme conquista: Agostinho estava chegando ao ponto mais alto de sua carreira justamente quando começava a perceber que o sucesso profissional não resolvia sua inquietação interior.

Foi em Milão, ainda com cerca de 29 anos, que conheceu Santo Ambrósio, bispo da cidade e um dos grandes intelectuais cristãos de seu tempo. Agostinho começou a ouvi-lo interessado principalmente em sua eloquência. Como professor de retórica, queria observar como aquele famoso bispo falava; pouco a pouco, porém, começou a prestar atenção no que ele dizia. Ambrósio mostrou-lhe que as Escrituras podiam ser interpretadas com uma profundidade que Agostinho desconhecia. Ao mesmo tempo, a leitura de autores neoplatônicos ajudou-o a superar algumas das dificuldades intelectuais que o haviam mantido próximo do maniqueísmo. Suas antigas certezas começaram a desmoronar.

Aos 31 anos, depois da profunda crise interior que culminou no episódio do jardim de Milão e no “Tolle, lege — Toma e lê”, Agostinho decidiu abandonar a carreira de professor. Não saiu impulsivamente no meio de suas obrigações: esperou o momento adequado para deixar o cargo e comunicou que não retomaria o ensino (Confissões, IX,2). Aos 32 anos, na Vigília Pascal, recebeu o Batismo das mãos de Santo Ambrósio, juntamente com seu filho Adeodato. Assim, em pouco mais de dez anos, Agostinho havia passado de jovem professor de sua pequena cidade a um dos grandes mestres de retórica de Milão — e, justamente quando alcançou o sucesso profissional que tanto desejara, decidiu deixá-lo para começar uma vida completamente diferente.


“Toma e lê”


Vale a pena aprofundar esse momento crucial da vida de Santo Agostinho, a sua conversão. No verão de 386, aos 31 anos, a crise chegou ao limite. Agostinho já conhecia exemplos de homens e mulheres que haviam abandonado tudo para seguir Cristo e ouvira falar da vida de Santo Antão do Deserto. Suas grandes objeções intelectuais estavam praticamente vencidas, mas sua vontade continuava dividida. Num momento de profunda agitação, retirou-se para um jardim e começou a chorar. Foi então que ouviu, vindo de uma casa próxima, uma voz de criança repetindo como uma cantiga: “Tolle, lege! Tolle, lege!” — “Toma e lê! Toma e lê!” Agostinho interpretou aquilo como um chamado para abrir as Escrituras. Voltou ao lugar onde havia deixado um códice das cartas de São Paulo e leu a primeira passagem que encontrou: “Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidades e libertinagem, não em brigas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não cuideis da carne em suas concupiscências” (Rm 13,13-14; Confissões, VIII,12,29). Ele parou. Segundo seu próprio relato, uma “luz de segurança” entrou em seu coração e as trevas da dúvida desapareceram. Não significava que em poucos segundos todos os problemas de sua personalidade estivessem resolvidos. Significava que finalmente havia tomado a decisão que adiara durante anos.

Agostinho abandonou a carreira pública e retirou-se com familiares e amigos para Cassicíaco, perto de Milão, preparando-se para o Batismo através da oração, do estudo e de conversas filosóficas. E entre os que estavam com ele encontrava-se Adeodato. Na Vigília Pascal de 387, Agostinho, então com 32 anos, recebeu o Batismo das mãos de Santo Ambrósio, em Milão. Adeodato foi batizado com ele. O filho nascido daquela relação iniciada durante sua juventude estava agora ao lado do pai no momento que dividia sua vida em duas partes.

Depois do Batismo, Agostinho decidiu voltar para a África. Já não queria a carreira que perseguira durante tantos anos; desejava viver em comunidade, dedicado à oração, ao estudo e a Deus. Durante a viagem chegou com Mônica a Óstia, o grande porto de Roma. Ali aconteceu a extraordinária conversa entre mãe e filho junto a uma janela, narrada nas Confissões. Mônica havia esperado durante anos por aquele momento: o filho estava finalmente batizado e disposto a entregar a vida a Deus. Poucos dias depois, ela adoeceu e morreu. Agostinho chorou profundamente sua morte. Algum tempo depois enfrentou outra perda: Adeodato morreu ainda muito jovem, provavelmente com cerca de dezesseis anos. A companheira de tantos anos havia partido, Mônica estava morta e agora também o filho que amava. Agostinho retornou à África profundamente diferente do jovem que a havia deixado.


O homem que queria estudar acabou no meio do povo


De volta à África, Agostinho organizou uma pequena comunidade de vida religiosa. Queria estudar, rezar e viver com seus companheiros. Em 391, porém, foi a Hipona, atual Annaba, na Argélia, e ali aconteceu algo que não havia planejado. Durante uma celebração, o bispo Valério falou ao povo sobre a necessidade de um novo sacerdote. A comunidade reconheceu Agostinho e começou a pedir que fosse escolhido. Agostinho chorou. Não porque desprezasse o sacerdócio, mas porque não procurava a ordenação e se considerava despreparado para uma responsabilidade tão grande. Sua própria Carta 21, dirigida a Valério pouco depois, revela quanto o peso do ministério o assustava e quanto julgava necessário aprofundar seu conhecimento das Escrituras. Acabou aceitando a ordenação. Tornou-se sacerdote em 391 e, alguns anos depois, por volta de 395-396, tornou-se bispo de Hipona.

O homem que desejava uma vida tranquila de estudo passou então a viver cercado de gente. Pregava, ensinava as Escrituras, formava sacerdotes, organizava comunidades, atendia pobres, escrevia cartas, intervinha em conflitos e participava das grandes discussões religiosas de seu tempo. Enfrentou o maniqueísmo, que conhecia por experiência própria; combateu o donatismo, divisão que ferira profundamente a Igreja africana; e participou das grandes controvérsias sobre liberdade humana, pecado e graça ligadas a Pelágio e seus seguidores. Foi o padre da Igreja que mais escreveu.

Talvez uma das características mais impressionantes de Agostinho seja que ele não apagou seu passado quando se tornou bispo. Poderia ter escondido a companheira com quem viveu durante cerca de treze anos, mas não escondeu. Poderia ter omitido que tivera um filho fora do casamento, mas falou de Adeodato com profundo amor. Poderia ter escondido sua dificuldade em dominar o desejo sexual, mas preferiu registrar uma das orações mais constrangedoras de sua juventude: “Dá-me castidade e continência, mas não agora” (Confissões, VIII,7,17). Também não apagou sua adesão ao maniqueísmo, sua ambição, o episódio em que enganou Mônica para embarcar sem ela nem suas próprias contradições. As Confissões não foram escritas para demonstrar que Agostinho sempre fora santo, mas para mostrar o caminho de um homem que procurou a verdade, resistiu a ela quando percebeu quanto lhe custaria e finalmente permitiu que ela transformasse sua vida.

É por isso que colocou praticamente no início das Confissões a frase que se tornaria uma das mais famosas da literatura cristã: “Tu nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” (Confissões, I,1,1). Para Agostinho, aquilo não era uma frase bonita inventada para um livro. Era sua própria biografia. Durante anos procurara algo capaz de satisfazê-lo: prazer, amor, sexo, espetáculos, sucesso profissional, prestígio intelectual, filosofias e religiões. Encontrava coisas boas misturadas a coisas destrutivas, experimentava satisfação e logo voltava a sentir aquela inquietação. Anos depois, olhando para trás, escreveria outra de suas grandes confissões: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!” E acrescentaria que Deus estava dentro dele enquanto ele O procurava fora (Confissões, X,27,38).


Uma conversão que durou até o fim


Seria fácil contar a vida de Agostinho como se tudo tivesse ficado resolvido naquele jardim de Milão. Ele ouviu “toma e lê”, converteu-se, foi batizado e tornou-se santo. Mas sua própria história é mais interessante. A conversão de Agostinho continuou durante toda a vida. Precisou aprender a abandonar não apenas uma vida sexual desordenada, mas também o orgulho intelectual, a ambição e a vontade de construir a existência segundo seus próprios projetos. O homem que sonhara com uma carreira brilhante teve de aprender a servir uma comunidade. O intelectual que queria compreender tudo precisou reconhecer os limites da própria inteligência. O jovem que desejava possuir a verdade começou a perceber que precisava antes deixar que a verdade transformasse sua maneira de viver.

E há uma razão especial pela qual sabemos tudo isso: Agostinho decidiu contar a verdade sobre si mesmo. Ele não transformou seus erros em virtudes, mas também não permitiu que seus erros fossem a última palavra sobre sua vida. Não disse que o prazer era sempre mau porque abusara dele; não negou ter amado a mãe de Adeodato porque a relação estava fora do matrimônio; não deixou de amar o filho porque fora concebido numa união irregular. Sua conversão não apagou sua história. Deu-lhe um novo sentido.


Os últimos dias: os vândalos diante de Hipona


Em 430, Agostinho tinha 75 anos. O mundo romano que conhecera estava passando por uma crise profunda. Os vândalos, depois de atravessarem o estreito de Gibraltar e avançarem pelo norte da África, chegaram a Hipona e cercaram a cidade. Agostinho permaneceu com sua comunidade. Durante o cerco, adoeceu com febre. Para esses últimos dias possuímos uma fonte excepcional: Possídio de Calama, bispo, amigo de Agostinho e seu primeiro biógrafo, que estava presente naquele período.

Possídio conta que Agostinho acreditava que nenhum cristão, nem mesmo um bispo idoso, deveria chegar à morte sem pedir misericórdia a Deus. Mandou copiar os salmos penitenciais e colocá-los nas paredes de seu quarto, onde pudesse lê-los deitado. Durante seus últimos dias, lia aqueles salmos e chorava. O homem que escrevera uma quantidade gigantesca de livros terminou a vida rezando palavras que não eram suas. O grande professor terminou como discípulo; o bispo que durante décadas ensinara aos outros terminou pedindo misericórdia.

Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, enquanto Hipona continuava cercada. Não viveu para ver o que aconteceria depois com a cidade. Terminou sua vida no mesmo continente africano onde começara, depois de atravessar intelectualmente e espiritualmente um mundo inteiro.


Por que Agostinho é santo?


Não porque tivesse tido uma juventude perfeita. Sua própria obra impede que fabriquemos essa imagem. Agostinho conheceu a ambição, uma sexualidade que ele próprio reconheceu como desordenada, uma longa união fora do casamento, a dependência do prazer, o maniqueísmo e o orgulho intelectual. Amou uma mulher durante muitos anos e sofreu quando a perdeu. Amou profundamente seu filho Adeodato. Procurou sinceramente a verdade, embora durante muito tempo a procurasse em caminhos que depois reconheceria como errados. E, quando começou a perceber que Cristo era a resposta que buscava, encontrou a pergunta mais difícil de todas: estava disposto a mudar de vida por causa da verdade que havia encontrado?

Sua resposta não aconteceu de uma vez. Durante algum tempo ainda foi: “não agora”. Depois tornou-se “sim”. E passou o resto da vida aprendendo o significado daquele sim. Abandonou a carreira que perseguira, renunciou ao casamento planejado, abraçou a continência, formou uma comunidade, aceitou um sacerdócio que não procurava, tornou-se bispo e colocou sua inteligência extraordinária a serviço da Igreja e das pessoas que lhe haviam sido confiadas.

É talvez por isso que Agostinho continue tão próximo mesmo depois de mais de 1.500 anos. Ele conheceu a experiência de querer uma coisa e fazer outra, de saber que precisava mudar e continuar adiando, de procurar felicidade numa coisa e descobrir que ela não bastava, de amar pessoas e mesmo assim feri-las, de procurar Deus enquanto ainda não estava disposto a entregar-Lhe tudo. Mas descobriu também que não precisava esperar tornar-se perfeito para começar a mudar.

No final da vida, enquanto uma cidade cercada desmoronava ao seu redor, aquele jovem que procurara desesperadamente algo capaz de satisfazê-lo estava deitado diante dos salmos penitenciais, preparando-se para morrer. Sua história inteira podia caber na frase que havia escrito no início das Confissões: “Tu nos fizeste para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

Em 28 de agosto de 430, depois de uma vida de busca, erros, amor, perdas, conversão, estudo e serviço, o coração inquieto de Agostinho finalmente repousou.


Fontes e referências


A fonte fundamental é o próprio Santo Agostinho, Confissões: livro II,4-10, para a adolescência e o roubo das peras; III,1-4, para Cartago, os espetáculos e o início da busca intelectual; IV,2, para a longa relação com sua companheira e o nascimento de Adeodato; V, para a crise do maniqueísmo e a partida para Roma; VI,15,25, para a separação da mãe de Adeodato, o casamento planejado e a segunda concubina; VIII,7,17, para “Dá-me castidade e continência, mas não agora”; VIII,12,28-30, para o episódio do tolle lege e a decisão de conversão; IX, para o Batismo, Adeodato e a morte de Santa Mônica; X,27,38, para “Tarde te amei”. Para a ordenação sacerdotal, é particularmente importante Santo Agostinho, Epistula 21, dirigida ao bispo Valério. Para sua vida episcopal e especialmente para os últimos dias, a principal fonte antiga é Possídio de Calama, Vita Sancti Augustini, escrita por alguém que conheceu pessoalmente Agostinho. Como referência contemporânea segura, são especialmente úteis as cinco catequeses de Bento XVI sobre Santo Agostinho, pronunciadas entre 9 de janeiro e 27 de fevereiro de 2008, nas quais Bento XVI reconstrói sua juventude, relação com a companheira e Adeodato, maniqueísmo, conversão, ministério e o caráter permanente de seu caminho de conversão.


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