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17 set 2026

☀️ Santo do dia: Santa Hildegarda de Bingen

A mulher que enxergava o ser humano inteiro


Uma menina frágil numa família numerosa


Hildegarda nasceu em 1098, na região do Reno, na atual Alemanha, numa família nobre e numerosa. Desde a infância sua saúde foi frágil; Bento XVI observa que ela permaneceria “sempre de saúde delicada”, embora chegasse aos 81 anos. Aos oito anos foi confiada à formação religiosa e, posteriormente, a Jutta de Sponheim, junto ao mosteiro beneditino de Disibodenberg. Ali aprendeu os Salmos, a oração, a liturgia e a Regra de São Bento. A vida monástica ensinava algo que permaneceria central em todo o pensamento de Hildegarda: o ser humano precisa de ordem e equilíbrio. Bento XVI recordará mais tarde que, para ela, a Regra beneditina apresentava precisamente o “equilíbrio espiritual e a moderação ascética como caminhos para a santidade”. A menina fisicamente frágil começava a descobrir uma extraordinária força interior.


Desde criança ela percebia algo diferente


Hildegarda afirmava experimentar desde pequena uma forma incomum de percepção interior. Não descrevia suas visões como sonhos nem como perda de consciência. Continuava desperta e dizia receber uma espécie de iluminação que lhe permitia compreender de maneira profunda as Escrituras e o sentido das coisas. Muitos anos depois escreveu a São Bernardo de Claraval: “A visão arrebata todo o meu ser: não vejo com os olhos do corpo”. E acrescentava que aquilo ardia “como uma chama no meu peito e na minha alma”. Bento XVI comparou essas experiências às dos profetas do Antigo Testamento: Hildegarda contemplava as Escrituras e depois as aplicava às situações concretas de seu tempo. Durante muitos anos, porém, aquela mulher permaneceu praticamente escondida dentro de um mosteiro.


A monja escondida torna-se abadessa


Em 1136, depois da morte de Jutta, as religiosas escolheram Hildegarda para dirigir a comunidade. Tinha aproximadamente 38 anos. Apesar das frequentes enfermidades, revelou uma surpreendente capacidade de governo. Bento XVI destaca nela uma mulher de “cultura e elevada espiritualidade”, competente também nos aspectos concretos da organização do mosteiro. O número de jovens que desejavam juntar-se à comunidade aumentou e, por volta de 1150, Hildegarda transferiu suas religiosas para Rupertsberg, perto de Bingen, fundando um mosteiro independente; mais tarde estabeleceria outro do outro lado do Reno. Cuidava da oração, da formação, da cultura, da liturgia e também do bem-estar material das religiosas. A contemplativa começava a revelar uma personalidade extraordinariamente prática.


“Escreve aquilo que vês”


Por volta dos 42 anos, Hildegarda sentiu que deveria finalmente colocar por escrito aquilo que havia guardado durante tanto tempo. Começou então a ditar suas visões ao monge Volmar, seu conselheiro espiritual, com a colaboração de Richardis von Stade, religiosa muito próxima dela. Nasceu assim o Scivias — “Conhece os caminhos” —, composto por 35 visões sobre a criação, a queda, Cristo, a Igreja e a história da salvação. Hildegarda procurou também o discernimento de São Bernardo de Claraval, que a encorajou. Em 1147, durante o Sínodo de Trier, o papa Eugênio III examinou parte de seus escritos e autorizou-a a continuar escrevendo e a falar. A mulher escondida de Disibodenberg começava a tornar-se conhecida em toda a Europa.


Ela começou a observar também o corpo humano


A inteligência de Hildegarda não se limitava à teologia. Ela observava plantas, árvores, alimentos, animais, minerais e o funcionamento do corpo humano. A vida dos mosteiros proporcionava contato cotidiano com hortas medicinais, enfermarias, alimentação e cuidado dos doentes. Desse ambiente e da cultura médica disponível em seu tempo nasceram escritos sobre natureza e medicina, hoje conhecidos sobretudo como *Physica e Causae et Curae — “Causas e curas”. Bento XVI fez questão de recordar esse aspecto aparentemente surpreendente de uma mística medieval: “Hildegarda ocupou-se de medicina e de ciências naturais”. Ao proclamá-la Doutora da Igreja, voltou a mencionar explicitamente suas obras médicas e científicas.


Antes do remédio, procurar a causa


O próprio título Causae et Curae revela sua maneira de pensar: causas e tratamentos das doenças. Hildegarda procura compreender o que aconteceu antes de simplesmente indicar aquilo que deveria ser usado depois. Escreve sobre digestão, alimentação, sono, sangue, febres, dores, órgãos, sexualidade, saúde feminina e diferentes disposições corporais. Utiliza, naturalmente, os conhecimentos médicos medievais de seu século, inclusive a teoria dos humores e dos quatro elementos. Ao mesmo tempo, observa concretamente o enfermo e sua maneira de viver. Sua medicina possui, por isso, uma visão abrangente: alimentação, ambiente, características individuais, estado interior e hábitos participam da saúde humana. Um estudo acadêmico recente de Causae et Curae descreve justamente essa abordagem como holística, unindo corpo, natureza e a visão cristã do homem.


O homem não é apenas um corpo que adoece


Aqui encontramos uma das ideias mais interessantes de Hildegarda. Para ela, não se podia dividir o ser humano em compartimentos completamente separados. Corpo e alma pertencem à mesma pessoa. O que acontece no corpo pode atingir a vida interior; aquilo que acontece interiormente também pode repercutir na existência corporal. Sua compreensão da saúde estava inserida numa visão ainda maior: o homem faz parte da criação e foi criado para viver em harmonia consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus. Bento XVI percebeu essa unidade em todo o seu pensamento e escreveu que Hildegarda contemplava conjuntamente Deus, o homem e a natureza enquanto criação de Deus, que deve ser apreciada e respeitada.


Os vícios também desorganizam o homem


É aqui que sua medicina encontra sua espiritualidade. Em outra de suas grandes obras, o Liber Vitae Meritorum — Livro dos méritos da vida — Hildegarda coloca frente a frente vícios e virtudes. Bento XVI chama atenção justamente para isso: o ser humano enfrenta diariamente os vícios, “que o afastam do caminho rumo a Deus”, e as virtudes, que o ajudam a caminhar para Ele. Para Hildegarda, o vício não é simplesmente quebrar exteriormente uma regra. É uma força que desordena o homem por dentro. Ira, desespero, orgulho, gula, inveja, luxúria, avareza ou tristeza desordenada modificam a maneira como a pessoa percebe a si mesma, os outros, os bens materiais e até o próprio corpo.


A alma desordenada pode fazer o corpo sofrer


Essa ligação é especialmente interessante. Hildegarda considera o ser humano uma unidade e, por isso, relaciona repetidamente estados interiores, hábitos e condições corporais. Uma pessoa dominada continuamente por excessos, tensões ou paixões desordenadas perde aquela discretio — discernimento e medida — tão importante na tradição beneditina. O corpo pode participar dessa desordem: alimentação excessiva, falta de repouso, agitação, ira prolongada ou comportamentos desregrados produzem consequências concretas na existência corporal. Em sentido inverso, uma enfermidade física também pode abater o ânimo e tornar a luta interior mais difícil. Virtude e saúde não são a mesma coisa, nem doença e pecado são equivalentes; para Hildegarda, porém, a maneira como vivemos participa do equilíbrio global da pessoa. É uma das intuições mais originais de sua antropologia.


A moderação vale mais que destruir o próprio corpo


Essa visão explica também sua insistência na medida. Hildegarda era ascética, mas a tradição beneditina que a formou desconfiava dos excessos que destroem inutilmente as forças físicas. Bento XVI chama atenção justamente para o “equilíbrio espiritual e a moderação ascética” de sua formação. Jejum, disciplina e renúncia possuem sentido quando ordenam a pessoa para Deus; transformar o próprio corpo num inimigo seria perder a unidade da criação. Hildegarda aconselhava alimentação, repouso e utilização equilibrada das coisas criadas. Plantas, alimentos e outros elementos naturais podiam servir ao homem porque a criação possuía uma ordem recebida do Criador. O médico e o enfermeiro deveriam procurar colaborar com essa ordem.


Plantas, alimentos e remédios


Na Physica, Hildegarda descreveu numerosas plantas, árvores, animais e minerais e os usos que a medicina de seu tempo lhes atribuía. Em Causae et Curae, concentrou-se mais diretamente no funcionamento do organismo, nas causas das enfermidades e nos tratamentos. Aparecem ervas, preparados alimentares, banhos e outros procedimentos médicos utilizados na Idade Média. Também dedica atenção incomum ao corpo feminino, à menstruação, à concepção e à sexualidade. Isso torna seus escritos uma fonte histórica extraordinária para conhecermos a medicina monástica do século XII. A religiosa que contemplava a Trindade também observava como alguém digeria um alimento, por que adoecia e como poderia recuperar as forças. Para ela, não havia contradição: o mesmo Deus que salva a alma criou o corpo e as plantas que crescem da terra.


A força verde da vida


Uma palavra tornou-se particularmente associada ao pensamento de Hildegarda: viriditas, literalmente algo como “verdor”, “força verde”, “vigor vital”. Ela observa a terra seca e depois a planta cheia de seiva e utiliza essa realidade também como imagem espiritual. Deus é fonte da vida; aquilo que recebe sua força floresce, enquanto aquilo que perde a vitalidade torna-se árido. Assim, Hildegarda consegue falar com uma mesma imagem da natureza, do corpo e da alma. Uma árvore pode secar; um organismo pode enfraquecer; uma alma também pode tornar-se árida. A vida virtuosa, a oração, a justa medida e a comunhão com Deus fazem o homem recuperar sua fecundidade. Essa linguagem ajuda a entender por que medicina e espiritualidade aparecem tão próximas em seus escritos: ela procurava a vida onde quer que a vida estivesse ameaçada.


Não bastava curar o corpo


Hildegarda percebia que alguns sofrimentos humanos exigiam algo diferente de uma erva ou de uma mudança alimentar. Uma pessoa podia estar fisicamente alimentada e, ao mesmo tempo, interiormente consumida pela ira, pela inveja ou pelo desespero. É precisamente aí que entram as virtudes. No Liber Vitae Meritorum, ela dramatiza vícios e virtudes quase como personagens que discutem entre si. O vício oferece uma maneira falsa de interpretar a vida; a virtude responde reconstruindo o olhar do homem. Por isso, sua ideia de cura ultrapassa o medicamento. Há hábitos do corpo que precisam ser ordenados e hábitos da alma que também precisam ser curados. A verdadeira saúde humana procura recuperar uma harmonia que permita à pessoa viver novamente voltada para o bem e para Deus. Bento XVI percebeu nessa luta cotidiana entre vícios e virtudes um dos centros de sua mensagem espiritual.


Uma mulher procurada por toda parte


Sua fama cresceu enormemente. Cerca de quatrocentas cartas chegaram até nós. Escreviam-lhe religiosas, monges, abades, bispos, papas, autoridades políticas e pessoas que buscavam orientação. Hildegarda respondia sobre vida espiritual, problemas eclesiais e situações concretas. Não tinha medo de corrigir. Ao imperador Frederico Barbarossa, que apoiou antipapas contra Alexandre III, dirigiu palavras severas, lembrando-lhe que também o imperador estava submetido ao julgamento de Deus. Aos religiosos pedia uma vida coerente. Bento XVI reproduziu um conselho seu especialmente bonito: “A vida espiritual deve ser cuidada com muita dedicação.” A mulher que procurava as causas das doenças do corpo procurava também as causas das enfermidades da vida cristã.


Ela transformava teologia em música


Hildegarda também compôs hinos, antífonas e cânticos, reunidos na Symphonia Harmoniae Caelestium Revelationum. Suas músicas sobreviveram e ainda hoje podem ser executadas. Bento XVI enxergou nelas outra manifestação de sua visão unitária: para Hildegarda, “toda a criação é uma sinfonia do Espírito Santo”. A palavra é muito significativa. Saúde, para ela, tem algo de harmonia; virtude significa colocar novamente em ordem forças que os vícios desorganizam; a criação possui uma ordem; a comunidade precisa encontrar sua unidade; e a música transforma vozes diferentes numa única harmonia. Aquela mulher escrevia sobre plantas e doenças pela mesma razão profunda pela qual escrevia música e teologia: procurava reconhecer a ordem de Deus presente na criação.


Já idosa, saiu pelas estradas para pregar


A parte final de sua vida é surpreendente. Hildegarda havia passado décadas dentro dos muros de mosteiros e possuía uma saúde constantemente frágil. Mesmo assim, já idosa, começou a realizar viagens de pregação. Percorreu cidades da região do Reno e falou publicamente em lugares como Colônia, Trier, Mainz, Metz, Bamberg e Würzburg. Bento XVI destaca como isso era incomum para uma mulher daquela época. As viagens medievais eram lentas, desconfortáveis e fisicamente exigentes; Hildegarda já estava avançada em idade. Pregava ao clero, às comunidades religiosas e ao povo, exigindo conversão e reforma da Igreja. Sua mensagem era coerente com tudo aquilo que havia escrito: a renovação começa quando o homem deixa o vício e volta concretamente para o bem.


A reforma começa dentro do homem


Hildegarda viveu numa Igreja ferida por disputas políticas, pecados do clero e movimentos heréticos. Combateu especialmente os cátaros, que apresentavam uma reforma radical. Sua resposta era muito diferente. Bento XVI sintetizou-a de maneira extraordinária: “uma verdadeira renovação da comunidade eclesial não se obtém tanto com a mudança das estruturas, quanto com um sincero espírito de penitência e um caminho concreto de conversão.” É novamente a mesma lógica de sua visão do homem. Diante de uma doença, procure a causa. Diante de uma vida desordenada, procure aquilo que a está desordenando. Diante de uma Igreja ferida, não basta modificar exteriormente as estruturas: é preciso que as pessoas sejam transformadas.


A mulher frágil chegou aos 81 anos


No verão de 1179, Hildegarda adoeceu gravemente. Morreu no mosteiro de Rupertsberg em 17 de setembro de 1179, cercada por suas religiosas. Tinha 81 anos — uma idade extraordinária para aquela época, sobretudo para alguém que desde pequena sofrera repetidamente com a saúde. Deixava três grandes obras visionárias, tratados sobre natureza e medicina, músicas, sermões e aproximadamente quatrocentas cartas. Bento XVI observa que, pela quantidade, qualidade e variedade, o conjunto de seus escritos não encontra paralelo entre as autoras medievais. A menina frágil colocada num mosteiro aos oito anos havia terminado aconselhando papas e imperadores, pregando em catedrais e deixando obras estudadas oito séculos depois.


Uma médica da unidade do homem


Em 2012, Bento XVI proclamou Hildegarda Doutora da Igreja Universal e chamou atenção para a extraordinária harmonia existente entre seu ensinamento e sua vida. Talvez seja justamente “harmonia” a melhor palavra para compreender toda a sua existência. Hildegarda contemplava o homem como uma unidade: corpo, afetos, inteligência, vontade, relações, natureza e vida espiritual. A doença física exigia cuidado físico; os vícios exigiam conversão; a alma precisava de oração; o corpo precisava de medida; e toda a pessoa precisava reencontrar sua orientação para Deus.


Por isso sua reflexão sobre vícios e doenças continua tão provocadora. Hildegarda não reduz a enfermidade a uma culpa moral. Sua pergunta é mais profunda: como estamos vivendo? O que estamos alimentando diariamente dentro de nós? Aquilo que repetimos está nos tornando mais livres ou mais escravos? Está criando harmonia ou desordem? O vício, repetido durante anos, pode adoecer a maneira de desejar, pensar, relacionar-se e cuidar do próprio corpo; a virtude começa a reorganizar essas forças em direção ao bem.


A mulher que conhecia ervas medicinais sabia que uma planta precisava de condições adequadas para conservar seu verdor. E enxergava algo semelhante no ser humano: também nós podemos perder vigor, tornar-nos interiormente áridos e precisar recuperar a fonte da vida.


Talvez por isso João Paulo II a tenha chamado de “luz para o seu povo e para o seu tempo”, expressão retomada por Bento XVI ao proclamá-la Doutora da Igreja. Hildegarda passou a vida procurando essa luz na Bíblia, na oração, no corpo enfermo, nas plantas, na música, na luta entre vícios e virtudes e em toda a criação. Para ela, tudo terminava apontando para a mesma fonte:


Deus, de quem procede a vida.


Fontes principais: Bento XVI, Audiências Gerais de 1º e 8 de setembro de 2010; Bento XVI, Carta Apostólica que proclama Santa Hildegarda Doutora da Igreja, 7 de outubro de 2012; Hildegarda de Bingen, Scivias, Liber Vitae Meritorum, Liber Divinorum Operum, Physica e Causae et Curae; para o contexto médico de Causae et Curae, Laura Kalas, The Palgrave Encyclopedia of Medieval Women’s Writing in the Global Middle Ages (2026). Os tratamentos concretos de Hildegarda pertencem à medicina medieval; seu valor histórico e antropológico não significa que suas receitas devam substituir a medicina atual.


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