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20 ott 2026

☀️ Santo do dia: SANTA BERTILLA, 

Anna Francesca: a menina que todos consideravam incapaz


Santa Maria Bertilla Boscardin nasceu em 6 de outubro de 1888, em Gioia di Brendola, perto de Vicenza, no norte da Itália. Seu nome de batismo era Anna Francesca Boscardin. Sua família vivia do trabalho agrícola e possuía poucos recursos. Desde pequena, Anna ajudava nas tarefas domésticas e no campo. Sua infância também foi marcada por dificuldades familiares: as biografias registram o comportamento duro do pai, Angelo, que tinha problemas com a bebida.

Anna não teve uma formação escolar extensa. Era uma menina tímida, de aprendizado lento, que frequentemente recebia julgamentos pouco generosos sobre sua inteligência. Alguns a consideravam incapaz de realizar tarefas mais exigentes. Entretanto, gostava muito de estudar o catecismo que recebera do pároco. Guardava aquele pequeno livro com carinho, lia-o repetidamente e procurava explicar às outras meninas aquilo que aprendia.

Quando manifestou o desejo de tornar-se religiosa, encontrou resistência. Até o pároco tinha dúvidas sobre sua capacidade de acompanhar a vida comunitária. Anna, porém, não desistiu. Em 8 de abril de 1905, aos dezesseis anos, ingressou no Instituto das Irmãs Mestras de Santa Doroteia, Filhas dos Sagrados Corações, em Vicenza. Em outubro daquele ano, iniciou o noviciado e recebeu o nome de Maria Bertilla.

Segundo a tradição biográfica, reconhecendo suas próprias limitações, apresentou-se à responsável pela formação com uma frase que revela sua simplicidade: “Não sei fazer nada. Sou uma pobre criatura. Ensine-me. Quero tornar-me santa.” A formulação dessa declaração aparece em diferentes versões nas biografias, mas exprime a maneira como era recordada pelas religiosas que conviveram com ela.


2. Da cozinha às enfermarias: a religiosa que aprendeu a cuidar dos doentes


No convento, Maria Bertilla recebeu inicialmente trabalhos domésticos. Passava longas horas na cozinha, na limpeza e em outras tarefas necessárias à comunidade. Não era considerada uma religiosa especialmente preparada para estudos ou grandes responsabilidades.

Depois da profissão religiosa, realizada em 8 de dezembro de 1907, foi enviada ao hospital de Treviso, onde sua congregação prestava serviços. Inicialmente continuou trabalhando na cozinha. Entretanto, pouco a pouco, passou a receber tarefas ligadas diretamente ao cuidado dos enfermos.

Bertilla decidiu estudar enfermagem. Para uma jovem que havia sido considerada pouco inteligente e que não possuía uma formação escolar sólida, essa decisão representava um desafio. Estudou, aprendeu os procedimentos necessários e conseguiu preparar-se para o trabalho hospitalar.

Uma de suas principais responsabilidades foi o cuidado de crianças com doenças contagiosas, especialmente a difteria, enfermidade que, antes da ampla disponibilidade de tratamentos modernos, podia provocar a morte por obstrução das vias respiratórias e outras complicações graves.

Naquelas enfermarias, o trabalho não tinha nada de romântico. Era necessário lavar os pacientes, trocar roupas, limpar ambientes, acompanhar febres, administrar os cuidados prescritos e permanecer atento às crianças que pioravam rapidamente. O risco de contágio fazia parte da rotina.

A religiosa que tantas pessoas haviam considerado incapaz tornou-se uma presença apreciada pelos pacientes. As fontes de sua congregação destacam sua atenção aos detalhes, sua capacidade de trabalhar silenciosamente e sua disponibilidade para atender às necessidades dos enfermos.


3. A Primeira Guerra Mundial: o hospital se tornou um lugar de perigo


Em 1915, a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial. Treviso ficava relativamente próxima das regiões onde se desenvolviam as operações militares contra o Império Austro-Húngaro. Os hospitais passaram a receber feridos, soldados doentes e numerosas pessoas atingidas pelas consequências do conflito.

A situação agravou-se dramaticamente em outubro de 1917, depois da derrota italiana na batalha de Caporetto. O exército italiano precisou recuar, e a região do Vêneto tornou-se uma área estratégica. Treviso passou a sofrer ataques aéreos, enquanto as autoridades reorganizavam os hospitais e procuravam retirar os pacientes das zonas mais perigosas.

Maria Bertilla estava entre as religiosas que cuidavam dos enfermos naquele período. As enfermarias precisavam continuar funcionando, mesmo quando o medo dos bombardeios se espalhava pela cidade. Alguns pacientes podiam ser transferidos; outros estavam debilitados demais para suportar uma evacuação imediata.

As biografias registram sua dedicação especial aos enfermos que não podiam ser removidos facilmente. Enquanto o hospital enfrentava as exigências da guerra, Bertilla continuava realizando os cuidados necessários, inclusive nas circunstâncias mais perigosas.

Não era apenas o risco das bombas. Havia também a falta de tranquilidade, a sobrecarga de trabalho, as mudanças de organização e a convivência diária com o sofrimento. Feridos chegavam ao hospital depois de combates terríveis. Outros pacientes precisavam de assistência prolongada. As crianças doentes continuavam necessitando de atenção, independentemente da guerra.

Foi nesse ambiente que Maria Bertilla viveu alguns dos anos mais intensos de sua breve existência.


4. A incompreensão: a enfermeira foi mandada para a lavanderia


Durante a guerra, parte das atividades hospitalares foi transferida para localidades mais afastadas das operações militares. Maria Bertilla acompanhou esse deslocamento, trabalhando também na Lombardia, em lugares como Brianza e Viggiù.

Nesse período, enfrentou conflitos com alguns médicos e com uma superiora religiosa. As fontes registram que sua maneira de trabalhar não foi compreendida por todos. Embora fosse estimada por muitos doentes, acabou afastada da assistência direta e recebeu a ordem de trabalhar na lavanderia.

A mudança foi especialmente dolorosa porque, depois de anos de experiência, ela havia desenvolvido competência no cuidado dos enfermos. Agora precisava deixar as enfermarias e retornar a uma atividade semelhante àquela que desempenhara no início da vida religiosa.

As biografias relatam que permaneceu alguns meses nessa função. Posteriormente, por decisão de uma autoridade superior da congregação, voltou a trabalhar no cuidado dos doentes, particularmente das crianças que necessitavam de isolamento.

Esse episódio é importante porque mostra que sua vida religiosa não transcorreu num ambiente sem conflitos. Maria Bertilla conheceu a experiência de ser subestimada, de ter sua competência questionada e de perder temporariamente o trabalho ao qual se dedicava.


5. A enfermeira também estava gravemente doente


Enquanto cuidava dos outros, Maria Bertilla enfrentava sua própria enfermidade. Por volta dos 22 anos, foi diagnosticada com um tumor e precisou submeter-se a uma intervenção cirúrgica. A doença, entretanto, não desapareceu definitivamente.

Durante os anos seguintes, continuou trabalhando, apesar das limitações físicas e do sofrimento. As informações biográficas indicam que a enfermidade se agravou progressivamente, até tornar necessária uma nova operação.

Após o fim da guerra, retornou ao hospital de Treviso e retomou a assistência aos pacientes. Entretanto, sua saúde estava cada vez mais comprometida. Em 1922, a evolução da doença tornou-se irreversível.

Maria Bertilla morreu em 20 de outubro de 1922, em Treviso, apenas duas semanas depois de completar 34 anos.

A documentação divulgada pelo Estado da Cidade do Vaticano conserva uma frase atribuída às suas últimas palavras, dirigidas à superiora:

“Diga às irmãs que trabalhem somente pelo Senhor, que tudo é nada, tudo é nada... somente Jesus... Jesus.”

Aquela mulher que havia passado tantos anos trabalhando entre os enfermos morreu também como paciente, depois de uma longa experiência de sofrimento físico.


6. As palavras de Maria Bertilla: aquilo que ela escreveu sobre a própria vida


Além dos testemunhos de quem a conheceu, foram conservadas algumas expressões atribuídas à própria Maria Bertilla. Elas ajudam a compreender suas convicções sem precisar acrescentar interpretações posteriores.

Ao terminar um retiro espiritual, em 1914, escreveu um breve programa de vida:

“Jesus como modelo, Deus como fim, Maria como apoio, eu como oferta.”

A frase foi conservada na documentação biográfica publicada pelo Estado da Cidade do Vaticano.

Sua própria congregação também conserva estas palavras, em italiano:

“Gesù è il mio Maestro, il mio aiuto, il mio sostegno, il mio tutto... è il mio Modello da seguire se voglio farmi santa.”

Em português:

“Jesus é meu Mestre, minha ajuda, meu sustento, meu tudo... É o modelo que devo seguir se quero tornar-me santa.”

Outro testemunho de sua espiritualidade aparece na expressão:

“Em Jesus encontro a minha força.”

Essas frases pertencem ao contexto de uma vida marcada pelo trabalho hospitalar, pelas dificuldades comunitárias, pela guerra e pela doença. Não são discursos preparados para grandes assembleias, mas expressões breves de uma religiosa que deixou poucos escritos conhecidos.


7. A morte, a canonização e a memória de uma enfermeira


Depois de sua morte, a lembrança de Maria Bertilla permaneceu viva entre as religiosas e as pessoas que haviam conhecido seu trabalho. Sua reputação de santidade levou à abertura do processo eclesiástico para examinar sua vida.

Em 8 de junho de 1952, foi beatificada pelo Papa Pio XII. Nove anos depois, em 11 de maio de 1961, o Papa São João XXIII a canonizou, reconhecendo oficialmente seu culto em toda a Igreja.

Na documentação da canonização, destaca-se especialmente sua vida humilde, sua dedicação aos enfermos e a maneira como exerceu a caridade nas tarefas cotidianas.

Seu corpo é venerado em Vicenza, na capela dedicada a ela junto à congregação das Irmãs Mestras de Santa Doroteia.

Santa Maria Bertilla Boscardin é celebrada em 20 de outubro, aniversário de sua morte. Sua história permaneceu ligada especialmente à enfermagem, ao atendimento das crianças doentes e ao serviço hospitalar durante a Primeira Guerra Mundial.



REFERÊNCIAS HISTÓRICAS E DOCUMENTAIS


  1. Dicastério das Causas dos Santos — Santa Maria Bertilla Boscardin. Biografia oficial, datas da beatificação e canonização e documentação pontifícia. https://www.causesanti.va/it/santi-e-beati/maria-bertilla-boscardin.html

  2. Estado da Cidade do Vaticano — “20 de outubro: Santa Maria Bertilla Boscardin”. Biografia, programa espiritual de 1914 e palavras atribuídas aos seus últimos momentos. https://www.vaticanstate.va

  3. Vatican News — “Santa Maria Bertilla Boscardin, vergine, di Vicenza”. Informações sobre a formação, o trabalho hospitalar, a guerra e os conflitos com superiores. https://www.vaticannews.va/it/santo-del-giorno/10/20/santa-maria-bertilla-boscardin--vergine--di-vicenza.html

  4. Suore Maestre di Santa Dorotea, Figlie dei Sacri Cuori — “Santa Bertilla”. Documentação da congregação à qual pertenceu, com dados biográficos e palavras da santa. https://sdvi.org/congregazione/s-bertilla/

  5. João XXIII. Homilia na canonização de Santa Maria Bertilla Boscardin, 11 de maio de 1961, publicada na documentação da Santa Sé.

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