
23 set 2026
☀️ Santo do dia: São Pio de Pietrelcina
o pobre frade que rezava, confessava e carregava a Paixão de Cristo
Um menino entre os campos de Pietrelcina
Francesco Forgione nasceu em 25 de maio de 1887, em Pietrelcina, pequena cidade da província de Benevento, no sul da Itália, e foi batizado no dia seguinte. Seus pais, Grazio Mario Forgione e Maria Giuseppa De Nunzio, conhecida como Mamma Peppa, eram camponeses. Francesco cresceu num ambiente simples, marcado pelo trabalho nos campos, pela vida familiar e por uma profunda religiosidade. Aos doze anos recebeu a Primeira Comunhão e a Crisma. Desde muito jovem desejava consagrar-se a Deus, mas para entrar na vida religiosa precisava estudar, e isso exigiu grande esforço de uma família de poucos recursos. Seu pai chegou a emigrar em busca de trabalho para conseguir sustentar os estudos do filho. Em 6 de janeiro de 1903, Francesco, com apenas quinze anos, entrou no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos, em Morcone. No dia 22 recebeu o hábito franciscano e um novo nome: Frei Pio. Começava uma existência feita de oração, estudo, silêncio, trabalho, pobreza e obediência. Em 27 de janeiro de 1907, fez a profissão solene. Sua saúde era frágil e seria assim durante praticamente toda a vida. Febres, problemas digestivos e outros sintomas obrigaram-no a passar longos períodos em Pietrelcina. Mesmo assim, continuou sua preparação para o sacerdócio.
Um sacerdote de 23 anos
Em 10 de agosto de 1910, na Catedral de Benevento, Frei Pio foi ordenado sacerdote. Tinha apenas 23 anos. Quatro dias depois celebrou solenemente sua primeira Missa em Pietrelcina. A Eucaristia tornar-se-ia o centro de toda a sua existência. Durante alguns anos, por causa de sua saúde, alternou períodos em conventos e na casa da família. A situação mudou em 4 de setembro de 1916, quando chegou ao convento capuchinho de San Giovanni Rotondo, na região montanhosa do Gargano. Tinha 29 anos. Junto ao pequeno convento encontrava-se a igreja de Santa Maria delle Grazie. A transferência parecia apenas mais uma etapa de sua vida, mas Padre Pio permaneceria naquele lugar por aproximadamente 52 anos, até sua morte. Ali sua existência adquiriu uma forma que praticamente nunca mais mudaria: Missa, oração, Rosário, confissões, direção espiritual, correspondência, sofrimento e acolhimento de uma quantidade cada vez maior de pessoas.
20 de setembro de 1918
Na manhã de 20 de setembro de 1918, Padre Pio tinha 31 anos. Depois de celebrar a Missa, permaneceu rezando no coro da pequena igreja, diante de um Crucifixo. O próprio Padre Pio descreveu o que aconteceu numa carta enviada, em 22 de outubro, ao seu diretor espiritual, Padre Benedetto da San Marco in Lamis. Durante a oração entrou num profundo estado de recolhimento e percebeu diante de si uma misteriosa personagem cujas mãos, pés e lado derramavam sangue. Terminada aquela experiência, descobriu que suas próprias mãos, seus pés e seu lado estavam feridos e sangravam. Começavam os estigmas visíveis que marcariam seu corpo durante aproximadamente cinquenta anos. Os superiores passaram a acompanhar cuidadosamente o fenômeno. Médicos foram chamados para examinar as feridas, entre eles Luigi Romanelli, médico-chefe do hospital de Barletta, Amico Bignami, professor de patologia da Universidade de Roma, e Giorgio Festa. Cartas do próprio Padre Pio, testemunhos dos religiosos, observações médicas e investigações eclesiásticas formaram ao longo dos anos uma extensa documentação sobre as chagas. A notícia começou a espalhar-se e pessoas de diversos lugares passaram a subir até San Giovanni Rotondo. Muitos chegavam atraídos pelos estigmas, mas acabavam ajoelhados diante de Padre Pio para fazer algo muito mais simples: confessar seus pecados.
Quinze horas por dia ouvindo confissões
O confessionário tornou-se uma das grandes missões de sua vida. Nos anos de maior intensidade de seu ministério, especialmente entre 1918 e 1923, Padre Pio podia dedicar quinze horas ou mais por dia às confissões. Uma de suas cartas fala de uma jornada na qual completara dezenove horas de trabalho. Décadas mais tarde, já envelhecido e fisicamente debilitado, ainda podia permanecer aproximadamente oito horas por dia atendendo penitentes. As multidões tornaram necessária uma organização para distribuir turnos e controlar as filas. Homens e mulheres viajavam centenas de quilômetros e permaneciam em San Giovanni Rotondo esperando sua vez. Um dado de 1962 permite compreender as dimensões desse apostolado: naquele ano foram registradas 83.035 mulheres e 19.837 homens que procuraram a confissão com Padre Pio, mais de 102 mil inscrições. Ele já tinha 75 anos. Em 1967, aos oitenta anos, ainda confessou aproximadamente 25 mil pessoas, cerca de setenta por dia ao longo do ano. Durante décadas repetiu a mesma rotina: uma pessoa saía, outra entrava, ajoelhava-se e começava a contar sua vida.
Padre Pio podia ser muito direto. Muitas confissões duravam poucos minutos. Perguntava, corrigia, exortava, indicava a penitência e dava a absolvição. Quando percebia que a pessoa precisava de uma verdadeira mudança de vida, exigia sinceridade. Alguns penitentes voltavam depois de uma correção severa e encontravam novamente o sacerdote esperando por eles. Por trás daquela firmeza estava sua convicção de que o pecado escraviza o homem e de que a misericórdia de Cristo pode realmente libertá-lo. Milhares de pessoas encontraram naquele confessionário a possibilidade de recomeçar. Assim, o frade que o mundo conhecia por causa das feridas nas mãos passou grande parte de sua vida escutando as feridas escondidas no coração dos outros.
O conhecimento das consciências
Numerosos testemunhos ligados ao confessionário atribuem a Padre Pio aquilo que a tradição espiritual chama de escrutação dos corações ou conhecimento das consciências. Penitentes relatavam que ele lhes recordava pecados esquecidos, fazia perguntas sobre acontecimentos que ainda não lhe haviam contado ou percebia disposições interiores da pessoa. Esse fenômeno foi tratado também durante as investigações eclesiásticas. Em 16 de junho de 1921, Padre Pio foi interrogado sob juramento por Dom Raffaello Carlo Rossi, enviado como Visitador Apostólico. Rossi perguntou-lhe diretamente sobre a escrutação dos corações que lhe era atribuída. Padre Pio respondeu que algumas vezes lhe acontecera possuir interiormente clareza sobre “algum defeito ou pecado ou virtude” de outra pessoa. As atas desse interrogatório constituem uma das fontes históricas mais preciosas para conhecer sua experiência, porque conservam as próprias respostas do frade, então com apenas 34 anos.
No confessionário, esse dom estava inteiramente orientado para a conversão. Diversos penitentes testemunharam ter começado a enumerar seus pecados e, ao hesitarem ou esquecerem alguma coisa importante, terem ouvido Padre Pio indicar precisamente aquilo que faltava. Os religiosos que viveram junto dele também conservaram relatos semelhantes. O objetivo permanecia sempre o mesmo: levar a pessoa a colocar sua vida inteira diante de Deus, reconhecer o pecado, receber o perdão e começar de novo. Para Padre Pio, conhecer o coração de alguém significava poder ajudá-lo a encontrar a misericórdia de Cristo.
Seu Anjo da Guarda
Outro aspecto extraordinariamente bem documentado de sua espiritualidade é a relação com o Anjo da Guarda, porque o próprio Padre Pio fala repetidamente sobre isso em suas cartas. Para ele, o Anjo não era apenas uma verdade aprendida no catecismo, mas uma presença pessoal e cotidiana. Chamava-o carinhosamente de seu “angiolino”, seu “anjinho”. Em cartas de 1912, quando tinha apenas 25 anos e ainda estava muito longe da fama mundial que adquiriria posteriormente, descreve o Anjo como companheiro nas lutas espirituais, consolador e auxílio na oração.
Uma carta de 5 de novembro de 1912 conserva uma cena particularmente impressionante pela familiaridade com que Padre Pio fala dessa relação. Durante uma dura provação espiritual, chamou seu Anjo e esperou por sua ajuda. Quando finalmente percebeu sua presença, Padre Pio ficou indignado com a demora e escreveu ao Padre Agostino que havia repreendido severamente seu Anjo da Guarda por tê-lo feito esperar tanto. O Anjo aproximou-se novamente, e Padre Pio acabou contemplando seu rosto. O episódio revela como o jovem capuchinho experimentava o mundo espiritual: com uma proximidade quase familiar.
O Anjo que lhe explicava outras línguas
Há também um fato curioso conservado na correspondência com seu diretor espiritual, Padre Agostino da San Marco in Lamis. Padre Pio possuía uma formação limitada em línguas estrangeiras e, no entanto, conseguia compreender determinadas correspondências recebidas em francês e até em grego. Em 3 de fevereiro de 1912, Padre Agostino perguntou-lhe diretamente quem lhe havia ensinado francês. Meses depois, em 20 de setembro de 1912, Padre Pio escreveu que a missão de seu Anjo da Guarda devia ser muito grande, pois precisava também servir-lhe de mestre na explicação de outras línguas. Padre Agostino registrou em seu diário que Padre Pio não sabia grego nem francês e atribuía ao Anjo a compreensão desses textos.
Padre Pio ensinava seus filhos espirituais a viverem também essa amizade com o próprio Anjo da Guarda. Recomendava que o invocassem nas dificuldades, agradecessem sua presença e recorressem a ele nas tentações. Em outra carta, de 13 de dezembro de 1912, narrou como seu “bom anjinho” o ajudara a reconhecer um engano espiritual. O Anjo, para Padre Pio, era um companheiro dado por Deus para conduzir a pessoa até Ele.
Os relatos de bilocação
Entre os fenômenos extraordinários associados a Padre Pio encontram-se também numerosos testemunhos de bilocação, isto é, experiências nas quais pessoas afirmavam perceber sua presença em lugares distantes enquanto ele permanecia fisicamente em outro lugar. Esses relatos tornaram-se especialmente impressionantes depois de 1916, porque Padre Pio passou praticamente o restante de sua vida dentro de San Giovanni Rotondo. Ainda assim, pessoas provenientes de lugares distantes narraram ter recebido uma visita, uma advertência, um conforto ou uma ajuda atribuída a ele.
Nos relatos conservados por seus filhos espirituais, a bilocação aparece sempre ligada a uma finalidade concreta: socorrer alguém, chamar uma pessoa à conversão, confortar um enfermo ou oferecer assistência espiritual. Esse aspecto se harmoniza com aquilo que encontramos em todos os outros dons atribuídos ao santo. O extraordinário nunca constituía para ele um espetáculo separado de sua vocação sacerdotal. O conhecimento de uma consciência conduzia à confissão; a experiência do Anjo conduzia à oração; a bilocação era relatada como serviço a alguém necessitado; os estigmas remetiam à Paixão de Cristo.
A Igreja examina o jovem frade
A extraordinária fama alcançada por Padre Pio levou a Igreja a estudar atentamente sua vida. Uma das investigações mais importantes ocorreu em 1921, quando Dom Raffaello Carlo Rossi, bispo de Volterra e futuro cardeal, foi enviado a San Giovanni Rotondo como Visitador Apostólico. Durante vários dias examinou o frade, interrogou testemunhas, observou as feridas e fez perguntas detalhadas. Padre Pio respondeu sob juramento. Essas atas conservam informações preciosas sobre os estigmas, sua vida espiritual e o conhecimento das consciências.
Nos anos seguintes, a Igreja estabeleceu também medidas disciplinares em torno de sua atividade pública. A fase mais dura começou em 1931, quando Padre Pio teve seu ministério fortemente limitado: deixou de ouvir confissões e passou a celebrar a Missa reservadamente dentro do convento. Para um sacerdote cuja existência girava ao redor do altar e do confessionário, foi uma prova enorme. Quando recebeu as determinações, sua resposta, registrada pelos confrades, foi simplesmente: “Seja feita a vontade de Deus.” Retirou-se para rezar e cumpriu as determinações recebidas. Em 1933, retomou progressivamente o ministério público. As multidões voltaram e novamente começaram as longas jornadas de confissão.
A Missa era o centro
Se o confessionário ocupava grande parte do dia, o verdadeiro centro da vida de Padre Pio era a Eucaristia. Celebrava a Missa com profundo recolhimento e compreendia o altar em íntima ligação com o Calvário. Para ele, a Paixão de Cristo não era apenas um acontecimento distante do passado: o sacerdote era chamado a unir-se ao sacrifício de Jesus. Por isso a celebração podia prolongar-se e era acompanhada por intensos momentos de oração. Os fiéis começaram a chegar muito cedo para conseguir entrar na pequena igreja. Diante deles estava aquele capuchinho de barba espessa, com as mãos marcadas pelos estigmas, segurando a Hóstia e o cálice.
Anos depois, São Paulo VI, procurando explicar a extraordinária influência de Padre Pio, apontaria precisamente para essas realidades concretas: celebrava a Missa com humildade, confessava continuamente e carregava os estigmas de Cristo. A fama nascera em torno das chagas, mas a vida de Padre Pio permanecia concentrada na Eucaristia, na Reconciliação e na oração.
Um homem marcado pelo sofrimento constrói um hospital
Padre Pio conhecia a enfermidade no próprio corpo desde a juventude. Além disso, recebia continuamente cartas de famílias que pediam orações por pessoas doentes. Dessa convivência com o sofrimento nasceu uma ideia extremamente concreta: construir em San Giovanni Rotondo um grande hospital. O projeto começou a tomar forma em 1940. A Segunda Guerra Mundial retardou sua realização, mas, terminado o conflito, a iniciativa recomeçou. Em 16 de maio de 1947, foi colocada a primeira pedra.
Padre Pio escolheu um nome que resumia todo o projeto: Casa Sollievo della Sofferenza — Casa Alívio do Sofrimento. Ele queria unir a caridade cristã à melhor assistência médica possível. Médicos, enfermeiros, equipamentos, salas cirúrgicas, laboratórios e assistência espiritual deveriam trabalhar juntos em favor da pessoa enferma. A Casa foi inaugurada em 5 de maio de 1956, inicialmente com cerca de 300 leitos. Continuou crescendo e, quando Padre Pio morreu, doze anos depois, possuía aproximadamente 600 leitos, além de novos setores e especialidades médicas. O homem conhecido por suas chagas havia transformado a compaixão pelos que sofriam em paredes, enfermarias, camas, médicos e enfermeiros. Suas mãos feridas ajudaram a construir uma casa destinada a cuidar das feridas dos outros.
Uma rede de pessoas que rezavam
Ao redor de Padre Pio desenvolveram-se também os Grupos de Oração, especialmente a partir da década de 1940. Leigos reuniam-se para rezar, participar da Eucaristia e exercer a caridade. Era uma extensão daquilo que ele próprio vivia. Padre Pio rezava continuamente. O Rosário acompanhava seus dias; rezava no coro, na cela, entre os atendimentos e durante seus deslocamentos pelo convento. Sua definição de si mesmo era surpreendentemente simples: “Quero ser apenas um pobre frade que reza.”
A frase permite compreender a unidade de sua vida. O homem dos estigmas era um homem de oração. O confessor de milhares de pessoas era um homem de oração. O fundador de um hospital era um homem de oração. Sua atividade nascia de uma relação contínua com Deus.
Um jovem sacerdote chamado Karol Wojtyła
Em 1948, um jovem sacerdote polonês que estudava em Roma chegou a San Giovanni Rotondo. Chamava-se Karol Wojtyła e tinha 28 anos. Encontrou Padre Pio e confessou-se com ele. Anos depois, já bispo na Polônia, Wojtyła voltaria a escrever ao capuchinho pedindo suas orações. O jovem sacerdote polonês tornar-se-ia o Papa João Paulo II e desempenharia um papel decisivo no reconhecimento eclesial da santidade daquele frade que conhecera pessoalmente.
Enquanto isso, Padre Pio envelhecia. Seu corpo tornava-se cada vez mais fraco. Em 1966, recebeu permissão para celebrar a Missa sentado e posteriormente passou a utilizar cadeira de rodas. Mesmo assim, continuava confessando. Os números de 1967 são particularmente eloquentes: aos 80 anos, Padre Pio ainda confessou aproximadamente 25 mil pessoas naquele ano. O corpo estava exausto; sua missão continuava.
Cinquenta anos com as chagas
Em setembro de 1968, aproximava-se uma data impressionante. No dia 20 de setembro, completavam-se exatamente cinquenta anos desde a manhã de 1918 em que Padre Pio recebera os estigmas visíveis. Ele tinha então 81 anos e encontrava-se muito debilitado. Dois dias depois, em 22 de setembro, celebrou sua última Missa. Precisou ser auxiliado. Era o fim de uma existência sacerdotal iniciada 58 anos antes, quando aquele jovem de 23 anos havia celebrado sua primeira Missa em Pietrelcina.
Na madrugada de 23 de setembro de 1968, os confrades permaneceram ao seu lado. Padre Pio repetia suavemente dois nomes: “Jesus... Maria...”. Morreu por volta das 2h30. Depois de sua morte, durante a preparação de seu corpo, constatou-se que as feridas dos estigmas haviam desaparecido, deixando a pele sem as lesões abertas que o haviam acompanhado durante décadas. San Giovanni Rotondo encheu-se de pessoas. O pequeno convento ao qual chegara quase desconhecido em 1916 tornara-se um lugar conhecido em todo o mundo.
Da pequena Pietrelcina à Praça de São Pedro
A Igreja iniciou um longo estudo de sua vida, de seus escritos, de suas virtudes e dos testemunhos recolhidos ao longo de décadas. Em 29 de novembro de 1982, a Santa Sé concedeu o nihil obstat para a introdução da causa. O processo diocesano realizou-se entre 1983 e 1990. Em 2 de maio de 1999, João Paulo II proclamou Padre Pio Beato diante de uma multidão imensa.
Três anos depois, em 16 de junho de 2002, a Praça de São Pedro voltou a encher-se. O Papa que, ainda jovem sacerdote, havia viajado a San Giovanni Rotondo para encontrar Padre Pio pronunciou solenemente sua canonização. Francesco Forgione, o filho de camponeses nascido em Pietrelcina, foi inscrito entre os santos da Igreja com o nome de São Pio de Pietrelcina. Sua memória litúrgica foi estabelecida em 23 de setembro, dia de sua morte.
O pobre frade que rezava
Os acontecimentos extraordinários acompanharam grande parte da vida de Padre Pio. Durante cerca de cinquenta anos carregou os estigmas. Sob juramento, declarou ter experimentado algumas vezes o conhecimento interior de pecados, defeitos ou virtudes de outras pessoas. Suas cartas testemunham sua relação profundamente familiar com o Anjo da Guarda. Numerosos testemunhos ligados à sua vida relatam experiências de bilocação. Tudo isso, porém, convergia para uma realidade muito concreta: conduzir as pessoas a Deus.
Basta olhar para seus dias. Durante alguns períodos passou quinze horas ou mais no confessionário; uma carta registra uma jornada de dezenove horas de trabalho. Décadas depois ainda permanecia horas atendendo penitentes. Em 1962, mais de cem mil pessoas se inscreveram para confessar-se com ele. Aos oitenta anos ainda ouviu aproximadamente vinte e cinco mil confissões em um único ano. Depois havia a Missa, o Rosário, as cartas, os enfermos, os filhos espirituais e as pessoas que pediam oração. No dia seguinte, tudo recomeçava.
Talvez suas próprias mãos resumam toda a sua existência. Em 20 de setembro de 1918, apareceram feridas. Durante cinquenta anos, multidões quiseram olhar para elas. Mas aquelas mãos fizeram muito mais do que mostrar as chagas. Seguraram diariamente a Hóstia, levantaram-se milhares de vezes para absolver pecadores, deslizaram incontáveis contas do Rosário, escreveram cartas de direção espiritual e ajudaram a construir um hospital para os enfermos. O homem que carregava em seu corpo os sinais da Paixão empregou a própria vida para aliviar a paixão dos outros.
No fim, sua frase mais simples talvez seja também a melhor definição de seus 81 anos de vida:
“Quero ser apenas um pobre frade que reza.”
E foi assim, rezando, celebrando, confessando, sofrendo e servindo, que aquele pobre frade escondido durante mais de meio século em San Giovanni Rotondo levou uma multidão de pessoas até Cristo crucificado e misericordioso.
Fontes e documentação histórica
A reconstrução histórica desta vida apoia-se sobretudo na documentação da Santa Sé para a beatificação e canonização de Padre Pio, nos documentos da Congregação das Causas dos Santos, no Epistolario di Padre Pio da Pietrelcina, nos registros e documentos dos Frades Menores Capuchinhos de San Giovanni Rotondo, nas atas da visita apostólica realizada por Dom Raffaello Carlo Rossi em 1921 e na documentação da Casa Sollievo della Sofferenza. Para os estigmas, é particularmente importante a carta de Padre Pio ao Padre Benedetto de 22 de outubro de 1918, na qual descreve pessoalmente o acontecimento de 20 de setembro. Para sua relação com o Anjo da Guarda, as cartas de 1912 constituem documentação direta. Para o conhecimento das consciências, possui especial valor seu depoimento sob juramento diante de Dom Rossi em 16 de junho de 1921. Os registros de San Giovanni Rotondo e as fontes capuchinhas documentam também a dimensão excepcional de seu ministério de confessor, que ocupou milhares de horas de sua existência.