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14 ago 2026

☀️ Santo do dia: São Maximiliano Kolbe

o sacerdote que deu a sua vida no lugar de um pai de família no lagher nazista de Auschwitz


Auschwitz, verão de 1941.


Dez prisioneiros estavam diante dos soldados nazistas. Tinham acabado de receber uma sentença terrível: seriam fechados numa cela subterrânea sem comida e sem água até morrerem.

De repente, um dos condenados começou a gritar desesperado. Chamava-se Franciszek Gajowniczek. Ao perceber que iria morrer, pensou na família e gritou desesperado: “Minha pobre mulher! Meus pobres filhos!” Então aconteceu algo completamente inesperado.

Um prisioneiro saiu da fila. Num campo de concentração, fazer isso diante de um oficial da SS podia significar ser morto imediatamente. Era o prisioneiro 16670. Seu nome era Maximiliano Maria Kolbe.


Antes de Auschwitz


Maximiliano nasceu como Rajmund Kolbe, em 8 de janeiro de 1894, em Zduńska Wola, então parte do Império Russo e hoje território polonês.

Ainda adolescente entrou para os Franciscanos Conventuais e recebeu o nome religioso de Maximiliano. Era inteligente, estudou filosofia e teologia em Roma e foi ordenado sacerdote em 1918.

Tinha uma paixão especial pela Imaculada Conceição. Em 1917, ainda em Roma, fundou a Milícia da Imaculada, movimento dedicado à evangelização e à consagração a Maria.

Mas Kolbe não era um religioso fechado num convento. Percebeu muito cedo a força dos novos meios de comunicação. Criou revistas, organizou uma enorme obra editorial e fundou na Polônia o convento de Niepokalanów, a “Cidade da Imaculada”. Antes da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um dos maiores centros católicos de imprensa da Europa.

E ainda encontrou tempo para ser missionário. Em 1930, partiu para o Japão. Estabeleceu uma missão em Nagasaki e iniciou ali uma edição japonesa de sua revista. Depois voltou à Polônia. Então veio a guerra.


Os nazistas chegam


Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha nazista invadiu a Polônia. A vida de Kolbe mudou completamente.

Niepokalanów foi atingida pelas consequências da ocupação. Kolbe e outros frades chegaram a ser presos temporariamente em 1939. Libertado, ele voltou ao convento e procurou manter sua atividade religiosa e assistencial. O complexo acolheu refugiados e pessoas necessitadas, entre elas judeus perseguidos. Mas a liberdade durou pouco.

Na manhã de 17 de fevereiro de 1941, a Gestapo chegou a Niepokalanów. Maximiliano Kolbe foi preso. Primeiro foi levado para a prisão de Pawiak, em Varsóvia.

Ali já começou a experimentar a violência nazista. Era sacerdote. Era franciscano. E não escondia isso. Poucos meses depois, em 28 de maio de 1941, foi colocado num transporte com outros prisioneiros. Destino: Auschwitz. Ao chegar, perdeu até o nome. Para o sistema do campo, ele passou a ser simplesmente: prisioneiro número 16670.


O inferno de Auschwitz


Auschwitz não era uma prisão comum. Fome, espancamentos, trabalhos forçados, humilhações e mortes faziam parte da vida cotidiana. Kolbe já tinha uma saúde frágil. Mesmo assim, foi submetido a trabalhos pesados. Testemunhos de companheiros de prisão contam que procurava dividir sua pequena porção de alimento e consolar outros presos. Quando conseguia, exercia clandestinamente seu ministério sacerdotal, escutando companheiros e rezando com eles.

Ele também sofreu agressões particularmente violentas. Em determinado momento ficou tão debilitado que foi enviado à enfermaria do campo. Poderia ter se fechado completamente na própria luta pela sobrevivência. Mas continuava preocupado com os outros. Até que, no final de julho de 1941, aconteceu aquilo que marcaria para sempre seu nome.


Um prisioneiro desaparece


Um homem do bloco de Kolbe desapareceu. As autoridades do campo acreditaram que tivesse fugido.

A regra de terror utilizada pelos nazistas era brutal: como represália, outros prisioneiros poderiam ser escolhidos para morrer. Os homens foram obrigados a permanecer durante horas em formação. Então o comandante responsável, Karl Fritzsch, começou a escolher os condenados.

Um. Depois outro… Até completar dez homens. Eles não seriam simplesmente fuzilados. Seriam levados ao Bloco 11, colocados numa cela e deixados morrer de fome e sede. Entre os escolhidos estava Franciszek Gajowniczek, sargento do exército polonês. Ao ouvir seu nome, ele se desesperou. Pensou na esposa. Pensou nos filhos. Foi então que o prisioneiro 16670 fez aquilo que ninguém esperava. Saiu da fila. Kolbe aproximou-se do oficial.

Fritzsch perguntou o que aquele prisioneiro polonês queria. Kolbe respondeu que desejava fazer um pedido. Apontou para Gajowniczek. Era um homem jovem, explicou. Tinha esposa e filhos. Então apresentou-se: “Sou um sacerdote católico. Quero tomar o lugar dele.”

Kolbe tinha apenas 47 anos, mas sabia perfeitamente o que estava oferecendo. Sua própria vida. O oficial aceitou. Gajowniczek voltou para a fila. Maximiliano Kolbe tomou seu lugar entre os condenados. E caminhou para o bunker da fome.


A cela da morte


Os dez homens foram despidos e trancados no subterrâneo do Bloco 11. Sem comida. Sem água. Agora só restava esperar a morte. Normalmente, naquele lugar, o desespero dominava os condenados. Mas os testemunhos relacionados ao bunker de Kolbe recordam algo diferente. Da cela começaram a ser ouvidas orações e cânticos religiosos. Kolbe rezava com os outros. Um a um, os homens foram morrendo. Passaram-se dias. A fome consumia seus corpos. A sede era terrível. Depois de cerca de duas semanas, Maximiliano ainda estava vivo. Os nazistas precisavam esvaziar a cela. Em 14 de agosto de 1941, um funcionário do campo entrou no bunker.  Kolbe recebeu uma injeção letal de fenol. Segundo o testemunho preservado do homem ligado à execução, Maximiliano ofereceu tranquilamente o braço.

Pouco depois estava morto. No dia seguinte, 15 de agosto, festa da Assunção de Maria, seu corpo foi levado ao crematório. O prisioneiro 16670 havia desaparecido. Mas o homem que ele salvou estava vivo.


Franciszek voltou para casa


Franciszek Gajowniczek sobreviveu a Auschwitz. Sobreviveu também à guerra. Quando finalmente recuperou a liberdade, descobriu uma realidade dolorosa: seus filhos haviam morrido durante a guerra. Mas sua esposa estava viva. E ele jamais esqueceu o sacerdote que havia caminhado voluntariamente para a morte em seu lugar. Gajowniczek viveu até 1995 e durante décadas contou publicamente aquilo que havia acontecido em Auschwitz.

Em 10 de outubro de 1982, estava na Praça de São Pedro, em Roma. Naquele dia, diante de uma enorme multidão, São João Paulo II canonizou Maximiliano Maria Kolbe. O Papa polonês apresentou-o como um homem que, num lugar construído para destruir a dignidade humana, havia conquistado a mais difícil das vitórias: a vitória do amor sobre o ódio. 

João Paulo II o proclamou “mártir da caridade”. E talvez seja essa a melhor maneira de compreender Maximiliano Kolbe. Ele não entrou em Auschwitz sabendo que teria oportunidade de realizar um gesto heroico. Viveu dia após dia tentando permanecer fiel. Até chegar aquele momento. Um homem chorou: “Minha mulher! Meus filhos!” E outro homem percebeu que podia salvá-lo. Não tinha dinheiro. Não tinha armas. Não tinha poder. Naquele momento, Maximiliano Kolbe possuía uma única coisa que ainda podia oferecer: a própria vida. E ofereceu.

No lugar criado pelos nazistas para demonstrar que uma vida humana não valia nada, o prisioneiro 16670 demonstrou exatamente o contrário: uma vida humana valia tanto que ele estava disposto a entregar a sua para salvá-la.



Fontes e bibliografia


  • Santa Sé, Homilia de João Paulo II na canonização de São Maximiliano Maria Kolbe, 10 de outubro de 1982. Fonte fundamental para a interpretação eclesial de Kolbe como “mártir da caridade”.

  • Santa Sé, documentação biográfica relativa a São Maximiliano Maria Kolbe (1894–1941) e à sua canonização.

  • United States Holocaust Memorial Museum (USHMM), materiais históricos e biográficos sobre Maximilian Kolbe, Auschwitz e a perseguição nazista.

  • Auschwitz-Birkenau State Museum, documentação histórica sobre Maximilian Maria Kolbe, prisoner no. 16670, sua prisão, permanência no campo, bunker da fome e morte em 14 de agosto de 1941.

  • Franciszek Gajowniczek, testemunhos sobre a seleção para o bunker da fome e o oferecimento de Kolbe para morrer em seu lugar.

  • Bruno Borgowiec, testemunho relacionado aos últimos dias dos condenados no bunker da fome e à morte de Maximiliano Kolbe.

  • Patricia Treece, A Man for Others: Maximilian Kolbe, Saint of Auschwitz, Our Sunday Visitor.

  • Claude R. Foster, Mary's Knight: The Mission and Martyrdom of Saint Maksymilian Maria Kolbe, Westchester Institute.

  • André Frossard, Forget Not Love: The Passion of Maximilian Kolbe, Ignatius Press.

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