
28 set 2026
☀️ Santo do dia: São Lourenço Ruiz e seus quinze companheiros
“Se eu tivesse mil vidas, daria todas por Cristo”
Um pai de família nas ruas de Manila
No início do século XVII, no bairro de Binondo, em Manila, vivia um cristão chamado Lourenço Ruiz. Era filho de pai chinês e mãe tagala, crescera na fé católica e recebera sua formação junto aos dominicanos. Servia na igreja de São Gabriel de Binondo, sabia ler e escrever e tornou-se membro da Confraria do Rosário. Depois se casou e teve três filhos. Sua vida era, até então, a de tantos outros cristãos: família, trabalho, paróquia, oração e responsabilidades cotidianas. São João Paulo II insistiria justamente nesse aspecto ao apresentá-lo aos filipinos: antes de ser mártir, Lourenço foi um esposo e pai cristão, formado na fé dentro de uma comunidade concreta. Manila, porém, era também um dos grandes pontos de partida das missões para o Extremo Oriente. Dali partiam dominicanos para regiões onde anunciar Jesus Cristo podia custar a própria vida.
Uma fuga que terminou numa missão
Em 1636, aconteceu algo que mudou completamente a vida de Lourenço. Ele se viu envolvido em Manila num episódio de derramamento de sangue e, temendo ser acusado, decidiu deixar a cidade. Naquele mesmo período, alguns dominicanos preparavam uma viagem missionária. Lourenço embarcou com eles. O grupo era formado pelo espanhol Padre Antônio González, pelo francês Guilherme Courtet, pelo espanhol Miguel de Aozaraza, pelo sacerdote japonês Vicente Shiwozuka da Cruz, pelo japonês Lázaro de Kyoto, que servia como guia e intérprete, e por Lourenço. A viagem que começara para ele também como uma fuga acabaria levando-o para muito mais longe do que imaginava. O destino era o Japão, onde a perseguição aos cristãos se tornara terrível.
Um país onde ser cristão podia custar a vida
O cristianismo chegara ao Japão no século XVI e formara numerosas comunidades. No início do século XVII, porém, as autoridades japonesas começaram uma repressão sistemática. Missionários foram expulsos, igrejas destruídas e os cristãos obrigados a esconder a própria fé. Mesmo assim, sacerdotes continuavam entrando clandestinamente no país. Disfarçados, viajavam de povoado em povoado, celebravam a Eucaristia durante a noite, confessavam, batizavam e fortaleciam comunidades que podiam passar meses sem encontrar um sacerdote. Alguns desses missionários eram japoneses que haviam sido expulsos, estudado no exterior e depois voltado voluntariamente para sua própria terra, sabendo que, se fossem descobertos, poderiam ser torturados e mortos. Um dos companheiros de Lourenço, Guilherme Courtet, resumiria diante dos juízes a razão pela qual estavam ali: “Viemos ao Japão somente para pregar a fé em Deus e ensinar a salvação.”
Presos antes de começar
O grupo chegou a Okinawa, mas foi descoberto. Lourenço e seus companheiros foram presos e permaneceram aproximadamente um ano encarcerados, antes de serem conduzidos a Nagasaki. Para Lourenço, tudo havia mudado. Ele deixara Manila procurando escapar de um perigo e agora se encontrava diante de outro incomparavelmente maior. Os perseguidores queriam sobretudo que aqueles cristãos renegassem a fé. Bastava apostatar para escapar do martírio. Por isso os interrogatórios eram acompanhados de torturas destinadas a destruir lentamente a resistência do prisioneiro. Não queriam apenas homens mortos; queriam cristãos que declarassem publicamente que já não eram cristãos.
Alguns caíram — e depois se levantaram
A violência das torturas foi tão grande que alguns companheiros de Lourenço chegaram a ceder. Lázaro de Kyoto apostatou durante algumas horas. Depois se arrependeu, voltou a professar a fé e morreu como mártir. Também o sacerdote japonês Vicente Shiwozuka da Cruz fraquejou durante o suplício, mas recuperou a coragem, voltou a confessar Cristo e permaneceu fiel até a morte. Entre os dezesseis mártires existe ainda a história de Miguel Kurobioye, catequista japonês. Durante a tortura, ele revelou o esconderijo do sacerdote Tiago Kyushei Tomonaga, contribuindo para sua prisão. Mas Miguel se arrependeu profundamente, voltou à fé e acabou morrendo junto daquele cuja prisão havia provocado. A história desses mártires mostra também esta face da santidade: houve homens que sentiram medo, homens que caíram e homens que, depois de cair, encontraram em Deus a força para se levantar e entregar a vida.
“Sou cristão”
Lourenço também foi interrogado e torturado. Agora aquele pai de família tinha diante de si uma escolha terrível. Se renegasse Cristo, poderia conservar a esperança de viver. Permanecer cristão significava aceitar a morte. E justamente naquele momento apareceu um Lourenço diferente daquele homem que havia embarcado em Manila tentando salvar a própria vida. Diante dos juízes declarou sua fé e afirmou que estava disposto a morrer por Deus. A documentação utilizada no processo de martírio conservou uma de suas respostas, posteriormente citada por São João Paulo II: “Se tivesse muitos milhares de vidas, oferecê-las-ia todas por Ele. Nunca o renegarei. Podeis matar-me, se é isto que desejais. Morrer por Deus é a minha vontade.” Aquele homem não havia viajado para o Japão procurando o martírio. Mas quando chegou o momento em que conservar a vida significava abandonar Cristo, escolheu Cristo.
Uma esposa e três filhos ficaram em Manila
É importante recordar quem estava pronunciando aquelas palavras. Lourenço não era um monge que passara a vida afastado do mundo. Era marido e pai de três filhos. Muito longe dali estavam sua esposa, seus filhos, sua casa e as ruas de Binondo onde havia vivido. Morrer significava não voltar para eles. Significava não abraçar novamente a esposa, não acompanhar o crescimento dos filhos, não regressar à sua paróquia. A frase das “mil vidas” adquire assim uma força ainda maior. Lourenço não possuía mil vidas. Possuía apenas uma, e nessa única vida estavam todas as pessoas que amava. Foi essa vida concreta, com todos os seus afetos, que colocou nas mãos de Deus.
A terrível “forca e cova”
Entre os suplícios empregados contra os cristãos no Japão estava a chamada “forca e cova” (ana-tsurushi). O condenado era suspenso de cabeça para baixo sobre uma abertura no solo, ficando o corpo parcialmente introduzido na cova. A intenção era prolongar o sofrimento e obrigar o prisioneiro a apostatar. No grupo de Lourenço, a execução final prolongou-se durante dias. São João Paulo II recordou que aqueles cristãos cantavam salmos na prisão e durante o suplício. Um dos companheiros de Lourenço, Padre Antônio González, morreu depois das torturas. Os outros foram conduzidos ao suplício. Guilherme Courtet chegou ao martírio cantando salmos e louvores à Virgem do Rosário. Miguel de Aozaraza permaneceu fiel. Vicente e Lázaro, depois de terem fraquejado, confessaram novamente Cristo. E Lourenço permaneceu firme naquela decisão que havia manifestado diante dos juízes.
Dezesseis mártires, não apenas Lourenço
A história, porém, era muito maior do que aquele último grupo. Entre 1633 e 1637, dezesseis cristãos ligados à missão dominicana sofreram o martírio no Japão. Eram pessoas de diferentes povos e condições: japoneses, espanhóis, um francês, um italiano e um filipino; sacerdotes, religiosos, leigos e mulheres consagradas. Alguns haviam atravessado oceanos para evangelizar. Outros eram japoneses que sustentavam clandestinamente os missionários. A perseguição procurava destruir uma Igreja que sobrevivia escondida em casas particulares, nas montanhas e nas pequenas comunidades. Para que um sacerdote pudesse celebrar uma Missa secretamente, eram necessários cristãos que o acolhessem, escondessem e conduzissem de um lugar para outro. Por isso, quando as autoridades encontravam um missionário, procuravam também aqueles que o haviam ajudado.
Os missionários que voltaram para morrer com seu povo
Entre os primeiros mártires estava o dominicano espanhol Domingos Ibáñez de Erquícia, que entrara clandestinamente no Japão em 1623. Durante aproximadamente dez anos exerceu o ministério escondido, chegando a dirigir a missão dominicana no país. Foi descoberto, preso e morto em 1633, aos 44 anos. Com ele morreu o japonês Francisco Shoyemon, seu colaborador, que recebeu o hábito dominicano quando já estava preso. Outro era Tiago Kyushei Tomonaga de Santa Maria, japonês de família cristã. Expulso do Japão em 1614, foi para Manila, tornou-se sacerdote dominicano e trabalhou também em Taiwan. Poderia ter permanecido fora de sua pátria, em segurança. Preferiu voltar. Sabia que os cristãos japoneses precisavam de sacerdotes e retornou clandestinamente ao país que o havia expulsado. Foi preso e morreu aos 51 anos, o mais velho dos dezesseis mártires.
Madalena de Nagasaki: uma jovem que se apresentou aos perseguidores
Entre os dezesseis havia também mulheres japonesas. Uma delas era Madalena de Nagasaki. Seus pais cristãos haviam sido martirizados. Madalena consagrou-se a Deus, tornou-se terciária e colaborou com os missionários. Depois que seus diretores espirituais foram presos, tomou uma decisão impressionante: apresentou-se voluntariamente às autoridades e declarou que era cristã. Foi submetida às torturas e finalmente suspensa na forca e cova. Sua agonia prolongou-se por treze dias. Outra mártir, Marina de Omura, também terciária dominicana, oferecia ajuda e abrigo aos missionários clandestinos. Presa em 1634, sofreu humilhações e torturas e finalmente foi queimada viva. A Igreja escondida do Japão continuava existindo porque havia também mulheres como Madalena e Marina, dispostas a abrir suas casas, proteger os sacerdotes e sustentar os cristãos perseguidos.
Eles atravessavam o mar sabendo que talvez não voltassem
O italiano Jordão Ansalone, também dominicano, havia trabalhado entre pobres e enfermos nas Filipinas antes de entrar clandestinamente no Japão, em 1632. Foi preso e morreu aos 36 anos. Outro era o japonês Tomás Hioji de São Jacinto, filho de cristãos martirizados. Expulso do Japão, estudou em Manila, tornou-se dominicano e missionário em Taiwan. Depois tomou a mesma decisão de outros companheiros: voltou para sua terra, mesmo conhecendo a perseguição. Durante cerca de cinco anos conseguiu exercer clandestinamente seu ministério até ser descoberto. Para esses homens, embarcar para o Japão significava atravessar o mar sabendo que talvez não existisse viagem de retorno. Mesmo assim, partiam porque havia cristãos escondidos esperando um sacerdote que lhes trouxesse a Eucaristia, a confissão e a Palavra de Deus.
1637: chegou a vez de Lourenço
Em 1637, chegou finalmente o momento do grupo de Lourenço. Antônio González, Guilherme Courtet, Miguel de Aozaraza, Vicente Shiwozuka da Cruz, Lázaro de Kyoto e Lourenço Ruiz haviam passado meses nas mãos dos perseguidores. Depois dos interrogatórios e torturas, foram conduzidos ao suplício final. Na colina de Nishizaka, em Nagasaki, alguns permaneceram durante dias suspensos na forca e cova. Lourenço morreu em setembro de 1637. O homem que havia deixado Manila tentando escapar de um perigo terminava sua viagem entregando voluntariamente a vida por Cristo. A fuga havia se transformado numa profissão de fé. Ele não havia saído das Filipinas como mártir. Tornou-se mártir no caminho.
Um Te Deum em Manila
Meses depois, a notícia chegou às Filipinas. Em 27 de dezembro de 1637, na igreja dominicana de Manila, cantou-se solenemente o Te Deum em ação de graças pelo testemunho dos mártires. Entre eles estava um homem que os habitantes da cidade podiam reconhecer como um dos seus: um leigo, um esposo, um pai, um homem das ruas de Binondo. Mais de três séculos depois, em 18 de fevereiro de 1981, São João Paulo II proclamou Lourenço e seus quinze companheiros beatos em Manila, na primeira beatificação realizada fora de Roma. Em 18 de outubro de 1987, na Praça de São Pedro, o mesmo Papa canonizou os dezesseis mártires. Lourenço Ruiz tornou-se o primeiro santo filipino canonizado.
Se tivesse mil vidas
Talvez a beleza dessa história esteja justamente na diversidade dos dezesseis. Havia sacerdotes e leigos, homens e mulheres, europeus e asiáticos. Alguns permaneceram firmes desde o primeiro momento; outros tremeram, caíram e depois se levantaram. Alguns haviam escolhido conscientemente entrar no Japão para evangelizar. Lourenço chegara ali depois de fugir de Manila. Deus encontrou cada um numa história diferente e os conduziu ao mesmo lugar: a fidelidade a Cristo.
Entre todos eles permanece particularmente viva a voz daquele pai filipino diante dos juízes: “Se tivesse muitos milhares de vidas, oferecê-las-ia todas por Ele. Nunca o renegarei.” Lourenço não tinha milhares de vidas. Tinha apenas uma: a vida de um esposo, de um pai de três filhos, de um homem que conhecera o medo e tentara escapar do perigo. Quando chegou a hora decisiva, porém, compreendeu que havia algo que não podia abandonar para salvar a própria pele: Jesus Cristo.
E entregou a única vida que possuía.
Fontes e documentação histórica
A base documental fundamental para o martírio é a Positio super Martyrio preparada para a causa de beatificação dos dezesseis mártires e utilizada pela Santa Sé. São particularmente importantes as homilias de São João Paulo II na beatificação em Manila, em 18 de fevereiro de 1981, e na canonização, em 18 de outubro de 1987, nas quais o Papa retoma os testemunhos dos processos, inclusive a profissão de fé de Lourenço diante dos juízes. A documentação oficial da canonização conserva ainda os dados biográficos dos dezesseis mártires e as circunstâncias essenciais dos martírios ocorridos entre 1633 e 1637.