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11 ott 2026

☀️ Santo do dia: SÃO JOÃO XXIII

O velho Papa que abriu as janelas da Igreja


Angelo Giuseppe Roncalli nasceu em 25 de novembro de 1881, em Sotto il Monte, perto de Bérgamo, no norte da Itália. Era o quarto de treze filhos de uma família de camponeses. Sua infância não aconteceu em palácios, mas entre campos, trabalho, uma família numerosa e a pequena igreja de sua terra. Aos onze anos entrou no seminário de Bérgamo. E aconteceu ali algo que hoje nos permite conhecer João XXIII de uma maneira extraordinária: em 1895, com apenas 14 anos, começou a escrever suas anotações espirituais. Continuaria fazendo isso, de diferentes maneiras, praticamente até a morte. Esses escritos foram depois reunidos no famoso Giornale dell’anima — Diário da Alma. Por isso podemos acompanhar não somente aquilo que Roncalli fez, mas também aquilo que acontecia dentro dele.

Em 1900 foi enviado a Roma para estudar teologia e, em 1º de agosto de 1904, foi ordenado sacerdote. No ano seguinte, o bispo de Bérgamo, Giacomo Radini Tedeschi, chamou aquele jovem padre para ser seu secretário. Roncalli acompanhava o bispo nas visitas pastorais, ensinava no seminário, pregava e participava das iniciativas sociais da diocese. Foram quase dez anos que marcaram profundamente sua formação sacerdotal. 

Então veio a Primeira Guerra Mundial. Roncalli foi chamado para o serviço militar, primeiro na área sanitária e depois como capelão. Conheceu hospitais, soldados feridos, sofrimento e morte. Terminada a guerra, tornou-se diretor espiritual do seminário de Bérgamo e, em 1921, foi chamado a Roma para trabalhar na Obra da Propagação da Fé. Parecia que sua vida seguiria tranquilamente dentro da Itália. Mas começou então uma longa viagem que duraria cerca de trinta anos.

Em 1925, Pio XI o nomeou visitador apostólico na Bulgária e Roncalli foi ordenado bispo. Escolheu como lema duas palavras que nunca mais abandonaria: “Oboedientia et pax” — “Obediência e paz.” Depois vieram Turquia e Grécia. Em 1944, quando a Segunda Guerra Mundial ainda devastava a Europa, foi enviado como núncio apostólico para a França. Finalmente, em 1953, Pio XII o criou cardeal e o nomeou Patriarca de Veneza. Roncalli já tinha 71 anos. Depois de tantos anos como diplomata, parecia ter encontrado o lugar onde terminaria tranquilamente sua vida: pastor de uma diocese, perto de seu povo. Mas, em 9 de outubro de 1958, morreu Pio XII. Roncalli foi a Roma para participar do conclave. Tinha quase 77 anos. 

Em 28 de outubro de 1958, depois de onze escrutínios, os cardeais o elegeram Papa. Escolheu o nome João XXIII. Muitos imaginaram que seria um Papa de transição: um homem idoso, tranquilo, capaz de governar a Igreja por alguns anos enquanto se preparava o futuro. Três meses depois, porém, o “Papa de transição” surpreendeu a Igreja inteira. Era 25 de janeiro de 1959, festa da Conversão de São Paulo. João XXIII estava na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e anunciou diante dos cardeais um Sínodo para Roma, a revisão do Código de Direito Canônico e, então, aquilo que ninguém esperava: um Concílio Ecumênico para toda a Igreja. Ele mesmo confessou que fazia aquele anúncio “tremendo um pouco de emoção”, mas também com “humilde resolução”. 

Começou então um trabalho gigantesco. Bispos do mundo inteiro foram consultados, formaram-se comissões, chegaram propostas e começaram a ser preparados os documentos. João XXIII escolheu para a abertura a data de 11 de outubro de 1962. Naquele tempo, nesse dia se celebrava liturgicamente a Maternidade Divina de Maria, e o Papa queria recordar também o Concílio de Éfeso e colocar o novo Concílio sob a proteção da Mãe de Deus. 

Na manhã de 11 de outubro de 1962, mais de dois mil bispos entraram solenemente na Basílica de São Pedro. Vinham de todos os continentes, povos e culturas. Bento XVI, que estava presente naquele dia como jovem teólogo, recordaria cinquenta anos depois: “Foi um dia maravilhoso aquele 11 de outubro de 1962.” 

João XXIII iniciou seu grande discurso com palavras que entrariam para a história: “Alegra-se a Santa Mãe Igreja.” O Papa explicou que a Igreja não deveria abandonar nem modificar a verdade recebida, mas precisava apresentá-la aos homens de seu tempo de maneira adequada. E então falou daqueles que olhavam para o mundo moderno e enxergavam somente decadência, catástrofes e destruição: “A Nós parece devermos discordar desses profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo.” 

Não era ingenuidade. Roncalli tinha conhecido duas guerras mundiais, trabalhado entre soldados feridos e vivido diplomaticamente alguns dos anos mais violentos da Europa. Sabia perfeitamente que o mal existia. Mas recusava-se a acreditar que Deus tivesse abandonado a história. Por isso convidava a reconhecer, também no meio dos acontecimentos humanos, “os misteriosos planos da Divina Providência”, que vão se realizando através da ação dos homens e muitas vezes “além das suas expectativas”. O Concílio Vaticano II estava aberto.

Naquela mesma noite aconteceria uma das cenas mais bonitas de todo o seu pontificado. Uma enorme multidão começou a caminhar em direção à Praça de São Pedro carregando tochas. João XXIII estava cansado depois daquele dia imenso e não estava previsto um grande discurso. Mas milhares de pessoas estavam lá embaixo. 

O Papa apareceu à janela, olhou para a praça iluminada, depois levantou os olhos para o céu e começou a falar espontaneamente: “Queridos filhos, ouço as vossas vozes.” Então viu a lua e disse: “Dir-se-ia que até a lua se apressou esta noite — olhai-a lá no alto! — para contemplar este espetáculo.” A multidão explodiu em aplausos. Não era mais o grande discurso oficial da manhã. Era um velho pastor conversando com seus filhos antes que voltassem para casa. Falou da fé, da esperança, da caridade e do amor. Depois pronunciou as palavras que ficariam para sempre ligadas ao seu nome: “Voltando para casa, encontrareis as crianças; dai uma carícia aos vossos filhos e dizei: ‘Esta é a carícia do Papa’.” E acrescentou: “Encontrareis alguma lágrima para enxugar. Fazei alguma coisa, dizei uma palavra boa.” Naquela noite, o Papa que acabava de abrir um dos maiores Concílios da história da Igreja não mandava o povo voltar para casa discutindo documentos. Mandava acariciar uma criança, enxugar uma lágrima e dizer uma palavra boa.

Essa proximidade não existia apenas nos discursos. Como Bispo de Roma, João XXIII visitava paróquias, hospitais e periferias. Foi visitar também os presos, aproximando o Papa de pessoas que dificilmente poderiam chegar até ele. O povo começou a chamá-lo de “Papa buono” — “Papa bom”. Seu pontificado duraria menos de cinco anos, mas nesses poucos anos aconteceram coisas enormes. Publicou em 1961 a encíclica Mater et Magistra, promoveu o diálogo entre os cristãos e procurou construir pontes num mundo dividido pela Guerra Fria. Em outubro de 1962, durante a dramática crise dos mísseis de Cuba, quando Estados Unidos e União Soviética chegaram perigosamente perto de uma guerra nuclear, João XXIII lançou um apelo pela paz. Alguns meses depois, em 11 de abril de 1963, publicou sua última grande encíclica, Pacem in Terris — Paz na Terra, dirigida não somente aos católicos, mas “a todos os homens de boa vontade”. 

Quando escreveu a Pacem in Terris, João XXIII já estava gravemente doente. No outono de 1962, os médicos haviam diagnosticado um tumor. Sua saúde piorava e ele compreendia que provavelmente não chegaria ao final do Concílio que havia iniciado. O homem que abrira o Vaticano II precisava agora deixar a Igreja continuar sem ele. Nos últimos meses, enquanto seu corpo enfraquecia, a Praça de São Pedro tornou-se quase uma extensão de seu quarto. Pessoas do mundo inteiro acompanhavam as notícias sobre sua saúde. Católicos e não católicos rezavam por ele. João XXIII não veria o encerramento do Concílio. Tinha aberto a porta; outro Papa deveria continuar o caminho.

No dia 3 de junho de 1963, depois de Pentecostes, João XXIII morreu. Tinha 81 anos. Poucos dias depois seria eleito Paulo VI, que conduziria o Concílio Vaticano II até sua conclusão, em 1965. João XXIII havia sido Papa durante menos de cinco anos. O homem que muitos haviam considerado apenas um pontífice de transição tinha colocado em movimento um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea da Igreja. 

Talvez, porém, para compreender toda a sua vida seja preciso voltar àquelas duas palavras que escolhera quando se tornou bispo: “Oboedientia et pax — Obediência e paz.” Passou pela Bulgária, Turquia, Grécia, França e Veneza. Chegou a Roma quase aos 77 anos e, três meses depois de ser eleito Papa, anunciou um Concílio. No dia da abertura recusou-se a seguir os “profetas de desgraças”. Naquela noite olhou para a lua, mandou os pais voltarem para casa e acariciarem seus filhos, pediu que enxugassem alguma lágrima e dissessem uma palavra boa. E terminou convidando todos a continuar o caminho “cantando, suspirando, chorando, mas sempre, sempre cheios de confiança em Cristo que nos ajuda e nos escuta.”


Menos de oito meses depois, João XXIII morreu. Mas aquela noite de 11 de outubro de 1962 ficou para sempre: a lua sobre a Praça de São Pedro, milhares de tochas, mais de dois mil bispos vindos do mundo inteiro e um velho Papa diante da janela. É por isso que a Igreja não celebra São João XXIII no dia de sua morte. Sua memória litúrgica é 11 de outubro, o dia em que ele abriu o Concílio Vaticano II e começou dizendo ao mundo: “Alegra-se a Santa Mãe Igreja.”


FONTES PRINCIPAIS


JOÃO XXIII. Giornale dell’anima — Diário da Alma.


JOÃO XXIII. Alocução de 25 de janeiro de 1959, Basílica de São Paulo Fora dos Muros — anúncio do Concílio Ecumênico.


JOÃO XXIII. Gaudet Mater Ecclesia. Discurso de abertura do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 1962.


JOÃO XXIII. Discurso aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro na noite de 11 de outubro de 1962, conhecido como “Discurso da Lua”.


JOÃO XXIII. Mater et Magistra, 15 de maio de 1961.


JOÃO XXIII. Pacem in Terris, 11 de abril de 1963.


SANTA SÉ. Perfil biográfico oficial de São João XXIII (1881–1963).


BENTO XVI. Recordação do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, 2012.


FRANCISCO. Homilia da canonização de João XXIII e João Paulo II, Praça de São Pedro, 27 de abril de 2014.


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