
3 set 2026
☀️ Santo do dia: São Gregório Magno
O prefeito de Roma que queria ser monge, tentou fugir do papado e terminou “Servo dos servos de Deus”
Gregório nasceu em Roma, por volta do ano 540, numa rica família patrícia da antiga gens Anicia. Não era apenas uma família importante: era profundamente cristã. Entre seus antepassados estava o Papa Félix III, e seus pais, Gordiano e Sílvia, foram venerados como santos. Duas tias paternas, Emiliana e Tarsília, viviam como virgens consagradas. Gregório cresceu, portanto, entre a cultura da antiga aristocracia romana e uma intensa vida cristã. Recebeu excelente formação e entrou cedo na administração pública. Em 572, com aproximadamente 32 anos, chegou ao ponto mais alto de sua carreira civil: tornou-se prefeito de Roma, uma das maiores autoridades da cidade. Precisava enfrentar problemas de abastecimento, administração, segurança e justiça numa Roma muito diferente daquela dos antigos imperadores: empobrecida pelas guerras e com uma administração civil cada vez mais frágil. Aqueles anos deram a Gregório uma enorme experiência prática de governo que utilizaria depois como Papa.
Mas Gregório não estava feliz com aquela vida. Pouco tempo depois, abandonou a carreira política. Utilizou seu patrimônio para ajudar os pobres e fundar seis mosteiros na Sicília; sua própria casa familiar, no monte Célio, foi transformada no mosteiro de Santo André, onde ele próprio se tornou monge. Finalmente podia viver aquilo que desejava: oração, silêncio, comunidade, estudo dos Padres da Igreja e longas horas diante da Sagrada Escritura. Gregório nunca esqueceu aqueles anos. Quando mais tarde estivesse esmagado pelas responsabilidades do papado, recordaria repetidamente a vida monástica como um tempo feliz de “recolhimento em Deus”, oração e estudo. Bento XVI chega a dizer que, apesar de tudo aquilo que aconteceu depois, “no seu coração Gregório permaneceu um simples monge”.
A tranquilidade, porém, durou pouco. Suas capacidades administrativas eram conhecidas e a Igreja precisava dele. O Papa Pelágio II ordenou-o diácono e, por volta de 579, quando Gregório tinha cerca de 39 anos, enviou-o a Constantinopla como apocrisário, função semelhante à de um núncio apostólico. Ali deveria representar o Papa junto à corte imperial e, sobretudo, tentar obter ajuda para uma Itália ameaçada pelos longobardos. Gregório permaneceu alguns anos no Oriente, conheceu de perto o Império Bizantino e continuou levando consigo um pequeno grupo de monges, procurando conservar, mesmo no meio da diplomacia, algo da vida monástica. Depois foi chamado de volta a Roma e tornou-se secretário do Papa.
A situação da Itália piorava. Chuvas contínuas, transbordamentos dos rios e carestia atingiam a população. Depois chegou a peste, que matou muita gente e levou também o Papa Pelágio II. Era o ano 590. Clero, povo e Senado concordaram praticamente num único nome para sucedê-lo: Gregório. Mas Gregório não queria ser Papa. E aqui Bento XVI é muito explícito. Não diz apenas que Gregório ficou preocupado ou hesitou. Diz: “Ele procurou opor resistência, tentando até a fuga, mas sem êxito.”
Gregório realmente tentou escapar daquela responsabilidade. O homem que já havia conhecido o poder como prefeito de Roma e depois o havia abandonado para ser monge sabia perfeitamente o peso que significava governar. Não estava correndo atrás de um cargo. Estava tentando fugir dele. Mas não conseguiu. Como explica Bento XVI, Gregório terminou reconhecendo naquilo que acontecia a vontade de Deus e cedeu. Em 590, com aproximadamente 50 anos, tornou-se Bispo de Roma.
Um Papa numa cidade devastada
Gregório não recebeu uma Roma tranquila. Encontrou uma cidade atingida pelas inundações, pela fome e pela peste, enquanto os longobardos pressionavam militarmente a Itália. A autoridade do Império Bizantino era incapaz de resolver muitos dos problemas concretos da população. Gregório precisou agir não apenas como pastor, mas também como administrador e negociador. Utilizando os rendimentos das propriedades da Igreja, especialmente na Sicília, comprou e distribuiu trigo, socorreu necessitados, ajudou sacerdotes, monges e religiosas que viviam na pobreza e pagou o resgate de pessoas capturadas pelos longobardos. Também exigia que as propriedades da Igreja fossem administradas honestamente e ordenava que os camponeses fossem protegidos contra abusos; se algum administrador os prejudicasse fraudulentamente, deveriam ser indenizados. Gregório não aceitava que a Igreja obtivesse dinheiro por meio da injustiça.
Também entrou diretamente nas negociações de paz. Enquanto setores do governo bizantino viam os longobardos essencialmente como invasores que deveriam ser derrotados, Gregório, segundo Bento XVI, procurava vê-los “com os olhos de um bom pastor”. Queria conter a guerra, mas também anunciar-lhes o Evangelho. Negociou com o rei Agilulfo, conseguindo uma trégua que durou aproximadamente de 598 a 601 e contribuindo para um armistício mais estável em 603. Manteve ainda uma importante amizade com a rainha católica Teodolinda, esposa de Agilulfo, enviando-lhe cartas e presentes e apoiando sua influência em favor da fé católica e da paz. Para Gregório, diplomacia e evangelização caminhavam juntas: impedir a guerra e aproximar aqueles povos de Cristo.
“Não anglos, mas anjos”
Havia, porém, outro povo que Gregório carregava no coração havia muitos anos. São Beda, o Venerável, conta uma história que se tornou uma das mais famosas de sua vida. Gregório ainda não era Papa quando, passando por um mercado de Roma, viu alguns jovens escravos vindos da Britânia sendo vendidos. Impressionado por sua aparência, perguntou de onde vinham. Disseram-lhe que eram da Britânia. Gregório perguntou se aquele povo era cristão e recebeu a resposta de que ainda era pagão. Então quis saber como se chamava aquele povo.
— Anglos — Angli.
Gregório percebeu imediatamente a semelhança com a palavra latina angeli, anjos. Segundo Beda, respondeu que tinham “rostos de anjos” e deveriam tornar-se “coerdeiros dos anjos no céu”. A tradição resumiria sua frase na célebre expressão: “Non Angli, sed angeli” — “Não anglos, mas anjos.” Gregório continuou perguntando: — De qual região eles vêm? — Deira.
Ele novamente brincou com as palavras: Deira — de ira. Deveriam ser libertados “da ira” e chamados à misericórdia de Cristo. Finalmente perguntou como se chamava o rei daquele povo. — Ælla. Gregório respondeu: “Alleluia!” O Aleluia, o louvor ao Deus Criador, deveria um dia ser cantado naquela terra. Mas a história não terminou numa sequência de frases inteligentes. Segundo Beda, Gregório ficou tão impressionado que procurou o Papa e pediu autorização para partir pessoalmente como missionário para a Britânia. O projeto não se realizou daquela maneira. Mas ele não esqueceu aqueles jovens nem o povo ao qual pertenciam.
Quarenta monges para a Inglaterra
Anos depois, quando se tornou Papa e finalmente teve condições de agir, Gregório retomou aquele antigo desejo. Em 596, enviou para a Britânia um grupo de aproximadamente 40 monges, colocando à frente deles Agostinho, prior de seu antigo mosteiro de Santo André e futuro Santo Agostinho de Cantuária.
A missão assustou os próprios missionários. Durante a viagem chegaram notícias sobre a dificuldade do empreendimento e sobre os povos que encontrariam. Os monges hesitaram e Agostinho voltou para pedir orientações. Gregório não cancelou a missão. Encorajou-os e mandou-os continuar.
Em 597, chegaram ao reino de Kent. O rei Etelberto ainda não era cristão, mas sua esposa, Berta, era católica. O rei permitiu que os monges pregassem. Agostinho estabeleceu-se em Cantuária, e a missão começou a produzir frutos extraordinários. Gregório acompanhava tudo de Roma através de cartas, respondendo às perguntas dos missionários e orientando-os sobre como organizar a nova Igreja.
Gregório não queria que os missionários destruíssem indiscriminadamente tudo aquilo que encontrassem. Em certas situações recomendava que costumes locais capazes de receber um significado cristão fossem purificados e orientados para Cristo. O objetivo não era destruir um povo, mas evangelizá-lo. Para Gregório, a conversão dos anglos era tão importante que posteriormente a mencionaria até em seu Comentário moral ao livro de Jó como um sinal concreto do avanço do Reino de Deus na história. Bento XVI chama atenção justamente para esse detalhe.
Mais de 800 cartas e um Papa que continuava estudando a Bíblia
Apesar de todas essas responsabilidades, Gregório escreveu enormemente. Seu Registrum Epistolarum conserva mais de 800 cartas. São documentos extraordinários porque mostram seu trabalho cotidiano: escreve para bispos, sacerdotes, monges, administradores, reis e rainhas; resolve problemas de propriedades, denuncia injustiças, organiza missões, trata de prisioneiros, intervém em conflitos e orienta comunidades.
Escreveu também os Moralia in Iob, as Homilias sobre Ezequiel, as Homilias sobre os Evangelhos, os Diálogos e sua célebre Regra Pastoral. O segundo livro dos Diálogos tornou-se especialmente importante porque é nossa principal fonte antiga sobre a vida de São Bento de Núrsia.
Gregório nunca abandonou seu amor pela Bíblia. Bento XVI o chama de “leitor apaixonado da Bíblia”. Para Gregório, porém, estudar a Escritura apenas para acumular conhecimentos podia tornar-se uma forma de orgulho. Era preciso compreender para viver. Por isso insistia continuamente em unir “saber-fazer, falar-viver, conhecer-agir”. A Palavra deveria transformar a vida.
Deixou também uma frase extraordinária sobre quem anuncia o Evangelho: “O pregador deve banhar a sua pena no sangue do seu coração.” Ou seja: não basta repetir belas palavras. Quem anuncia Cristo precisa falar daquilo que realmente está procurando viver.
“A arte das artes”
Na Regra Pastoral, Gregório explicou aquilo que aprendera carregando o peso do próprio episcopado. Chamou o cuidado das almas de: “Ars artium” — “a arte das artes.”
Conduzir pessoas era uma responsabilidade enorme. Por isso advertia que ninguém deveria procurar superficialmente um cargo de governo na Igreja. Quem fosse chamado deveria sentir o peso da responsabilidade. É impossível não perceber aqui a própria experiência do homem que, quando foi escolhido Papa, tentou fugir.
Gregório exigia ainda que o pastor conhecesse as pessoas concretas. Não se podia falar do mesmo modo com todos. Era preciso compreender a situação, a personalidade, as dificuldades e as necessidades de cada um. Bento XVI observa que algumas páginas da Regra Pastoral são tão detalhadas nesse ponto que chegaram a ser comparadas a um tratado de psicologia pastoral.
Mas havia um perigo que Gregório temia especialmente: o orgulho de quem governa. Por isso terminou sua Regra Pastoral lembrando que, quando uma pessoa se alegra pelo bem que conseguiu realizar, deve olhar também para aquilo que ainda não fez e permanecer humilde.
“Servo dos servos de Deus”
Gregório havia sido prefeito de Roma. Depois tornou-se representante do Papa em Constantinopla. Agora reis e rainhas escreviam-lhe, bispos recorriam a ele, administrava grandes patrimônios e suas decisões atingiam povos inteiros.
Mas não gostava dos grandes títulos. Escolheu para si uma expressão que permaneceria ligada ao ministério dos Papas: “Servus servorum Dei” — “Servo dos servos de Deus.”
Bento XVI insiste que isso “não era uma fórmula piedosa”. Era, diz ele, “a verdadeira manifestação do seu modo de viver e de agir”. Gregório contemplava a humildade de Cristo, Deus que se tornou servo e lavou os pés dos discípulos, e concluía que um bispo deveria fazer exatamente o mesmo.
Um Papa frequentemente de cama
Gregório realizou tudo isso com uma saúde muito frágil. Bento XVI relata que sofria de graves problemas digestivos e precisava permanecer na cama durante longos períodos. Sua voz tornou-se tão fraca que, muitas vezes, não conseguia sequer proclamar pessoalmente suas homilias e precisava entregá-las a um diácono para que fossem lidas ao povo.
Mesmo assim, nos grandes dias festivos procurava celebrar pessoalmente a Missa solene e encontrar-se com os fiéis romanos. O povo tinha enorme afeição por ele e começou a chamá-lo “consul Dei” — “cônsul de Deus”.
Gregório governou a Igreja durante aproximadamente 14 anos. Morreu em 12 de março de 604, com cerca de 64 anos. A tradição lhe deu um título reservado a pouquíssimos: Gregório Magno — Gregório, o Grande.
E Bento XVI explicou muito bem por que aquele homem foi grande. Gregório queria viver como monge, “em diálogo permanente com a Palavra de Deus”. Mas quando compreendeu que Deus o chamava para outra coisa, aceitou abandonar justamente a vida que mais amava. Tinha deixado o poder para procurar Deus no mosteiro; quando Deus lhe pediu que voltasse ao meio das guerras, da fome, dos pobres, dos prisioneiros, dos reis e dos problemas da Igreja, Gregório foi.
Tentou até fugir do papado. Depois aceitou. Distribuiu trigo aos famintos, pagou resgates aos prisioneiros, protegeu camponeses contra administradores injustos, negociou tréguas com os longobardos, trabalhou pela conversão deles, aconselhou a rainha Teodolinda, escreveu mais de 800 cartas e, lembrando aqueles jovens escravos que um dia vira no mercado de Roma, enviou cerca de quarenta monges para evangelizar a Inglaterra.
E fez tudo isso carregando dentro de si o desejo de continuar sendo aquilo que havia escolhido anos antes no pequeno mosteiro de Santo André: um monge que buscava Deus.
Bento XVI resumiu sua vida numa frase belíssima: “Por amor de Deus soube fazer-se servo de todos numa época repleta de tribulações e de sofrimentos.”
Talvez por isso o homem que a história chamou de “Magno” — “Grande” tenha escolhido para si exatamente o título contrário à grandeza humana: “Servus servorum Dei.”
“Servo dos servos de Deus.”
Fontes
A fonte principal para esta reconstrução são as duas catequeses de Bento XVI sobre São Gregório Magno, pronunciadas em 28 de maio e 4 de junho de 2008, que tratam detalhadamente de sua família, carreira política, vocação monástica, tentativa de fugir da eleição pontifícia, atuação diante dos longobardos, assistência aos pobres e prisioneiros, enfermidades, escritos e espiritualidade. Para a história dos jovens anglos no mercado de Roma e a origem da missão à Inglaterra, a fonte antiga fundamental é São Beda, o Venerável, História Eclesiástica do Povo Inglês, II, 1. Entre as fontes primárias do próprio Gregório destacam-se o Registrum Epistolarum, a Regula Pastoralis, os Moralia in Iob, as Homiliae in Evangelia, as Homiliae in Hiezechihelem e os Dialogi.