
4 ott 2026
☀️ Santo do dia: SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Deus foi tirando tudo, até restar somente Deus
1. O rei das festas de Assis
Antes de ser São Francisco, Francisco foi simplesmente Francisco Bernardone: um jovem cheio de vida, sonhos, amigos e vontade de conquistar o mundo. Seu pai, Pedro Bernardone, era um rico comerciante de tecidos. Viajava, fazia negócios, ganhava dinheiro e desejava para o filho um futuro ainda maior. Francisco cresceu, portanto, sem passar necessidade. Podia vestir-se bem, comer bem, gastar dinheiro e divertir-se. E fazia tudo isso com entusiasmo.
Francisco não era apenas um dos jovens que participavam das festas de Assis. Ele era frequentemente o centro delas. Quando a turma se reunia, era Francisco quem puxava as canções, inventava brincadeiras, animava os amigos e conduzia o grupo pelas ruas. Gostava de cantar, tinha alma de poeta e trovador.
Nas noites alegres de Assis, os jovens saíam cantando e faziam serenatas debaixo das janelas das belas moças da cidade. E Francisco ia à frente. Gostava das roupas elegantes, dos banquetes, da música, das piadas, das noites que pareciam não terminar. Como tinha dinheiro e era generoso, muitas vezes era ele quem pagava a conta. Mas seria um erro imaginar um jovem simplesmente vazio e superficial. Havia nele alguma coisa maior. Francisco queria viver intensamente. Não suportava a mediocridade. Se fosse para fazer uma festa, queria a melhor festa; se fosse para vestir-se, queria vestir-se bem; se fosse para sonhar, queria sonhar grande. E seu maior sonho era tornar-se cavaleiro.
O filho do comerciante queria subir. Queria deixar de ser apenas Francisco Bernardone, filho de um vendedor de tecidos, para tornar-se alguém importante. Queria glória, aventuras, batalhas, brasões, histórias para contar. Queria que as pessoas um dia pronunciassem seu nome com admiração. Francisco queria ser grande. E Deus também queria que Francisco fosse grande. O problema é que os dois ainda não entendiam a grandeza da mesma maneira.
2. Perugia: quando os sonhos encontram uma prisão
Quando chegou a guerra contra Perugia, Francisco encontrou finalmente uma oportunidade de provar quem era. Aquilo tinha tudo para alimentar seus sonhos: armas, cavalos, companheiros, coragem, combate. O jovem que cantava pelas ruas agora poderia mostrar que também sabia lutar. Francisco partiu, mas a guerra não teve nada da beleza que os sonhos de cavalaria prometiam. Assis foi derrotada. Muitos morreram, outros fugiram, e os que tinham valor econômico suficiente para serem conservados como reféns foram capturados. Entre eles estava Francisco.
O jovem das festas entrou nas masmorras de Perugia. É difícil imaginar o impacto dessa mudança. Pouco antes, ruas, música, amigos, vinho, serenatas e projetos de glória; agora, pedra, umidade, mau cheiro, homens feridos, medo, doença e monotonia. As portas estavam fechadas. Não havia para onde correr. Francisco, que sempre vivera voltado para fora, foi obrigado a permanecer dentro: dentro da prisão e, pouco a pouco, dentro de si mesmo.
Os dias passaram, depois semanas, depois meses. A prisão começou a desmontar alguma coisa naquele jovem. Não destruiu imediatamente seus sonhos, mas abriu uma rachadura. Francisco continuava sendo Francisco. Ainda conseguia brincar e encorajar os companheiros. Sua natureza alegre não desapareceu. Mas já não era possível olhar a vida exatamente como antes. A guerra mostrara sua verdadeira face. A glória tinha cheiro de sangue. Os grandes projetos podiam terminar atrás de uma porta fechada. E o jovem que sonhava conquistar o mundo descobriu, pela primeira vez, que não era dono nem sequer do dia seguinte.
Francisco permaneceu aproximadamente um ano prisioneiro. Um ano é muito tempo quando se tem vinte e poucos anos. Quando finalmente recuperou a liberdade e voltou para Assis, encontrou as mesmas ruas, a mesma casa, os mesmos negócios, os mesmos amigos. A cidade era praticamente a mesma, mas Francisco não era exatamente o mesmo. Ainda não estava convertido. Ainda queria divertir-se. Ainda sonhava com cavalaria. Ainda desejava ser alguém. Mas uma pergunta havia entrado nele, e certas perguntas, quando entram realmente no coração, nunca mais vão embora: “O que estou fazendo com a minha vida?”
3. Spoleto: a primeira grande conversão
É difícil compreender Francisco sem compreender a noite de Spoleto. Até ali, Deus já o vinha trabalhando. A prisão de Perugia, a doença, as inquietações e aquela estranha insatisfação que começava a aparecer no meio de tantas alegrias tinham aberto rachaduras em seu antigo mundo. Mas Francisco ainda resistia. Continuava procurando fora aquilo que Deus começava a despertar dentro dele. E ainda agarrava com força seu grande sonho: ser cavaleiro, conquistar glória, voltar para Assis como um vencedor.
Naquela noite, porém, a resistência cedeu. Francisco percebeu uma pergunta que atingiu diretamente o centro de seus sonhos: quem poderia fazer mais por ele, o senhor ou o servo? Naturalmente respondeu: “O senhor.” E então surgiu a pergunta decisiva: “Por que, então, abandonas o Senhor para seguir o servo?”
Era como se, de repente, todas as peças começassem a se encaixar. Francisco queria servir a grandes senhores para tornar-se grande, e Deus lhe perguntava: “Por que não serves a Mim?” Não sabemos explicar completamente aquilo que aconteceu naquela noite. Existem momentos em que Deus não entrega simplesmente uma nova ideia: entrega uma certeza. A pessoa ainda não sabe o que fará amanhã, mas sabe que já não poderá continuar vivendo como ontem. Foi isso que aconteceu em Spoleto.
Francisco não sabia ainda que seria pobre, que abraçaria leprosos, que reconstruiria São Damião, que teria irmãos, que Clara entraria em sua vida e que um dia carregaria no próprio corpo as feridas de Cristo. Para ele, nada estava claro; mas, no fundo, tudo estava decidido. A direção de sua vida havia mudado.
E então chegou a parte mais difícil: era preciso voltar. Obedecer àquela voz significava interromper a expedição justamente quando ela estava começando e regressar a Assis sem ter conquistado nada. Para nós, hoje, isso pode parecer apenas uma mudança de planos. Para Francisco, porém, era uma humilhação enorme.
Ele havia saído publicamente como aspirante a cavaleiro, equipado para a guerra, cheio de sonhos e provavelmente também de orgulho. Agora deveria despedir-se dos companheiros e voltar sozinho. O que eles pensariam? O que diriam os jovens de Assis? O que diria seu pai, Pedro Bernardone, que depositava nele tantos sonhos de grandeza? E os vizinhos? Larrañaga imagina justamente esse drama interior: poderiam chamá-lo de louco, frívolo ou, pior ainda, desertor. E, para um homem que sonhava com a honra cavalheiresca, poucas acusações poderiam ser mais vergonhosas. Francisco, tão sensível à própria imagem e à admiração dos outros, teria de atravessar a cidade carregando sobre si a aparência de um fracassado.
É aqui que acontece sua primeira grande conversão. Francisco ainda não entregou o dinheiro, ainda não abraçou definitivamente a pobreza e ainda não ficou nu diante do bispo. Mas começa a entregar algo talvez ainda mais precioso para aquele jovem: sua honra, sua imagem e o sonho de ser admirado. Pela primeira vez, prefere obedecer ao Senhor a conservar diante dos homens a imagem que havia construído de si mesmo. Até o dia anterior, segundo a leitura de Larrañaga, suportar semelhante humilhação teria sido quase impossível. Depois daquela noite, porém, algo novo nasceu dentro dele: a liberdade. Podiam rir. Podiam julgá-lo. Podiam chamá-lo de covarde ou desertor. A opinião dos outros já não tinha o mesmo poder sobre ele. Havia encontrado um Senhor maior.
Na manhã seguinte, Francisco despediu-se dos companheiros e tomou sozinho o caminho de volta. Cada quilômetro em direção a Assis era, de certo modo, um passo para longe do antigo Francisco. E aquilo que temia realmente aconteceu. Quando apareceu novamente pelas ruas da cidade, começou a incredulidade; depois vieram os comentários, a ironia, a zombaria e até o sarcasmo. O jovem que partira sonhando voltar coberto de glória regressava sem batalha, sem título e sem vitória. Mas Larrañaga percebe nessa aparente derrota exatamente o contrário: “A liberdade havia amanhecido.”
Por isso, Spoleto é muito mais do que uma voz escutada durante a noite. É a primeira grande conversão de Francisco, porque é a primeira vez que ele aceita perder alguma coisa importante por causa de Deus. Mais tarde entregará o dinheiro, as roupas, a casa, a segurança, seus próprios projetos e até a Ordem. Mas a escola do despojamento começa aqui. Em Spoleto, Francisco começa entregando aquilo que talvez mais amasse naquele momento: o sonho de sua própria grandeza. Antes daquela noite perguntava: “Como posso tornar-me grande?” Depois dela começa uma pergunta completamente diferente: “Senhor, o que queres que eu faça?”
4. Quando as festas já não conseguem preencher o coração
Francisco voltou para Assis e aconteceu algo curioso: externamente, tentou retomar sua vida. Os amigos continuavam gostando dele. Voltaram a procurá-lo e, mais uma vez, Francisco foi colocado no centro das festas. Voltou a cantar, brincar e caminhar pelas ruas com os companheiros. Só que agora alguma coisa não funcionava. Ele ria, mas uma parte dele estava longe. Cantava, mas outra música havia começado dentro dele. Participava das brincadeiras, mas aquilo que antes o preenchia começava a parecer vazio. Não eram as festas que tinham mudado. Francisco tinha mudado.
O coração visitado por Deus começa a encontrar pouco aquilo que antes parecia muito.
Numa dessas noites, depois de um grande banquete, os jovens saíram novamente pelas ruas de Assis, cantando e fazendo festa. Francisco, como tantas vezes, estava à frente. Era o capitão daquela alegre tropa. Em determinado momento, porém, parou.
Os amigos continuaram e Francisco ficou para trás, imóvel, silencioso, como se alguma coisa o envolvesse. Quando perceberam sua ausência, voltaram e começaram a provocá-lo: “Francisco, está pensando em casar?” Ele respondeu que sim. Havia encontrado uma esposa mais nobre, mais rica e mais bela do que qualquer outra que eles conhecessem. Os amigos riram. Não podiam imaginar que o antigo trovador estava começando a apaixonar-se por outra beleza.
Francisco passou a procurar a solidão. Entrava em grutas, afastava-se dos amigos, rezava longamente. Às vezes chorava. Não sabia ainda exatamente o que Deus queria. Apenas sabia que precisava encontrá-Lo. E então Deus colocou no caminho de Francisco justamente aquilo de que ele mais queria fugir.

5. O leproso: aquilo que era amargo torna-se doce
Francisco tinha horror aos leprosos. Não era apenas medo da doença. A visão deles provocava-lhe repugnância. Quando percebia um leproso pelo caminho, afastava-se. Aquele jovem que podia ser generoso com os pobres ainda encontrava aqui uma fronteira que não conseguia atravessar. Até que um dia encontrou um leproso. O primeiro movimento de Francisco foi o de sempre: fugir. Mas agora havia outro Francisco dentro de Francisco. Desceu do cavalo e aproximou-se. A distância foi diminuindo. Aquilo que durante anos lhe provocara repugnância estava diante dele: um homem ferido, deformado, rejeitado, sozinho. Francisco deu-lhe uma esmola, mas não bastava.
Aproximou o rosto e o beijou.
Alguma coisa se rompeu naquele instante. Mas é importante perceber que não se tratou simplesmente de um belo gesto de solidariedade.
O próprio Francisco, quase no fim da vida, quando quis explicar aos irmãos como sua conversão havia começado, não falou primeiro de São Damião, das pregações, da fundação da Ordem ou dos estigmas. Começou pelos leprosos:
“O Senhor assim deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, como estava em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo.” (Testamento 1-3).
Larrañaga chama a atenção para uma coisa fundamental nessas palavras: Francisco não diz “eu fui aos leprosos e encontrei Deus”. Diz exatamente o contrário: “O Senhor me conduziu entre eles.”
Primeiro Francisco encontrou o Senhor; depois foi o Senhor quem o tomou, por assim dizer, pela mão e o levou até aquilo de que mais sentia repugnância. Para Larrañaga, ninguém procura espontaneamente aquilo que lhe causa nojo e sofrimento. Para abraçar justamente aquilo de que naturalmente fugiria, o homem precisa estar profundamente conquistado por Alguém. É esse amor por Cristo que começa a transformar o amargo em doce.

Por isso, depois daquele primeiro encontro, Francisco não se contentou em dizer: “Venci meu medo”. Voltou aos leprosos.
Procurou a colônia de San Salvatore delle Pareti e começou a conviver com aqueles homens. Larrañaga o descreve olhando-os nos olhos, aproximando-se deles, lavando-lhes os pés, tratando e enfaixando suas feridas. São Boaventura confirma o núcleo histórico dessa experiência: Francisco visitava frequentemente os leprosários, dava esmolas aos enfermos e os tratava com extraordinária humildade e ternura. Outras fontes primitivas chegam a dizer que ele permaneceu entre eles, servindo-os cuidadosamente.
Agora podemos entender melhor a expressão surpreendente do Testamento: “aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo.” Larrañaga insiste justamente nesse detalhe: Francisco não diz apenas “doçura da alma”, como se tivesse realizado um sacrifício desagradável, mas espiritualmente meritório. Diz também “do corpo”. Aqueles mesmos homens cuja visão anteriormente lhe provocava repugnância tornaram-se fonte de uma profunda ternura. Para Larrañaga, aconteceu uma verdadeira transformação interior: Francisco não estava simplesmente reprimindo sua repugnância por força de vontade; o amor estava transformando sua sensibilidade. Aquilo que antes queria evitar tornou-se aquilo que agora desejava abraçar.
E existe uma confirmação belíssima de que essa transformação não foi passageira. Muitos anos depois, quando Francisco já estava doente, cansado, marcado pelos estigmas e próximo da morte, seu coração voltou justamente ao começo. São Boaventura afirma que ele “ardia num grande desejo de voltar aos princípios da humildade, para servir novamente aos leprosos, como no começo” (Legenda Menor, VII,1,4). Tomás de Celano conserva a mesma lembrança com palavras ainda mais fortes: “Queria voltar a servir os leprosos e ser desprezado, como antigamente” (1 Celano 103,8).
É extraordinário. No início, Francisco fugia dos leprosos. No fim, sentia saudades deles. No início, aproximar-se de um leproso parecia-lhe quase insuportável; no final, já velho e doente, desejava voltar a servi-los. Os leprosos, portanto, não foram um pequeno episódio na conversão de Francisco. Foram uma espécie de porta pela qual Deus o fez entrar numa vida nova. Por isso, quando Francisco está perto da morte e olha para trás, volta justamente àquela porta. Foi ali que aprendeu uma das grandes leis de sua vida: quando o amor por Cristo nos leva a atravessar aquilo de que nosso egoísmo foge, o amargo pode transformar-se em doce.
6. São Damião e o grande despojamento
Francisco continuava procurando. Um dia entrou na pequena igreja de São Damião, quase em ruínas. Ali, diante do Crucificado, rezou e percebeu um chamado: “Francisco, reconstrói a minha casa.” Olhou ao redor. A igreja estava realmente caindo. Francisco fez aquilo que seu temperamento impulsivo sabia fazer muito bem: começou imediatamente. Pegou tecidos do comércio do pai, vendeu-os e tentou usar o dinheiro para restaurar a igreja.
Pedro Bernardone explodiu. Para ele, aquilo já era demais. Seu filho, que deveria continuar seus negócios, primeiro sonhara com guerras; depois voltara da expedição; agora passava tempo rezando, aproximava-se de leprosos e, pior ainda, mexia no patrimônio da família para sustentar suas loucuras religiosas. O conflito entre pai e filho chegou ao limite. Pedro queria seu dinheiro de volta. Queria também seu filho de volta. Mas o filho que estava diante dele já não era o mesmo.
A cena decisiva aconteceu diante do bispo de Assis. De um lado estava Pedro Bernardone; do outro, Francisco. Ao redor, pessoas observando. O pai exigia aquilo que lhe pertencia. Estava ferido, irritado, talvez humilhado. Durante anos havia trabalhado para construir um patrimônio e agora aquele filho parecia desprezar tudo. Francisco ouviu e tomou uma decisão extrema: se o problema era aquilo que pertencia ao pai, devolveria tudo.
Entregou o dinheiro, mas não parou. Começou a tirar as roupas, uma peça depois da outra, até ficar nu diante de todos. Imagine a praça. Imagine o silêncio. Imagine Pedro Bernardone olhando para o próprio filho. Imagine o bispo e os curiosos. O jovem que gostava tanto de roupas elegantes, que havia desfilado pelas ruas de Assis e que queria ser admirado, agora estava nu diante da cidade. Não tinha mais nada. Francisco devolveu as roupas ao pai e declarou que, até aquele momento, havia chamado Pedro Bernardone de pai; a partir daquele momento poderia dizer com liberdade: “Pai nosso que estais nos céus.”
O bispo aproximou-se e cobriu Francisco com seu manto. A cena é fortíssima. Francisco perde as roupas e é coberto pela Igreja; perde a segurança do pai terreno e abandona-se ao Pai do céu; perde aquilo que possuía e começa a descobrir quem é. Na praça de Assis morreu definitivamente o filho rico que sonhava subir. Nascia o pobre. Mas ainda havia uma pobreza muito maior esperando Francisco. Um dia Deus lhe pediria não somente dinheiro, roupas e posição social. Pediria até mesmo que entregasse a obra que havia construído para Ele.
7. “É isso que eu quero!”: nascem os irmãos
Francisco começou a reconstruir igrejas com as próprias mãos. Trabalhou em São Damião e em outros pequenos santuários. Pedia pedras, carregava material, trabalhava como um pobre. Até que, certo dia, ouvindo o Evangelho, encontrou as palavras de Jesus enviando os discípulos: não levar ouro nem prata, não colocar a segurança nas coisas, anunciar o Reino e caminhar confiando em Deus. Francisco explodiu de alegria: era aquilo! Finalmente tinha encontrado a forma de vida que procurava. Não precisava inventar um sistema ou criar uma teoria. Precisava viver o Evangelho.
E começou. Mas uma vida assim chama atenção. Bernardo de Quintavalle começou a observá-lo. Outros também. Quem era aquele homem? Louco? Fanático? Ou alguém que havia encontrado alguma coisa que todos procuravam? Bernardo decidiu segui-lo. Depois veio Pedro Cattani, depois Egídio, depois outros. Francisco não saiu procurando discípulos. Os irmãos apareceram. De repente, aquele homem que queria apenas seguir Jesus descobriu que outros queriam seguir Jesus com ele. Nascia uma fraternidade. E enquanto os irmãos aumentavam, alguém observava aquela aventura de uma janela diferente. Era uma jovem nobre de Assis. Chamava-se Clara.
8. Clara: uma amizade que não prende, mas conduz a Deus
Clara pertencia a outro mundo social. Sua família tinha posição, patrimônio e projetos para ela. Seu futuro parecia previsível: casamento, família, segurança. Mas Clara começou a ouvir falar de Francisco. Era impossível não ouvir. Assis era pequena. Todos conheciam a história do filho de Bernardone que havia enlouquecido por Deus: o jovem das festas, o prisioneiro de Perúsia, o aspirante a cavaleiro que voltara de Spoleto, o homem que ficara nu diante do pai, o amigo dos leprosos, o pobre que agora arrastava outros jovens atrás de si. Clara escutava, e alguma coisa ardia dentro dela.
Os dois começaram a encontrar-se discretamente para conversar. É importante não transformar essa relação numa história sentimental, mas também seria errado esvaziá-la de sua extraordinária profundidade humana. Francisco e Clara se amaram profundamente. Só que esse amor possuía uma característica muito especial: nenhum dos dois procurava trazer o outro para si. Francisco apontava para Cristo. Falava a Clara de Jesus pobre, do Evangelho, da liberdade, de uma vida sem outras seguranças. E Clara compreendeu. Talvez Francisco tenha sido para ela a prova viva de que aquilo que parecia impossível podia ser vivido. Era possível deixar tudo. Era possível ser livre. Era possível escolher Cristo. Era possível viver pobre entre os pobres. Francisco acendeu uma chama.
Chegou o Domingo de Ramos de 1212. Naquele dia, Clara apareceu na igreja vestida com toda a elegância de uma jovem de sua condição. Era quase como uma despedida silenciosa. À noite, porém, tudo mudou. Clara saiu de casa. Deixou para trás a família, a segurança e o futuro que outros haviam preparado para ela. Francisco e os irmãos a esperavam.
Aquela noite teve para Clara alguma coisa daquilo que Spoleto tivera para Francisco: havia um antes e haveria um depois. Seus cabelos foram cortados e as roupas nobres foram substituídas por uma veste pobre. Depois de algumas etapas, estabeleceu-se justamente em São Damião.
Francisco havia reconstruído aquela pequena igreja com pedras; agora Clara começaria ali outra construção. Vieram outras jovens e nasceu uma comunidade.
Francisco percorria as estradas; Clara permanecia em São Damião. Francisco anunciava; Clara contemplava. Francisco atravessava cidades e campos; Clara permanecia diante de Deus. Não eram duas aventuras diferentes. Era o mesmo fogo assumindo duas formas. E algo ainda mais profundo começou a acontecer. Francisco havia despertado Clara para sua vocação, mas, com o passar dos anos, Clara amadureceu, tornou-se forte, segura, profundamente enraizada em Deus. Um dia seria ela quem ajudaria Francisco.
9. Quando a própria obra se torna a última coisa a abandonar
A fraternidade cresceu de maneira impressionante. Primeiro alguns, depois dezenas, centenas, milhares. E aquilo que parecia uma bênção começou também a tornar-se uma enorme provação para Francisco. Enquanto eram poucos, tudo era simples. Podiam caminhar juntos, conversar, trabalhar, rezar, corrigir-se. Agora havia irmãos que Francisco nem conhecia. Surgiam novas necessidades: organização, casas, estudos, normas, autoridade, relações com a Igreja. E apareciam interpretações diferentes sobre a pobreza.
Francisco começou a sofrer. Ele havia recebido uma inspiração tão simples: viver o Evangelho pobre de Jesus pobre. Agora via a obra tornar-se enorme, complexa e pesada. E tentou segurá-la. Esse foi seu novo perigo. Francisco já não estava agarrado ao dinheiro, às roupas, ao prestígio ou à família, mas podia estar agarrado a algo muito mais espiritual: sua própria obra para Deus. E talvez seja muito mais difícil abandonar uma obra feita para Deus do que abandonar dinheiro.
Francisco entrou em crise. Sofreu, chorou, procurou novamente a solidão. Aquele homem que havia ensinado liberdade aos outros começava a perder a própria liberdade porque sofria demais com aquilo que estava acontecendo com sua Ordem. E então Clara apareceu novamente.
10. Clara devolve Francisco a Deus
Agora os papéis estavam quase invertidos. Anos antes, Clara era a jovem inquieta que precisava de Francisco para descobrir seu caminho. Agora era Francisco quem precisava ser ajudado. Clara conhecia aquele homem, conhecia sua enorme sensibilidade, sabia quanto amava os irmãos e justamente por isso compreendeu onde estava sua ferida. Francisco havia abandonado tudo para que Deus fosse tudo, mas agora estava sofrendo desesperadamente porque sua obra não seguia exatamente o caminho que ele desejava.
Clara foi ao ponto central. Se alguma coisa conseguia roubar a paz de Francisco daquela maneira, então ainda havia alguma coisa que ele precisava entregar. Dinheiro? Já tinha entregado. Família? Também. Prestígio? Há muito tempo. Sua própria vontade? Era exatamente ali que Deus o esperava. Francisco precisava entregar Francisco. Precisava deixar de considerar sua a obra que sempre fora de Deus.
Clara o conduziu novamente àquela verdade fundamental: “Deus é, e basta.”
Não “Deus e a minha Ordem”. Não “Deus e o meu projeto”. Não “Deus e os irmãos vivendo exatamente como imaginei”. Somente Deus. E basta.
Francisco havia ajudado Clara a deixar tudo. Agora Clara ajudava Francisco a realizar um despojamento ainda mais profundo: entregar sua própria obra. Ela fez com Francisco aquilo que Francisco fizera com ela muitos anos antes: não o prendeu a si; devolveu-o a Deus. Esse talvez seja o segredo mais bonito da amizade entre os dois. Francisco nunca quis possuir Clara. Clara nunca quis possuir Francisco. Um não ocupou o lugar de Deus no coração do outro. Ao contrário: um ajudou o outro a deixar Deus ocupar todo o espaço. Francisco acendeu a chama de Clara e, quando os ventos das provações quase apagaram a chama de Francisco, Clara protegeu o fogo do amigo. Isso é amizade espiritual: não duas pessoas olhando continuamente uma para a outra, mas duas pessoas que, porque se amam verdadeiramente, ajudam-se a olhar na mesma direção.
11. Laverna: o cavaleiro recebe as marcas de outro Rei
Francisco envelheceu cedo. Seu corpo estava destruído. Doenças, viagens, jejuns, privações e sofrimentos haviam deixado marcas profundas. Seus olhos doíam terrivelmente, o estômago lhe causava problemas e as forças diminuíam. Mas ainda faltava uma experiência. Francisco subiu ao Monte Laverna. Ali queria permanecer diante de Deus. Não tinha mais sonhos de cavalaria, não precisava fundar nada nem provar nada. Queria Jesus.
E fez um pedido assustador. Antes de morrer, desejava conhecer, na medida em que uma criatura humana pudesse suportar, duas coisas: a dor que Cristo experimentara na Paixão e o amor com que Cristo havia aceitado aquela dor.
Dor e amor. As duas coisas juntas. Porque a cruz sem amor seria apenas tortura, e o amor sem entrega poderia transformar-se apenas em sentimento. Francisco queria entrar no mistério do Crucificado.
Em Laverna aconteceu aquilo que parecia resumir toda a sua vida. Apareceram em seu corpo as marcas da Paixão: mãos, pés, lado. Os estigmas. O jovem que sonhava trazer no corpo a armadura e os sinais de um cavaleiro terminava trazendo no corpo os sinais de Jesus crucificado. Que caminho! Francisco quis ser cavaleiro e tornou-se cavaleiro de outro Rei. Quis receber glória e recebeu feridas. Quis conquistar o mundo e terminou conquistado por Deus.
12. O homem quase cego que cantava o sol
Depois de Laverna, Francisco estava cada vez mais doente. Seus olhos mal suportavam a luz. Em determinados períodos, vivia quase na escuridão. E justamente esse homem quase cego compôs um cântico cheio de luz. Louvou Deus pelo irmão Sol, pela irmã Lua, pelas estrelas, pelo vento, pela água, pelo fogo e pela mãe e irmã Terra. Há algo extraordinário nisso. Quando Francisco tinha tudo, queria possuir ainda mais. Agora que quase não possuía nada, tudo lhe pertencia como dom.
Não precisava possuir o sol para chamá-lo de irmão. Não precisava possuir a água, a terra, os animais ou as pessoas. A pobreza havia aberto suas mãos. E mãos abertas não seguram nada, mas podem receber tudo. No fim, Francisco conseguiu acolher até aquela realidade diante da qual todo ser humano treme: a morte. Chamou-a de irmã. A morte já não podia roubar-lhe nada. Francisco havia passado a vida inteira entregando. O que a morte poderia tirar de um homem que já havia colocado tudo nas mãos do Pai?
13. Nu sobre a terra
Quando percebeu que seus dias estavam terminando, Francisco quis voltar para a Porciúncula. Ali estava uma das raízes de sua história. Ali queria morrer. Os irmãos estavam ao seu redor. Então Francisco pediu uma coisa estranha: queria ser colocado nu sobre a terra.
E a história parece fechar um círculo. Muitos anos antes, na praça de Assis, diante do pai e do bispo, Francisco havia tirado suas roupas. Naquele dia, sua nudez significava: “Não quero mais nada para mim.” Agora, no fim da vida, novamente nu sobre a terra, seu corpo dizia: “Não tenho mais nada.” Na praça havia entregado dinheiro, roupas, herança e segurança. Depois entregara seus projetos, seu futuro, sua reputação, sua Ordem, sua saúde. Agora entregava a última coisa que ainda possuía: a própria vida.
Pediu que lessem o Evangelho, abençoou os irmãos e esperou. O antigo rei das festas de Assis estava deitado nu sobre a terra. O jovem que queria que todos olhassem para ele agora só queria olhar para Deus. O trovador que cantava serenatas pelas ruas tinha encontrado finalmente a grande canção de sua vida. O cavaleiro que sonhava com brasões trazia no corpo cinco feridas. O filho do rico comerciante morria sem possuir sequer a roupa que cobria seu corpo. Francisco havia perdido tudo? Não. Agora possuía aquilo que procurara a vida inteira.
14. “Deus é, e basta”
Talvez possamos compreender toda a aventura de Francisco olhando para aquilo que Deus foi retirando de suas mãos. Primeiro, a ilusão da glória: Perugia abriu a primeira ferida. Depois, o grande sonho da cavalaria: Spoleto mudou a direção de sua vida. Depois vieram o dinheiro, as roupas e a segurança familiar: na praça de Assis, Francisco ficou nu. Depois vieram seus medos e repugnâncias: o leproso tornou-se irmão. Depois veio a própria vontade: Francisco descobriu que seguir Jesus não era apenas fazer grandes coisas para Ele, mas permitir que Deus conduzisse sua vida. Depois vieram os irmãos e, com eles, a tentação mais delicada: possuir espiritualmente aquilo que havia nascido através dele. Foi preciso Clara ajudá-lo a abrir novamente as mãos. Finalmente vieram a saúde e a própria vida.
Deus foi tirando tudo. Não porque quisesse deixar Francisco vazio, mas porque queria enchê-lo de Si. No início da vida, Francisco tinha muitas coisas e queria ainda mais. No final, já não tinha quase nada e parecia possuir o universo inteiro. Chamava o sol de irmão, a lua de irmã, a água de irmã, a terra de mãe, os pobres de irmãos, os leprosos de irmãos. Clara era irmã. Os frades eram irmãos. Até a morte tornou-se irmã. Porque, quando Francisco deixou de possuir, descobriu que podia finalmente receber tudo como presente.
E talvez a frase que melhor resuma toda essa longa aventura seja aquela que Clara ajudou Francisco a redescobrir: “Deus é, e basta.” Francisco demorou uma vida inteira para aprender isso.
Na juventude, precisava de Deus e das festas; depois, de Deus e da cavalaria; mais tarde, de Deus e de seus projetos; depois, de Deus e de sua fraternidade, até descobrir que a verdadeira liberdade começa quando cai o último “e”. Não “Deus e…”, mas simplesmente Deus. E basta. Foi assim que Francisco, que passara a juventude inteira querendo tornar-se alguém, tornou-se finalmente São Francisco de Assis.
Fonte
Ignacio Larrañaga, O Irmão de Assis.
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