
10 ott 2026
☀️ Santo do dia: SÃO DANIEL COMBONI
“Ou África ou morte”
Daniel Comboni nasceu em Limone sul Garda, no norte da Itália, em 15 de março de 1831. Seus pais, Luigi e Domenica, eram trabalhadores pobres. Dos oito filhos da família, quase todos morreram ainda pequenos. Daniel cresceu conhecendo de perto a pobreza, a morte e uma fé cristã muito simples. Ainda adolescente foi estudar em Verona, no instituto fundado pelo sacerdote Nicola Mazza, onde começou a conhecer a situação da África Central. As notícias que chegavam não falavam de aventuras românticas, mas de distâncias imensas, doenças, escravidão, pobreza e missões que perdiam continuamente seus missionários. Daniel decidiu entregar sua vida àquela missão. Foi ordenado sacerdote em 1854 e, três anos depois, em 1857, com apenas 26 anos, partiu pela primeira vez para a África Central.
Depois de uma viagem duríssima, chegou com seus companheiros a Cartum, no atual Sudão, no início de 1858, e dali seguiu para a missão de Santa Cruz, no interior. Foi então que o sonho encontrou a realidade: calor extremo, malária, febres, falta de alimentos, viagens intermináveis, isolamento. Os missionários adoeciam e morriam. Comboni viu companheiros desaparecerem um depois do outro. Aquele projeto parecia humanamente impossível. Mas justamente nesse ambiente amadureceu nele uma determinação que ficou resumida numa expressão que marcaria sua vida:
“O Nigrizia o morte!” — “Ou África, ou a morte!”
Não significava procurar a morte. Significava não abandonar aquele povo simplesmente porque a missão havia se tornado terrivelmente difícil. A situação, porém, tornou-se tão grave que os superiores decidiram retirar os missionários e, em 1859, Comboni precisou voltar para a Europa. Sua primeira grande experiência missionária terminava aparentemente em fracasso.
Comboni, porém, não abandonou a África. Durante os anos seguintes procurou compreender por que tantos esforços missionários terminavam da mesma maneira. Mandar continuamente europeus para o interior africano, sem uma estratégia adequada, significava assistir à morte de muitos deles. Era necessário outro caminho.
Em 1864, enquanto rezava em Roma junto ao túmulo de São Pedro, amadureceu a grande intuição que daria forma ao restante de sua vida: o Plano para a Regeneração da África. A ideia fundamental poderia ser resumida numa frase: “Salvar a África com a África.” Os africanos não poderiam ser apenas destinatários da evangelização. Precisavam tornar-se seus protagonistas. Era necessário formar sacerdotes, catequistas, professores, famílias cristãs e agentes locais capazes de evangelizar os próprios povos. Comboni começou então a percorrer a Europa, falando com bispos, procurando benfeitores, escrevendo cartas, pedindo dinheiro e tentando convencer a Igreja de que a África Central não poderia ser abandonada. Em 1867, fundou em Verona o instituto missionário que daria origem aos atuais Missionários Combonianos. Posteriormente organizou também o ramo feminino, as Pias Madres da Nigrícia, hoje Missionárias Combonianas.
Comboni voltou à África. Em 1877, foi nomeado Vigário Apostólico da África Central e consagrado bispo. Ao chegar novamente entre seu povo, pronunciou palavras que resumiam sua maneira de compreender o episcopado: “Eu volto entre vós para nunca mais deixar de ser vosso.” E prometeu: “O dia e a noite encontrar-me-ão sempre igualmente pronto para as vossas necessidades espirituais.” Ele não queria governar a África de longe. Queria estar ali, no calor, nas viagens, entre os missionários, os africanos, os pobres e os doentes. Não imaginava que, pouco tempo depois, essa promessa seria levada quase literalmente até o limite.
“Nunca tínhamos tido tantos mortos”
Em 1878, uma enorme carestia atingiu a região. Faltava comida, os preços aumentaram violentamente e a população enfraquecida começou a ser atingida pelas doenças. Depois vieram as chuvas e as febres. A epidemia entrou também nas casas da missão.
Comboni descreveu aquilo que estava vendo: “Mais do que tudo, encheu-me de indizível dor e dilacerou-me o coração a alta mortalidade entre os principais membros da missão.” (Scritti, 5632).
E continuou: “Todos os membros da missão de Cartum foram atingidos, em setembro, por febres violentas e acometidos por outras graves doenças.” (Scritti, 5632).
Sacerdotes, irmãos leigos, seminaristas, jovens africanos, religiosas, professoras e meninas dos institutos adoeceram. As casas missionárias mudaram completamente de aspecto: “As duas grandes casas da missão em Cartum tinham-se transformado em dois hospitais.” (Scritti, 5633).
Muitos missionários já não conseguiam trabalhar. Alguns precisaram ser enviados para outros lugares na tentativa de salvá-los. Outros estavam morrendo. Comboni ficou praticamente sozinho como sacerdote em Cartum: “Eu era o único sacerdote que, com a ajuda de Irmã Germana, de dia e de noite, dentro e fora da missão, prestava socorro aos doentes e aos moribundos.” (Scritti, 5633).
Em uma carta de 24 de outubro de 1878, resumiu ainda mais brutalmente a situação: “Aqui de padres estou sozinho, e faço de bispo, pároco, superior, padreco, médico, enfermeiro e coveiro.”
Não era uma maneira de falar. Era aquilo que fazia todos os dias. Os doentes precisavam ser cuidados, os moribundos precisavam dos sacramentos e os mortos precisavam ser enterrados. Comboni corria de um lado para outro: “Estava sempre em movimento, caminhava de dia e de noite e, durante quatro meses, não pude dormir senão uma hora em vinte e quatro.” (Scritti, 5634).
Às vezes faltava até comida para os enfermos: “Em certos dias faltava-me caldo de carne para os doentes e moribundos.” Mandava procurar uma galinha ou um pombo em Cartum e nas aldeias vizinhas, mas não encontravam nada.
Então seus companheiros começaram a morrer. O padre Policarpo Genoud foi atingido pelo tifo e morreu rapidamente. Morreram também Ferdinando Bassanetti, Lazzaro, Augusto Serrarcangeli e Antonio Iseppi, colaboradores da missão. Entre as religiosas morreu Irmã Enrichetta, com apenas 26 anos, depois de ter cuidado dos enfermos atingidos pelas doenças contagiosas.
Durante sua agonia repetia: “Tout pour Vous, mon Jésus” — “Tudo por Vós, meu Jesus.” Morreram também jovens africanos acolhidos e formados pela missão. Mais tarde Comboni resumiria aquele período numa frase dolorosa: “Nunca tínhamos tido tantos mortos.”
Entre seus colaboradores mais próximos estava o padre Antonio Squaranti, administrador geral da missão, a quem Comboni chamava de “meu vigário e administrador-geral e braço direito da minha obra.” Para tentar protegê-lo da epidemia, Comboni o havia enviado para Berber. Ali Squaranti recuperou as forças. Mas, quando soube que os missionários estavam morrendo em Cartum e que Comboni havia ficado praticamente sozinho para administrar os sacramentos, decidiu voltar para ajudá-lo. Durante a viagem adoeceu. Seu quinino havia acabado porque ele próprio o dera aos doentes que encontrara pelo caminho.
Chegou a Cartum gravemente enfermo. Comboni recordaria: “Ao vê-lo tão emagrecido e consumido pelo processo mortal de apenas quatro dias de febre, fiquei espantado.” Tentaram salvá-lo: “Desdobrámos toda a solicitude para rodeá-lo de amorosos cuidados, consultando médicos, utilizando os medicamentos mais eficazes e nada poupando para proporcionar-lhe alívio e prolongar-lhe a existência.”
Não adiantou. Comboni escreveu: “Depois de doze dias desde que chegou a Cartum [...] às sete da noite de 16 de novembro de 1878, voou para o seio do seu Criador.” E compreendeu perfeitamente por que Squaranti tinha morrido: “O heroísmo da sua caridade, ao querer correr em meu auxílio no cenário das mais tremendas calamidades, para sacrificar-se inteiramente pela salvação das almas [...] foi o que lhe causou a morte.” Sua perda, escreveu, “mergulhou-nos a todos num mar de desolação e de dor.”
A epidemia atingiu também o próprio Comboni. Seu corpo começou a ceder. Mas, quando escreveu sobre aqueles meses, não terminou dizendo que a missão deveria ser abandonada. Pelo contrário: “O coração do missionário católico ficou abalado; contudo, não deve por isso perder a coragem; a força, a coragem e a esperança não podem jamais abandoná-lo.” E chegou à conclusão que reapareceria continuamente nos últimos anos de sua vida:
“As obras do Senhor, e especialmente as do apostolado,
devem nascer e crescer aos pés do Calvário,
e sua história se resume nestas duas palavras: cruz e martírio.”
Depois acrescentou: “A cruz é o caminho real pelo qual deve passar quem deseja alcançar o triunfo!”
No ano seguinte ainda precisava reconstruir uma missão devastada e pagar “uma parte das dívidas que fomos forçados a contrair para não morrer”. Humanamente havia motivos suficientes para desistir. Comboni, porém, escreveu que sentia dentro de si “uma coragem de leões”. E olhando para seus missionários depois de tudo aquilo, declarou:
“Todas as desgraças e acontecimentos dolorosos não puderam, contudo, desencorajar nem abater, nem sequer por um instante, o espírito dos operários evangélicos.”
Pelo contrário:
“O nosso zelo aumentou, as nossas esperanças reavivaram-se novamente, e permanecemos, sem vacilar, firmes no caminho iniciado, fiéis ao nosso grito de guerra: ‘Ou a África ou a morte!’”
A última viagem
Os anos seguintes não foram mais fáceis. A missão continuava enfrentando falta de recursos, doenças, enormes distâncias e dificuldades internas. Comboni viajava continuamente entre a Europa, o Egito e a África procurando missionários e dinheiro para manter a obra viva. No final de 1880, decidiu voltar mais uma vez para a África. Seria sua última viagem.
Em 1º de fevereiro de 1881, já em Cartum, escreveu ao pai contando que havia conseguido chegar do Cairo com uma caravana de membros de seus institutos. Ainda estava cheio de projetos. Naquele período escreveu: “Fazendo nós o nosso dever, sairemos vencedores.” E dava a razão: “Deus est pro nobis” — “Deus está conosco.”
Em outra carta explicou a lógica sobre a qual havia construído toda a obra: “Nós trabalhamos para Deus: deixemos a Ele o cuidado de tudo, e Deus nos ajudará.” E acrescentou: “A nossa Obra está fundada sobre a fé.” Sabia que esse modo de pensar poderia parecer loucura: “É uma linguagem que poucos entendem, mesmo entre os bons. Mas os Santos a entenderam, e somente eles devemos imitar.”
Comboni tinha apenas cinquenta anos, mas seu corpo estava consumido.
Continuava viajando, visitando missões, organizando comunidades, enfrentando dívidas, resolvendo problemas e cuidando de seus missionários. Em julho de 1881, encontrava-se em El Obeid, no Cordofão, e ainda realizou uma difícil exploração missionária na região dos montes Nuba.
Na viagem de retorno, uma tempestade caiu durante a noite e ele ficou exposto à chuva no meio da mata. Chegou a Cartum em 9 de agosto, já doente. Três dias depois, em 12 de agosto, escreveu ao cardeal Giovanni Simeoni: “Embora esteja doente [...] levanto-me por um instante da cama para dar-lhe notícia da minha chegada à minha residência principal de Cartum.”
Mesmo da cama continuava pensando na missão.
Os meses seguintes foram pesados. Novas doenças atingiram a comunidade. Alguns colaboradores morreram, outros ficaram gravemente enfermos. Vieram também problemas internos e acusações que feriram profundamente Comboni. Nas cartas aparece cada vez mais uma palavra que ele conhecia muito bem desde 1878: cruz.
No domingo, 2 de outubro de 1881, administrou quatorze batismos em Cartum. Foram os últimos batismos de sua vida!
Naqueles dias morreu o coadjutor Paolo Scandi. Francesco Pimazzoni ficou gravemente doente. Battista Fraccaro também foi atingido pela febre.
No dia seguinte, 3 de outubro, Comboni escreveu ao cardeal Simeoni. Faltavam apenas sete dias para sua morte. Informou que Pimazzoni havia pedido os últimos sacramentos, que Fraccaro estava de cama e acrescentou: “Eu mesmo estou oprimido por uma forte febre reumática.”
Naquela mesma carta aparece um grito que parece reunir os últimos vinte anos de sua vida:
“Meu Deus! Sempre cruzes!”
Mas imediatamente continua:
“Mas Jesus, dando-nos a cruz, nos ama.”
As cruzes, dizia ele, pesavam terrivelmente sobre seu coração, mas aumentavam sua coragem para “combater as batalhas do Senhor.”
E então escreveu algumas das últimas palavras de sua vida:
“Aconteça tudo aquilo que Deus quiser.”
“Deus nunca abandona quem n'Ele confia.”
E finalmente:
“Eu sou feliz na cruz, que, levada de boa vontade por amor de Deus,
gera o triunfo e a vida eterna.” (Scritti, 7246).
Era 3 de outubro de 1881.
Sete dias depois estaria morto.
No dia seguinte, 4 de outubro, ainda conseguiu escrever ao padre Giuseppe Sembianti. Depois, a febre aumentou rapidamente. O homem que havia atravessado desertos, viajado milhares de quilômetros, sobrevivido às febres, visto seus missionários morrerem, sido bispo, pároco, médico, enfermeiro e coveiro, agora estava deitado em Cartum. Tinha apenas cinquenta anos.
Na noite de 10 de outubro de 1881, Daniel Comboni morreu.
Morreu na África.
Morreu em Cartum.
Morreu no coração daquela missão à qual havia entregue sua juventude, sua saúde e todas as suas forças.
Quando era jovem, sua decisão havia sido resumida no grito:
“África ou morte!”
Vinte e quatro anos depois, as duas palavras finalmente se encontraram.
Mas suas últimas cartas mostram que, para Comboni, havia uma palavra ainda maior do que África e morte:
Deus.
No começo de 1881 havia escrito:
“Nós trabalhamos para Deus: deixemos a Ele o cuidado de tudo.”
Poucos dias antes de morrer:
“Aconteça tudo aquilo que Deus quiser.”
Depois:
“Deus nunca abandona quem n'Ele confia.”
E finalmente:
“Eu sou feliz na cruz, que, levada de boa vontade por amor de Deus, gera o triunfo e a vida eterna.”
Comboni morreu. A missão não!
Os missionários que havia formado continuaram. As missionárias continuaram. Os cristãos africanos continuaram. E aquela intuição que parecia quase impossível em 1864 continuou crescendo:
“Salvar a África com a África.”
Mais de cento e vinte anos depois, em 5 de outubro de 2003, São João Paulo II canonizou Daniel Comboni na Praça de São Pedro.
Talvez, porém, nenhuma frase dita sobre ele consiga explicar sua vida tão bem quanto aquilo que ele próprio escreveu quando a morte já estava próxima:
“Meu Deus! Sempre cruzes! Mas Jesus, dando-nos a cruz, nos ama.”
“Aconteça tudo aquilo que Deus quiser.”
“Deus nunca abandona quem n'Ele confia.”
“Eu sou feliz na cruz.”
No dia 10 de outubro de 1881, a vida de Daniel Comboni terminou. Seu sonho não.
FONTES PRINCIPAIS
— COMBONI, Daniel. Scritti. Edição dos escritos e da correspondência de São Daniel Comboni, Archivio Comboniano / Missionários Combonianos. Particularmente os escritos relativos à epidemia e às mortes de 1878, Scritti 5632ss., e a correspondência dos últimos meses de 1881, culminando em Scritti 7246.
— COMBONI, Daniel. Correspondência de Cartum, 24 de outubro de 1878, sobre a epidemia, a falta de sacerdotes e suas funções de bispo, pároco, superior, médico, enfermeiro e coveiro.
— COMBONI, Daniel. Relatórios e correspondência de 1878–1879 sobre a carestia, epidemia, mortes dos membros da missão e morte do padre Antonio Squaranti.
— COMBONI, Daniel. Carta ao cardeal Giovanni Simeoni, Cartum, 12 de agosto de 1881, sobre sua chegada a Cartum já doente.
— COMBONI, Daniel. Carta ao cardeal Giovanni Simeoni, Cartum, 3 de outubro de 1881, especialmente Scritti 7243–7246: “Aconteça tudo aquilo que Deus quiser”; “Deus nunca abandona quem n'Ele confia”; “Eu sou feliz na cruz...”
— COMBONI, Daniel. Carta ao padre Giuseppe Sembianti, Cartum, 4 de outubro de 1881, pertencente ao último núcleo de correspondência escrito poucos dias antes de sua morte.
— SÃO JOÃO PAULO II. Homilia da canonização de Daniel Comboni, Praça de São Pedro, 5 de outubro de 2003.
— Missionários Combonianos / Archivio Comboniano. Documentação biográfica e cronológica sobre São Daniel Comboni e os últimos meses de sua vida, baseada nos Scritti e na documentação original da missão da África Central.