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16 set 2026

☀️ Santo do dia: São Cipriano de Cartago

É possível nascer de novo


Um homem brilhante no coração de Cartago


Cipriano nasceu no início do século III em Cartago, no norte da África, uma das maiores e mais ricas cidades do Império Romano. Pertencia a um ambiente pagão abastado e recebeu uma excelente formação intelectual. Tornou-se mestre de retórica, profissão de grande prestígio: saber falar, argumentar e convencer podia abrir as portas da carreira pública e colocar um homem entre as pessoas influentes da cidade. Cipriano conheceu por dentro o mundo das honras, do dinheiro, das relações sociais e da busca pelo sucesso. Mais tarde, olhando para sua antiga vida, descreveria uma sociedade fascinada pelo luxo, pelos espetáculos, pela riqueza e pelo poder, mas profundamente inquieta. Ele próprio havia vivido nesse ambiente. Tinha cultura, posição e possibilidades. Faltava-lhe, porém, algo que nenhuma delas conseguia oferecer: uma vida interiormente nova.


Os hábitos haviam se tornado correntes


Depois da conversão, Cipriano contou ao amigo Donato o que acontecia dentro dele. Sentia-se “preso e enredado nos muitíssimos erros da minha vida anterior” e acreditava que dificilmente conseguiria libertar-se deles (Ad Donatum, 3). Durante anos, determinadas maneiras de viver haviam crescido junto com ele até parecerem parte de sua própria personalidade. Em Ad Donatum, Cipriano fala da sedução das honras, da riqueza, do luxo, do prestígio e da busca pelo prazer. Percebe também um mecanismo profundo: aquilo que repetimos muitas vezes acaba adquirindo sobre nós uma força enorme. Primeiro fazemos determinadas escolhas; depois as repetimos; finalmente começamos a pensar: “Eu sou assim e não consigo mais ser diferente.” Era exatamente esse o ponto em que Cipriano se encontrava.


O mundo que prometia liberdade


Cipriano começou também a enxergar as contradições daquele mundo. Nos tribunais falava-se solenemente de justiça, enquanto multidões se divertiam contemplando a violência dos espetáculos. Homens acumulavam riquezas e depois viviam com medo de perdê-las. Outros conquistavam posições elevadas e descobriam que, quanto mais subiam, mais precisavam lutar para permanecer no alto. O luxo exigia mais luxo; o reconhecimento exigia novos reconhecimentos. O homem aparentemente livre acabava dependente do dinheiro, da opinião dos outros, dos próprios desejos e da necessidade de continuar sendo admirado. Cipriano conhecia particularmente esse último mundo: sua profissão era justamente a palavra pública, a capacidade de impressionar e convencer. Começava a perceber que uma vida inteira podia ser gasta tentando conquistar coisas que, depois de conquistadas, não conseguiam dar paz.


“Como poderia tornar-me outro homem?”


Foi então que apareceu sua grande dificuldade diante do cristianismo. O Evangelho o atraía, mas parecia exigir uma vida que ele já não se julgava capaz de viver. Cipriano sabia raciocinar e começou a reconhecer o bem, porém descobriu que conhecer o bem não significa ainda possuir força para realizá-lo. Seus hábitos haviam crescido durante anos. Como arrancá-los de repente? Nesse aspecto, sua experiência se aproxima muito daquela que, cerca de 130 anos depois, Santo Agostinho descreveria nas Confissões: ambos eram africanos, homens cultos, mestres da palavra e convertidos adultos, conscientes da força que os desejos adquirem quando são repetidamente alimentados. A pergunta de Cipriano já não era simplesmente: “O cristianismo é verdadeiro?”. Tornava-se profundamente pessoal: “Mesmo que seja verdadeiro, conseguirei viver assim?”


Entregar-se a Deus antes de sentir-se capaz


Por volta do ano 246, Cipriano aproximou-se cada vez mais da comunidade cristã. Uma figura importante em sua conversão foi o sacerdote Ceciliano, ao qual permaneceu profundamente ligado. Aos poucos, Cipriano começou a compreender que o cristianismo não lhe propunha simplesmente um esforço gigantesco para corrigir sozinho sua vida. Anunciava algo muito maior: Deus podia fazer nascer nele um homem novo. E aqui aconteceu o passo decisivo. Cipriano deixou de perguntar somente “Será que eu consigo?” e começou a confiar naquilo que Deus poderia realizar nele. Não esperou tornar-se primeiro um bom cristão para depois pedir o Batismo. Aproximou-se do Batismo justamente porque acreditou que Deus poderia realizar aquilo que ele, sozinho, não conseguia.


O Batismo: um segundo nascimento


Depois aconteceu aquilo que Cipriano julgava impossível. Anos mais tarde, ao contar sua experiência a Donato, utilizou uma linguagem claramente batismal. Pela “água regeneradora”, escreve, foi lavada a mancha de sua vida anterior; então “uma luz do alto” se derramou sobre seu coração e, recebido do céu o Espírito, “o segundo nascimento me restaurou como um homem novo” (Ad Donatum, 4). Aquilo que antes parecia impossível começou a tornar-se possível. Hábitos que pareciam fazer parte inevitável de sua personalidade começaram a perder força. Cipriano fez uma descoberta decisiva: havia confundido seus hábitos com sua identidade. Seu passado era real e suas fraquezas continuavam existindo, mas não possuíam a última palavra sobre sua vida. A graça de Deus podia chegar onde sua força de vontade não chegava.


A conversão chegou também ao seu dinheiro


A mudança tornou-se imediatamente concreta. Cipriano começou a utilizar seus bens de outra maneira, e seu primeiro biógrafo, o diácono Pôncio, que o conheceu pessoalmente, recorda sua generosidade para com os pobres. Aquele homem habituado a uma posição social privilegiada começou a descobrir outra espécie de riqueza. A Escritura passou a alimentar sua inteligência; a oração entrou profundamente em sua vida; os necessitados passaram a ocupar o lugar que antes pertencia à preocupação consigo mesmo. Sua transformação impressionou a comunidade cristã de Cartago. Em pouco tempo entrou no clero, tornou-se sacerdote e, por volta de 248–249, foi escolhido bispo de Cartago. Pouquíssimos anos haviam transcorrido desde seu Batismo. O antigo mestre de retórica agora colocava sua inteligência, sua palavra e sua capacidade de liderança inteiramente a serviço de Cristo.


Um recém-convertido diante de uma perseguição


Quase imediatamente começou a tempestade. Em 250, o imperador Décio ordenou que os habitantes do Império demonstrassem publicamente sua fidelidade religiosa mediante sacrifícios aos deuses. Para um cristão, aquilo significava negar concretamente sua fidelidade exclusiva a Cristo. Cipriano tornou-se alvo das autoridades e afastou-se temporariamente de Cartago, continuando a governar a comunidade por meio de cartas e mensageiros. Muitos cristãos permaneceram firmes, enfrentando prisão, perda dos bens e sofrimentos. Mas muitos outros tiveram medo e cederam. Alguns ofereceram sacrifícios; outros queimaram incenso; outros conseguiram certificados declarando ter obedecido às autoridades. Eram chamados lapsi: “os caídos”.


Os caídos começaram a voltar


Passado o momento mais violento da perseguição, aconteceu algo doloroso. Muitos daqueles cristãos voltaram à comunidade arrependidos e envergonhados, pedindo para serem novamente admitidos à plena comunhão da Igreja. A situação era delicadíssima. Ao lado deles estavam cristãos que haviam suportado prisão e torturas justamente porque se recusaram a fazer aquilo que os lapsi tinham feito. Surgiram duas tendências: alguns desejavam readmitir rapidamente os caídos; outros consideravam sua traição tão grave que praticamente não enxergavam possibilidade de retorno. Cipriano procurou conservar juntas duas verdades: a apostasia era gravíssima, mas a misericórdia de Deus continuava sendo maior que o pecado de um homem verdadeiramente arrependido.


Cipriano conhecia a força de uma queda


Aqui sua própria experiência de conversão ilumina profundamente sua atitude pastoral. Cipriano sabia o que significava olhar para a própria vida e sentir-se aprisionado pelo passado. Sabia também o que significava descobrir que Deus podia abrir um caminho onde o homem já não enxergava saída. Por isso exigiu dos lapsi arrependimento verdadeiro e penitência, mas manteve aberta a possibilidade da reconciliação. Bento XVI resumiu muito bem sua atitude: Cipriano foi “severo, mas não inflexível”. Ele não diminuía o pecado para facilitar a volta do pecador; acreditava que o pecador podia realmente mudar. Era exatamente aquilo que havia acontecido consigo. A graça não torna o pecado pequeno; torna possível que o pecador se levante.


Uma Igreja que não abandona os feridos


A mesma crise atingiu Roma. Depois do martírio do papa Fabiano, Cornélio foi eleito bispo de Roma em 251. Contra ele levantou-se Novaciano, iniciando um cisma e defendendo uma disciplina rigorista diante dos cristãos que haviam apostatado. Cipriano colocou-se decididamente ao lado de Cornélio. É por isso que a Igreja celebra os dois juntos em 16 de setembro. Em cidades diferentes, os dois defendiam uma Igreja que unisse verdade, penitência e misericórdia. Para Cipriano, a comunidade cristã não poderia tornar-se uma reunião daqueles que nunca haviam caído. Era uma mãe que precisava conduzir seus filhos à santidade e também curar aqueles que voltavam feridos depois de terem cedido ao medo.


“Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe.”


Nesse contexto Cipriano escreveu seu célebre tratado A unidade da Igreja Católica. Para ele, Cristo não reúne indivíduos independentes, mas forma um povo. Daí sua famosa afirmação: “Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe.” A imagem da mãe combina perfeitamente com sua maneira de compreender a comunidade cristã. Uma mãe não chama uma ferida de saúde, mas também não abandona o filho porque está ferido. Cipriano utilizava ainda a imagem da túnica sem costura de Cristo: a Igreja deveria permanecer unida. As perseguições podiam golpeá-la por fora; os cismas não deveriam rasgá-la por dentro. A unidade tornou-se uma das grandes paixões de seu episcopado.


Uma epidemia coloca o Evangelho à prova


Enquanto a Igreja ainda enfrentava essas divisões, uma grave epidemia atingiu Cartago e outras regiões do Império. A doença provocou medo, mortes e profunda desorganização social. Foi então que Cipriano pediu aos cristãos algo extraordinário: deveriam cuidar não apenas dos irmãos na fé, mas também dos pagãos. Pôncio recorda o bispo ensinando que amar somente aqueles que nos amam ainda não manifesta plenamente a novidade cristã. Aquele pagão enfermo continuava sendo um próximo, mesmo pertencendo à sociedade que pouco antes havia perseguido os cristãos. A conversão de Cipriano chegava agora a uma de suas consequências mais belas: o homem que antes vivera procurando sua própria posição organizava uma comunidade inteira para servir pessoas das quais não receberia nada em troca.


Os ricos davam dinheiro; os outros, as próprias mãos


Cipriano reuniu os cristãos e organizou concretamente a assistência. Pôncio descreve uma comunidade em que cada pessoa oferecia aquilo que possuía. Os ricos contribuíam com seus recursos; os outros ofereciam seu trabalho. Os enfermos precisavam ser atendidos, e a caridade cristã ultrapassava as fronteiras religiosas. Bento XVI destacaria justamente esse aspecto da vida de Cipriano: durante a epidemia, ele promoveu ajuda fraterna também aos pagãos, manifestando o espírito do Evangelho. O cristianismo que Cipriano havia abraçado no Batismo revelava agora toda a sua força. Nascer de novo significava também aprender a olhar de maneira nova para cada ser humano.


O Império volta a procurá-lo


Em 257, sob o imperador Valeriano, começou uma nova perseguição, dirigida particularmente contra os responsáveis pelas comunidades cristãs. Cipriano foi conduzido diante do procônsul Aspásio Paterno. Declarou-se cristão e bispo e permaneceu firme diante das exigências religiosas do Estado. Foi condenado ao exílio em Cúrubis, na costa africana, onde permaneceu aproximadamente um ano. Em 258, as medidas tornaram-se ainda mais severas: bispos, sacerdotes e diáconos que persistissem na fé poderiam ser executados. Cipriano compreendeu que sua própria morte estava próxima. O homem que anos antes se perguntava se teria força até mesmo para viver como cristão preparava-se agora para entregar a própria vida por Cristo.


A última noite


Oficiais foram buscá-lo e Cipriano foi colocado sob custódia. A notícia espalhou-se rapidamente por Cartago, e numerosos cristãos acompanharam os acontecimentos. Durante quase dez anos aquele bispo os havia conduzido através de perseguições, apostasias, conflitos internos e epidemias. Agora eram eles que permaneciam próximos enquanto seu pastor caminhava para o julgamento. No dia 14 de setembro de 258, Cipriano foi levado diante do procônsul Galério Máximo. Os antigos Acta proconsularia conservaram a impressionante sobriedade do interrogatório. O procônsul perguntou se aquele homem era Táscio Cipriano. Ele respondeu: “Sou.”


A escolha que agora parecia simples


O procônsul exigiu que Cipriano obedecesse às determinações dos imperadores. Ele permaneceu firme. Galério Máximo pronunciou então a sentença: o bispo de Cartago seria morto pela espada. Naquele instante, toda a história de Cipriano parecia chegar ao seu ponto final. O jovem rico que havia pensado não conseguir abandonar seus antigos hábitos estava agora diante de uma espada e podia conservar a vida renunciando à fidelidade que escolhera. Treze anos de transformação haviam feito sua obra. Ao ouvir a sentença de morte, Cipriano respondeu apenas: “Graças a Deus.”

Não precisou pronunciar um longo discurso. Sua própria vida já explicava aquelas palavras.


A caminho da espada


Cipriano foi conduzido ao lugar da execução, no chamado campo de Sexto, próximo de Cartago. A multidão cristã o acompanhou. Os antigos relatos conservaram detalhes muito humanos de seus últimos minutos. Cipriano retirou suas vestes exteriores e ajoelhou-se para rezar. Mandou entregar vinte e cinco moedas de ouro ao carrasco. Os cristãos colocaram panos diante dele para recolher seu sangue. Cipriano cobriu os olhos e recebeu ajuda para amarrar as mãos. Diante dele estava o homem que deveria executá-lo; ao redor, estavam os cristãos aos quais havia pregado, escrito, corrigido, perdoado e servido. Então o carrasco levantou a espada.

Em 14 de setembro de 258, Cipriano de Cartago foi decapitado.


Treze anos foram suficientes


Entre seu Batismo e seu martírio transcorreram apenas cerca de treze anos. Nesse pequeno espaço de tempo, o retórico pagão tornou-se cristão, sacerdote, bispo, escritor, pastor dos lapsi, defensor da unidade da Igreja, organizador da caridade durante uma epidemia, exilado e finalmente mártir. Mas existe uma profunda unidade entre o primeiro e o último momento dessa história. No começo, Cipriano olhava para seus antigos hábitos e pensava: “Não conseguirei tornar-me outro homem.” No Batismo descobriu que Deus podia fazer aquilo que suas próprias forças não conseguiam. Depois passou a vida anunciando essa possibilidade também aos outros — inclusive àqueles que haviam caído gravemente.

Sua própria frase tornou-se a melhor explicação de sua vida:

“O segundo nascimento me restaurou como um homem novo.”


 (Ad Donatum, 4)

O homem que experimentou essa misericórdia não ensinou que qualquer escolha dava no mesmo. Pelo contrário: levou tão a sério sua escolha por Cristo que terminou dando a vida por ela. Mas também aprendeu que ninguém precisa permanecer para sempre aquilo que seus pecados fizeram dele. O Batismo havia respondido à pergunta que atormentara sua conversão: sim, era possível começar de novo.

E treze anos depois, diante da espada, Cipriano demonstrou até onde aquele novo nascimento o havia levado.

“Graças a Deus.”

Fontes principais: São Cipriano, Ad Donatum, especialmente 3–4; De catholicae Ecclesiae unitate; De mortalitate; cartas relativas aos lapsi, às perseguições e ao papa Cornélio; Pôncio, Vita et Passio Cypriani; Acta Proconsularia Sancti Cypriani; Bento XVI, Audiência Geral sobre São Cipriano, 6 de junho de 2007.



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