
20 lug 2026
☀️ Santo do dia: São Apolinário de Ravena:
o discípulo de São Pedro que deu a vida pelo Evangelho
No século I, anunciar Jesus Cristo era uma decisão que podia custar a própria vida. Ainda não existiam igrejas, seminários ou liberdade religiosa. Os cristãos reuniam-se discretamente nas casas, e bastava professar a fé para ser preso ou condenado.
Foi nesse tempo que viveu São Apolinário, um dos primeiros grandes missionários da Igreja e o primeiro bispo de Ravena.
Segundo uma tradição muito antiga, Apolinário nasceu em Antioquia da Síria, por volta dos anos 30-35 d.C.. Naquela época, Antioquia era uma das maiores cidades do Império Romano e um dos primeiros centros do cristianismo. Foi ali que, pela primeira vez, os discípulos de Jesus receberam o nome de cristãos (cf. At 11,26). Foi também ali que Apolinário conheceu a pregação dos Apóstolos e se tornou discípulo de São Pedro.
A tradição conservada pela Igreja de Ravena conta que Pedro percebeu naquele jovem uma fé profunda, grande coragem e um coração inteiramente disponível para Deus.
Quando chegou o momento de expandir a evangelização, confiou-lhe uma missão muito difícil. Enviou-o para Ravena, importante cidade portuária do norte da Itália e uma das capitais administrativas do Império Romano.
Ali quase ninguém conhecia Jesus Cristo. A cidade era cheia de templos pagãos, sacerdotes dos antigos cultos e autoridades profundamente ligadas à religião romana. Apolinário chegou praticamente sozinho. Não levava riquezas. Não possuía soldados. Não tinha influência política. Levava apenas o Evangelho.
Começou visitando as famílias, anunciando a Boa-Nova, rezando pelos doentes e formando pequenas comunidades cristãs. Sua pregação era simples, mas cheia de convicção.
As antigas tradições da Igreja de Ravena afirmam que Deus confirmou seu ministério com diversos milagres. Muitos doentes recuperaram a saúde, cegos voltaram a enxergar e numerosas pessoas se converteram ao cristianismo.
Esses acontecimentos despertaram admiração entre muitos habitantes da cidade. Mas provocaram também a reação dos sacerdotes pagãos. Logo começaram as perseguições.
Apolinário foi preso pela primeira vez. Conduzido diante das autoridades, recebeu uma proposta aparentemente simples. Bastava oferecer um sacrifício aos deuses do Império. Poderia voltar para casa em liberdade. Mas respondeu com firmeza que somente Jesus Cristo é o verdadeiro Senhor. Foi espancado, humilhado, expulso da cidade. Qualquer pessoa imaginaria que nunca mais voltaria. Entretanto, assim que recuperou as forças, retornou a Ravena e retomou exatamente o trabalho que havia deixado.
Essa cena repetiu-se diversas vezes. As antigas tradições narram sucessivas prisões, espancamentos, torturas e exílios. Cada vez que era libertado, Apolinário voltava imediatamente para junto do seu povo. Não aceitava abandonar aqueles cristãos recém-convertidos.
Com o passar dos anos, a pequena comunidade cresceu. Novos diáconos foram ordenados. Novos presbíteros passaram a anunciar o Evangelho. Famílias inteiras receberam o Batismo. A Igreja enraizou-se definitivamente em Ravena graças à perseverança daquele bispo missionário.
Segundo a tradição da Igreja local, São Apolinário exerceu seu ministério episcopal durante cerca de trinta anos, aproximadamente entre os anos 70 e 98 d.C.. Embora essa cronologia não possa ser estabelecida com absoluta precisão, ela exprime uma certeza conservada desde a Antiguidade: Apolinário permaneceu durante décadas ao lado do povo que Deus lhe confiara.
Sua vida foi marcada por extraordinárias virtudes. A primeira delas foi a coragem apostólica. Deixou Antioquia, uma das maiores cidades do Oriente, para evangelizar uma terra onde Cristo praticamente não era conhecido. Não procurou segurança. Não buscou prestígio. Colocou toda a sua confiança na força do Evangelho.
Brilhou também sua caridade pastoral. As tradições mais antigas insistem que dedicava grande parte do seu tempo aos pobres, aos doentes e aos perseguidos. Não fazia distinção entre ricos e humildes. Via em cada pessoa um filho amado de Deus.
Outra característica impressionante foi sua fortaleza. As perseguições nunca conseguiram quebrar sua fidelidade. Depois dos espancamentos voltava a anunciar Cristo. Depois dos exílios regressava à cidade. Depois das prisões retomava imediatamente sua missão.
Parecia compreender profundamente as palavras de Jesus: "O bom pastor dá a vida por suas ovelhas." (Jo 10,11) Destacou-se igualmente pela perseverança.
Durante aproximadamente três décadas continuou formando cristãos, organizando a comunidade, preparando novos ministros e anunciando o Evangelho sem jamais desanimar. Sabia que o Reino de Deus cresce lentamente, como uma semente lançada na terra.
As antigas fontes também destacam sua intensa vida de oração. Os milagres atribuídos ao seu ministério nunca foram apresentados como demonstrações de poder pessoal, mas como fruto de uma profunda união com Deus. Sua força nascia da oração.
Por fim, brilhou nele uma admirável fidelidade. Mesmo sabendo que cada novo retorno a Ravena poderia custar-lhe a vida, nunca abandonou a missão recebida de São Pedro. Preferiu colocar a própria existência em risco a deixar sem pastor a comunidade cristã. Depois de muitos anos de perseguições, chegou a última prova.
Por volta do ano 98 d.C., sofreu um violentíssimo espancamento por causa da fé. Gravemente ferido, permaneceu ainda alguns dias junto dos cristãos, confortando-os e exortando-os a permanecer firmes em Cristo. Pouco depois, entregou serenamente sua alma ao Senhor.
A comunidade cristã sepultou seu corpo nos arredores de Ravena e começou imediatamente a venerá-lo como mártir.
Séculos mais tarde, exatamente sobre o local de sua sepultura, foi construída a magnífica Basílica de Sant'Apollinare in Classe, consagrada no ano 549.
Até hoje ela conserva alguns dos mais belos mosaicos do mundo cristão. No centro da abside aparece São Apolinário de braços erguidos para o céu, rodeado por doze cordeiros que representam seu rebanho.
Referências históricas
Martirológio Romano, 20 de julho.
Agnello de Ravena, Liber Pontificalis Ecclesiae Ravennatis (século IX), principal fonte tradicional sobre São Apolinário.
Vatican News, São Apolinário, bispo e mártir.
Bibliotheca Sanctorum, verbete Apollinare di Ravenna.
Basílica de Sant'Apollinare in Classe (Ravena), testemunho arqueológico do antigo culto ao santo.
Louis Duchesne, Le Liber Pontificalis, comentários sobre as tradições das primeiras Igrejas episcopais do Ocidente.