
2 set 2026
☀️ Santo do dia: Os Mártires de Setembro de Paris
“Não ouvi queixar-se nenhum daqueles que vi serem massacrados”
Paris, 2 de setembro de 1792. A Revolução Francesa atravessava uma de suas fases mais violentas. Dois anos antes, a Constituição Civil do Clero havia reorganizado a Igreja na França e exigido dos eclesiásticos um juramento que muitos consideravam incompatível com sua fidelidade à Igreja e ao Papa. Centenas de sacerdotes recusaram. Perderam suas paróquias, foram perseguidos e presos. Em agosto de 1792, depois da queda da monarquia e diante do avanço dos exércitos estrangeiros, Paris mergulhou num clima de medo e violência. Cerca de 350 eclesiásticos estavam presos na capital. Muitos deles seriam mortos entre 2 e 5 de setembro.
Mais de uma centena estavam encarcerados no antigo convento dos Carmelitas Descalços, na rue de Vaugirard. Entre eles encontravam-se três bispos: Jean-Marie du Lau d’Allemans, arcebispo de Arles, e os irmãos François-Joseph e Pierre-Louis de La Rochefoucauld, bispos de Beauvais e Saintes. Havia também sacerdotes, religiosos, diáconos e seminaristas. Entre eles estava Salomão Leclercq, Irmão das Escolas Cristãs, preso em 15 de agosto por ter recusado o juramento exigido.
Na tarde de 2 de setembro, os prisioneiros começaram a ouvir o barulho vindo das ruas. Gritos, tambores, tiros. Por volta das quatro da tarde, o toque dos sinos de Saint-Sulpice acompanhou a chegada dos homens armados. O padre Saurin, jesuíta que conseguiu sobreviver, recordaria depois o contraste impressionante entre o tumulto do lado de fora e a serenidade dos sacerdotes dentro do convento.
Alguns se refugiaram na capela. Os sacerdotes confessaram-se e deram mutuamente a absolvição. Não tinham armas. Não organizaram uma resistência. Prepararam-se para morrer. Depois os agressores entraram no jardim e a matança começou.
O arcebispo Jean-Marie du Lau estava entre os primeiros. Quando lhe perguntaram se era o arcebispo de Arles, não tentou esconder sua identidade: “Sim, sou eu.” Foi acusado de ter provocado desgraças em sua diocese. Respondeu: “Não tenho conhecimento de ter feito mal a ninguém.” Pouco depois recebeu um golpe de espada na cabeça e morreu.
Outros sacerdotes permaneceram rezando enquanto ouviam os companheiros serem assassinados. O padre Gabriel Desprez de Roche, diante da chegada dos agressores, deixou uma frase que resume o espírito daqueles homens: “Não poderíamos estar em lugar melhor do que aos pés da Cruz para oferecer o sacrifício de nossas vidas.”
Depois das primeiras mortes, os assassinos organizaram uma espécie de tribunal improvisado. Os prisioneiros eram chamados e interrogados. Uma das questões decisivas era o juramento exigido aos eclesiásticos. “Prestastes o juramento?” A resposta dos sacerdotes era clara: não haviam prestado e não o prestariam. A profissão de fidelidade que a tradição daqueles processos conservou podia ser resumida assim: “Pertenço à Igreja Católica, Apostólica e Romana.”
Então vinha a sentença: “Vossa conta está feita.”
O sacerdote atravessava a pequena saída que ligava a capela ao jardim. Do outro lado estavam homens armados com espadas, sabres, lanças e outras armas. Um após outro, os prisioneiros eram golpeados e mortos.
Ali morreram os bispos François-Joseph e Pierre-Louis de La Rochefoucauld. Ali morreram sacerdotes idosos e jovens. Ali morreu também o Irmão Salomão Leclercq, aos 46 anos, executado nos degraus que davam para o jardim.
O padre La Pannonie foi ferido, mas conseguiu sobreviver. Seu testemunho conservaria para a história a impressionante serenidade com que seus companheiros enfrentaram aqueles últimos momentos.
Há ainda um testemunho vindo do outro lado. Violette, um funcionário que assistiu aos acontecimentos, ficou impressionado com a maneira como aqueles homens caminhavam para a morte. Segundo seu testemunho, pareciam caminhar: “Como para uma festa de casamento.”
Eles ouviam os golpes, os tiros e os gritos. Sabiam que os companheiros que atravessavam aquela porta não voltavam. Cada nome chamado significava que provavelmente havia chegado a vez de outro morrer. E mesmo assim permaneceram.
A matança não aconteceu somente no convento dos Carmelitas. Na abadia de Saint-Germain-des-Prés, no seminário de Saint-Firmin e nas prisões de La Force, outros sacerdotes e religiosos foram assassinados. Entre as milhares de vítimas dos Massacres de Setembro, a Igreja reconheceu posteriormente 191 homens mortos por sua fidelidade à fé e à comunhão com a Igreja: três bispos, 181 sacerdotes, dois diáconos, um clérigo e quatro leigos.
E o padre La Pannonie, depois de ver seus companheiros caírem um após outro, deixou a frase que talvez melhor resuma aquele 2 de setembro de 1792:
“Não ouvi queixar-se nenhum daqueles que vi serem massacrados.”
Fontes
A reconstrução baseia-se principalmente na documentação histórica reunida pela Diocese de Paris sobre os Mártires de Setembro, incluindo o testemunho do sobrevivente abbé de Lapize de La Pannonie, e na documentação oficial sobre São Salomão Leclercq preparada pela Santa Sé para sua canonização em 2016. A Diocese de Paris registra cerca de 350 eclesiásticos presos, a absolvição dada mutuamente pelos sacerdotes, o massacre no jardim e na escada dos Carmelitas e a frase de La Pannonie. A documentação vaticana confirma a prisão e morte de Salomão Leclercq por sua recusa ao juramento.